terça-feira, 29 de abril de 2008

As décadas de Roberto Carlos - Anos 90



Olá, amigos.

Em seu quarto post, a série As décadas de Roberto Carlos chega aos anos 90, um período marcado por momentos políticos conturbados e grandes avanços tecnológicos. E que, em meio ao cenário musical, novamente trouxe RC em seu cancioneiro popular.

A década de 1990 começou com a definitiva derrocada do regime comunista, que fez ocorrer a dissolução definitiva da União Soviética e alçou os Estados Unidos ao título de única superpotência mundial. No entanto, o fim definitivo da Guerra Fria não pôde ser comemorado, pois logo iniciou-se uma guerra que esquentou a parte bélica americana.

Achando-se detentor de poderes absolutos sobre todo o território mundial, o país comandado por George Bush decidiu intervir no atrito entre o Iraque e o Kuwait sobre as zonas de petróleo da região do Golfo Pérsico. Num massacre apresentado pela rede americana de televisão CNN, os telespectadores de todo o mundo viram imagens de um conflito que mais parecia saído de um videogame, mas que causou na vida real uma baixa de mais de 100 mil soldados do Iraque, além de cerca de mil pessoas por parte das forças "de coalizão" (além dos Estados Unidos, adentraram no território soldados da Grã-Bretanha, Egito e Arábia Saudita).

O mundo ainda assistiria outros conflitos ideológicos chegarem a vias de fato lamentáveis, como os contínuos protestos em oposição à globalização e atentados terroristas. A Guerra da Bósnia, conflito entre três grupos diferentes (sérvios e cristãos ortodoxos, croatas e católicos romanos e bósnios e muçulmanos), gerou três anos de violência na região da Bósnia e Herzegovina até seu fim, em 1995.

Mas na década de 1990 aconteceriam alguns movimentos que sinalizaram a luta pela igualdade entre os homens. O primeiro deles foi o fim do separatismo do apartheid na África do Sul, que desde 1948 obrigava os negros a terem uma vida separada dos cidadãos de cor branca (detentores de direitos políticos e de cidadania), simbolizado na chegada de Nelson Mandela à presidência. O outro foi o Tratado de Paz entre Israel e Jordânia, ocorrido em 1994, mas que não chegaria a durar tanto tempo.

Na parte tecnológica, esta é a década com várias nuances do progresso cibernético, com destaque para o milionário Bill Gates, criador do sistema de computadores Windows. Com o passar dos anos e a popularização nos preços dos computadores, a população mundial passou a se conectar com o mundo, principalmente após o crescimento da Internet (primeiramente, com conexão associada à linha telefônica, para depois começar a acontecer contato através da conexão de banda larga). Outro produto que teve ascensão no cotidiano da população foi o aparelho de telefone celular.

Como já era apontado na década de 1980, o LP se tornou um produto obsoleto no mercado fonográfico, ainda mais quando os CDs foram se desenvolvendo graças a programas de remasterização que mantinham a pureza dos áudios originais dos vinis. No terreno espacial, ocorreram as chegadas de naves e sondas espaciais nos planetas Júpiter e Marte. A ciência apresentou a revolução do DNA, sistema que se tornou muito utilizado em testes de paternidade, além da primeira clonagem de um animal (a ovelha Dolly).

Mas a grande descoberta seria na parte médica. Nesta década, foi descoberta a síndrome da imunodeficiência aquirida (definida como AIDS), transmitida em especial através de compartilhamento de seringas, transfusões de sangue e de relações sexuais. O vírus do HIV nos levou cantores como Freddie Mercury e Cazuza.

No cenário musical, a década de 1990 foi marcada pelo momento em que a música chegou à televisão 24 horas por dia. Entrou no ar o canal MTV (Music Television), que deu ênfase a grupos como Pearl Jam, Seattle e Nirvana. Mas no ano de 1994 viria um golpe para este estilo de rock dos anos 90: Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, foi encontrado morto em sua casa.

Na segunda metade da década, a música traria destaque para conjuntos adolescentes como Spice Girls e Backstreet Boys, e cantores como Cristina Aguilera e Britney Spears. Também houve destaque para o rap, com artistas como Eminem e MC Hammer.

