quarta-feira, 23 de abril de 2008

As décadas de Roberto Carlos - Anos 60




Olá, amigos.

Como o mês de abril é um período de comemoração para todos os que acompanham Roberto Carlos, a partir de hoje este fotolog faz uma retrospectiva da carreira de RC através de um panorama por décadas de sua obra - e também mostrando o contexto no qual ocorreram seus momentos mais marcantes. A série As décadas de Roberto Carlos começa abordando a década de 1960.

O mundo ainda vivia sob o ranço da denominada Guerra Fria, ainda conseqüência do fim da Segunda Guerra Mundial, e a rixa entre Estados Unidos e União Soviética gerou fortes efeitos colaterais ao mundo. Nesta guerra não-declarada entre o capitalismo e o socialismo, as lutas por áreas de influência nos países subdesenvolvidos e as corridas armamentista e tecnológica chegaram às vias de fato em momentos que comoveram o mundo - as guerras da Coréia e do Vietnã.

Os norte-americanos tiveram o dissabor de ver seu então presidente John Kennedy morrer em um atentado em 1963 (apenas dois anos depois de assumir a presidência). Mas seis anos depois assistiram pela televisão a uma grande vitória tecnológica sobre os soviéticos: a chegada de Neil Armstrong, um de seus homens, à Lua, com transmissão ao vivo pela televisão. As imagens do astronauta conseguiram ofuscar dois feitos da União Soviética que ocorreram nesta década: a ida de Iuri Gagarin ao espaço (de 1961) e o envio de um robô até a Lua (no ano de 1966).

O Brasil começou sua década vivendo ainda sob a euforia dos Anos Dourados pintados na segunda metade da década anterior. O reconhecimento do "jeitinho brasileiro de fazer música" definido como Bossa Nova e o primeiro triunfo da Seleção Brasileira de Futebol no ano de 1958 tiveram um grande aliado político - o presidente Juscelino Kubistcheck. JK, o "presidente Bossa Nova", fez em 21 de abril de 1960 um grande momento da história de nosso país: a inauguração da atual capital, Brasília, e a transferência do centro político nacional para o Centro-Oeste. No futebol, o Brasil teve um novo alento. A geração de 58, mesmo quatro anos mais velha e com Pelé tendo se contundido na segunda partida do torneio, passou por seus adversários e, no último jogo, venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1, retornando do Chile como vencedora da Copa do Mundo de 1962.


Entretanto, após Juscelino deixar o poder, a política do país começou a sua derrocada. Eleito na corrida eleitoral de 1960, Jânio Quadros renunciou em 1961, depois de apenas oito meses sentado na cadeira mais importante do Brasil - e atitudes contraditórias, como condecorar o "líder comunista" Che Guevara e ao mesmo tempo proibir, dentre outras coisas, o uso de biquínis nas praias, as corridas de cavalo nos dias de semana e a comercialização de lança-perfumes. Em seu lugar, assumiu João Goulart, político mal visto por militares e por conservadores da sociedade brasileira, que o viam como um "perigo vermelho".

Após tentativas sem sucesso de colocar o governo sob o sistema parlamentarista, um grupo de militares se reuniu para destituir João Goulart de seu cargo. Na madrugada de 31 de março para primeiro de abril de 1964, a "revolução" dos generais dava seus primeiros passos rumo à Ditadura Militar. Seria o começo de longos anos de chumbo, inicialmente com o poder nas mãos de Castello Branco, para depois chegar a Artur da Costa e Silva e culminar no governo de Emílio Garrastazu Médici - que encerrou a década com o terror das constantes prisões e torturas e da censura cada vez mais forte, promovidos pelo Ato Institucional Número 5, de dezembro de 1968 (e traria graves conseqüências para a década seguinte, mas isso é um assunto para o próximo post).