O Brasil iniciou a década com a prosperidade política novamente caindo em uma frustração. Em seu primeiro dia de mandato, o presidente Fernando Collor de Mello anunciou seu plano econômico (conhecido por analistas políticos como Plano Collor), que anunciou que uma das medidas era a desastrosa atitude de confiscar as poupanças bancárias de boa parte da população brasileira.

O descontentamento do povo brasileiro se tornou ainda mais alarmante quando foram reveladas falcatruas em negociações envolvendo os nomes de Collor e de seu braço direito na presidência, Paulo César Farias, além de declarações bombásticas de seu irmão, Pedro Collor. Pressionado pelo congresso (que em setembro de 1992 pediu seu impeachment, sacramentado na votação de deputados e senadores, com vitória do "sim" à saída de Collor por 441 votos contra 38), pelas manifestações populares com o grupo de "caras-pintadas" e por fortes campanhas da mídia (em especial a exibição da minissérie Anos rebeldes, da TV Globo, que mostrava as passeatas estudantis durante a Ditadura Militar - ações que inspiraram o "movimento dos caras-pintadas"), em dezembro de 1992 Fernando Collor de Mello renunciou à presidência.

Em seu lugar, o vice-presidente Itamar Franco tomou posse para o restante do mandato, e, em 1994, conseguiu uma conquista impensável nas décadas anteriores. A partir deste ano, a moeda brasileira passou a se chamar Real, e, sua paridade com o dólar fez com que a inflação despencasse. O sucesso do Plano Real fez com que o então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, fosse eleito como o ocupante da cadeira presidencial a partir de primeiro de janeiro de 1995.

O país conviveu com um boom de consumo, em especial por conta do real muitas vezes estar mais valorizado que o dólar. O governo de FHC também foi marcado por várias privatizações e pela abertura à política exterior (atitude tomada anteriormente por Collor). Fernando Henrique também aprovou a emenda da eleição, e, depois de quatro anos com um governo bem sucedido aos olhos da população, recebeu através das urnas o direito de ser o primeiro presidente a ter seu visto renovado na ocupação da cadeira mais importante do país. Em seu início de segundo mandato, a lua-de-mel do Plano Real foi combalida pela crise da Ásia, que tornou ainda mais forte a oposição ao neo-liberalismo iniciado em 1994.

A década do futebol brasileiro trouxe uma nova tendência da globalização. Nas três Copas do Mundo ocorridas nos anos 90, a maioria dos jogadores convocados estava defendendo as cores de equipes do futebol exterior. Além de ter de ver os ídolos apenas através da transmissão de jogos de outros países, com o tempo os adeptos do futebol teriam de se adequar a uma nova realidade: com a Lei Pelé, que deu o direito aos jogadores de serem donos de seus próprios "passes" a partir de determinada idade, ficou mais corriqueira a mudança de um clube para o outro em um curto espaço de tempo. Com isto, a identificação de um jogador com o clube de coração ficou cada vez mais rara.

Sob o comando de Sebastião Lazaroni e tendo um futebol burocrático, a Seleção Brasileira foi para a Copa do Mundo de 1990, na Itália, usando um esquema tático nos moldes do futebol europeu - dando ênfase a se defender, tendo como "líbero" o zagueiro Mauro Galvão e dando destaque ao meia defensor. Lazaroni inaugurou a "Era Dunga", maneira irônica com a qual comentaristas esportivos passaram a associar esta nova tendência do futebol brasileiro. Formada por jogadores como Müller, Careca e Bebeto, a Seleção teve uma campanha pífia na primeira fase e, nas oitavas-de-final, perdeu para a Argentina pelo placar de 1 a 0, não passando de um nono lugar. Naquele ano, a Alemanha foi a campeã. Foram atribuídas algumas razões para a eliminação precoce: a falta de união visível entre os jogadores e a contusão do artilheiro Romário às vésperas da Copa.