A última Copa do Mundo da década pôde ser vista como um paralelo entre a confusão política do país com o desempenho do futebol brasileiro. Vítima de uma falta de organização tamanha (que fez com que, inclusive, o Brasil chegasse a ter 44 jogadores à disposição para, dentre eles, escolher os 11 titulares para a Copa), o Brasil voltou para casa bem mais cedo na Inglaterra, em 1966. Com Pelé caçado em campo o tempo todo, o Brasil foi eliminado na primeira fase, após uma inexpressiva vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária e derrotas por 3 a 1 para Hungria e Portugal.


E foi graças à Inglaterra que o cenário musical respirou canções apresentadas por quatro rapazes de Liverpool. John Lennon, Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison se reuniram e fizeram os Beatles, com seu som de ontem, hoje e sempre povoando céus de diamantes num universo de Michelles, Eleanors Rigbys e tantos outros que passaram a cantar suas músicas.

Os Beatles influenciaram o universo da música, talvez na tentativa de serem "maiores do que Deus" (como eles mesmos definiam suas pretensões artísticas), e proporcionaram a ascensão do movimento do 'iê-iê-iê' no Brasil. Depois das federações de futebol probirem a exibição de partidas aos domingos (pois esvaziavam os estádios), a TV Record deixou espaço para suas tardes ficarem mais jovens na festa de arromba apresentada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, com o nome de Jovem Guarda.

Também foi graças à TV Record que a Música Popular Brasileira foi apresentada a nomes que até hoje fazem história em nosso cancioneiro. A emissora organizou festivais de música popular, no qual apareceram nomes de compositores e cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Nara Leão, e tantos outros. A televisão brasileira ainda teria uma data histórica nesta década: em 26 de abril de 1965, a Rede Globo começava suas transmissões.

Para Roberto Carlos, os anos 60 foram uma década de transformação. Após gravar alguns compactos que passaram desapercebidos entre 1959 e 1960, ele lançou pela CBS seu primeiro LP: Louco por você, de 1961. Cantando um repertório que ia do rock ao bolero, Roberto não teve repercussão com este disco - tanto que ele nunca mais permitiu o lançamento do LP, atualmente objeto de cobiça de muitos colecionadores de vinis, que se dispõem a pagar 3 mil reais por suas 12 primeiras gravações em long-play.

Após o "não" do estilo da Bossa Nova de seus compactos e o "não" ao estilo eclético do primeiro disco, foi ao som do "iê-iê-iê" que Roberto Carlos seguiu a trilha da guinada de sua carreira. No ano de 1963, RC chegou às paradas de sucesso parando na contramão e contando a história do Splish splash. No ano seguinte, uma nova leva de sucessos com É proibido fumar e O calhambeque.

E se abriu o caminho para a Jovem Guarda. Cantando para a juventude, RC foi do inferno (Quero que vá tudo pro inferno) ao céu (Eu te darei o céu) apresentando canções sobre amores, brotos e sempre numa velocidade quentíssima. Num ritmo cada vez mais acelerado, Roberto chegou às telas do cinema, com o irreverente Roberto Carlos em ritmo de aventura , dirigido por outro Roberto, o Farias, e dirigindo ao público outros grandes momentos como Por isso corro demais, E por isso estou aqui e a singela declaração de amor de Como é grande o meu amor por você.

Roberto Carlos estava terrível, mas, já era bom parar... A Jovem Guarda já ficava envelhecida aos olhos e ouvidos do público, sofrendo o ônus de um dos motivos pelos quais teve tanto destaque no momento musical brasileiro: a superexposição da mídia. No turbilhão da Tropicália, RC buscava novos rumos naquele fim de década, e, em meio a tantos imitadores de seu estilo "jovem-guardista", ousou se declarar O inimitável, e lançar um disco no qual sua voz se deitou por vários estilos de música - dos primeiros passos pelo soul em Se você pensa até o intimismo absoluto de Madrasta.

Ele também se arriscou a fazer apresentações nos "seletos" festivais de música brasileira, defendendo canções como América, América (de César Roldão Vieira) e Anoiteceu (de Francis Hime e Vinícius de Moraes), mas conseguindo repercussão apenas em 1967, quando deu o quinto lugar para a belíssima Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná. A Jovem Guarda teve seu fim simbolizado no segundo filme de sua carreira - Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, aventura que protagonizou ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa, que chegou aos cinemas em 1970.

No último disco da década, Roberto já mostrava uma nova faceta de seu estilo intérprete - a soul music, a música negra americana, presente não só no estilo mais "adulto" de canções fantásticas como As flores do jardim da nossa casa, As curvas da estrada de Santos e Sua estupidez, mas também na inclusão de Não vou ficar, escrita por Tim Maia. O estilo soul passaria pelos discos de RC por mais alguns discos - mas isso é um assunto para o próximo post.

Em meio a tantas nuances, certamente a mais marcante de todas para os anos 60 de Roberto Carlos veio de terras italianas. Em fevereiro de 1968, RC se apresentou no célebre Festival de San Remo, e proporcionou não só mais um momento de consagração da música brasileira num evento internacional, como também uma certeza para aqueles que proclamavam seu fim para a música depois que acabou a Jovem Guarda. Como disse Nelson Motta ao relembrar aquela vitória inédita para nossas cores e sons: "Roberto saiu consagrado do festival, virou estrela consagrada na Itália, começou a se tornar conhecido na Europa, ficou maior do que a Jovem Guarda e o Fino da Bossa de Elis Regina, juntos".

E é esta canção lançada em compacto no ano de 1968 e depois relançada na compilação de 1976 intitulada San Remo 68 que este fotolog recorda a década de 1960 de Roberto Carlos. A música ainda fez parte do LP Ao vivo, lançado em meados de 1988, que trouxe RC durante o show Detalhes relembrando toda aquela emoção que os versos de Endrigo e Bardotti apresentam para sua carreira.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos na apresentação em San Remo. Um olhar mais atento em sua mão mostra um dado curioso: lá estava escrita a letra da canção, pois os autores mudaram a letra abaixo às vésperas da apresentação. Mas, pelo que se disse na época, Roberto não precisou recorrer à "cola".

Abraços a todos, Vinícius.

CANZONE PER TE - Sergio Endrigo e Sergio Bardotti

La festa appena cominciata è già finita
Il cielo non è più com noi
Il nostro amore era l’invidia di chi è solo
La mia ricchezza, la tua allegria

Perché giurare che sarà l’ultima volta
Il cuore non ti crederà
Qualcuno ti darà la mano
E con un bacio un’altra storia nascerà

E tu, tu mi dirai
Che sei felice come non sei stata mai
E un’altra volta io dirò
Le cose che dicevo a te

Ma oggi devo dire che ti voglio bene
Per questo canto e canto te
La solitudine che mi haii regalato
Io la coltivo come un fiore

Ma oggi devo dire che ti voglio bene
Per questo canto e canto te...

3 comentários:

Leda disse...

Nossa...quanta coisa aconteceu na década de 60...nasci em 1965, ano da jovem guarda; que foi ao ar no dia 22 de agosto do mesmo ano.
Parabéns pos suas palavras, Vinícius.
Um abraço,
Leda Martins.

Paula (Portugal) disse...

Amigo Vinícius, muito bom e bastante instrutivo (estou-me referindo a mim) este historial da década de 60, principalmente no que respeita ao "clima político" que se viveu no Brasil nessa época!...
Um enquadramento muito bem feito de Roberto Carlos nessa década de 60, o que em muito contribui para entendermos "como tudo aconteceu...".
E para finalizar, para fechar com chave de ouro este post, nada melhor do que a "Canzone per te".
Parabéns Vinícius, você é um mestre na arte de escrever, de narrar e de nos conseguir prender ao seu texto do princípio ao fim.
Um grande abraço.

Everaldo Farias disse...

A década de 60 é linda porque mostra o surgimento e a evolução do artista que seria o maior astro da música de todos os tempos!
Sem falar que foi nessa época que surgiram canções divinas como Como é grande o meu amor por você, As curvas da estrada de Santos e Sentado à beira do caminho!

Blog Música do Brasil
www.everaldofarias.blogspot.com

Um forte abraço!