Na Copa seguinte, o "futebol de resultados" teve resultados melhores para o Brasil. Pela primeira vez desde 1970, a Seleção chegou à final, novamente contra a Itália. Comandada por Romário (artilheiro do Brasil na Copa do Mundo) e tendo jogadores como Bebeto, Branco e Mazinho, o time comandado por Carlos Alberto Parreira e tendo Zagallo como coordenador técnico venceu nos pênaltis os italianos pelo placar de 3 a 2 (após empate em 0 a 0 no tempo normal), e voltou dos Estados Unidos com o título de 1994.

No ano de 1998, o Brasil chegou como amplo favorito para a Copa realizada na França. O favoritismo se manteve mesmo com o corte de Romário às vésperas do torneio e o tropeço na primeira fase (derrota por 2 a 1 para a Noruega). Entretanto, um incidente até os dias de hoje inexplicável à população mundial (a possível crise convulsiva que o atacante Ronaldo sofreu do dia da partida final) fez com que a Seleção entrasse em campo abatida e não tivesse nenhuma reação diante da anfitriã França, que, comandada por Zidane, venceu o Brasil (comandado por Zagallo e tendo Zico à frente do cargo de auxiliar) pelo placar de 3 a 0.

A televisão brasileira também passou a década anseando pelos resultados. Na luta pela audiência (em especial depois do advento da "TV a cabo"), as emissoras buscavam várias formas - até mesmo escusas - de prender o telespectador. Entraram em cena programas sensacionalistas como Aqui agora e Ratinho livre, e os programas de auditório de Fausto Silva e Gugu Liberato recorreram a atrações um tanto quanto indigestas ao gosto do público. E o país teve dados lamentáveis de sobra para expor nestes programas que se aproveitavam do "mundo cão": o cruel assassinato da atriz Daniella Perez pelo colega de cena Guilherme de Pádua, a queda do avião que matou o conjunto Mamonas Assassinas e o desabamento dos prédios do condomínio Palace II, no Rio de Janeiro.

Do outro lado, a teledramaturgia se desenvolveu e, cada vez mais, buscando abordar temas polêmicos ou próximos do cotidiano brasileiro, além de realizar grandes produções em suas séries. Mas a TV aberta sofreu uma grande perda: em 1999, a TV Manchete encerrou suas atividades, mergulhada em dívidas que a fizeram decretar falência. Em seu lugar, passou a operar a emissora Rede TV!, que até hoje não disse a que veio.

Nos anos 90, por dois momentos o mundo voltou seus olhos para o território brasileiro. Em 1992, o Rio de Janeiro se tornou sinônimo de conscientização ambiental através da Rio-92, evento que trouxe palestras sobre desenvolvimento sustentável e soluções para que os progressos tecnológicos não atrapalhem os ecossistemas. Já o outro momento veio na parte musical: a segunda edição do Rock in Rio, datada de 1991.

A década musical brasileira apresentou a ascensão de estilos musicais ao gosto dos sucessos radiofônicos. Em seus primeiros anos, as rádios brasileiras ouviram as invasões de inúmeras duplas do estilo neo-sertanejo (influência da música sertaneja mais voltada para o estilo country), como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo. Mais tarde, a explosão sertaneja cedeu espaço à abundância do axé, liderado pelo conjunto É o Tchan, aliado ao pagode de grupos como Raça Negra e Só Pra Contrariar. Ao final da década, teria destaque também o lixo musical convencionado como funk com letras de má qualidade e com forte conotação sexual.

Mas, apesar da ditadura das rádios estar cada vez maior, ainda houve espaço para o surgimento no cenário musical de artistas considerados pela crítica como exemplos de boa música. Casos de Ana Carolina, Zélia Duncan, Adriana Calcanhotto, Gabriel o Pensador, Cazuza e Renato Russo (os dois últimos não chegariam ao final da década) e os conjuntos Skank, Cidade Negra, Pato Fu, Jota Quest e Los Hermanos. Do BRock presente na década anterior, poucos conjuntos sobreviveriam com trabalhos de qualidade - casos dos conjuntos Titãs e Paralamas do Sucesso.

Os considerados "medalhões" da MPB trouxeram trabalhos consideráveis, como os discos Paratodos e Uma palavra, de Chico Buarque, Circuladô e Fina estampa, de Caetano Veloso e Tropicália 2, reunião de Caetano com Gilberto Gil para relembrar o tropicalismo (ou fazê-lo com "roupagem" dos anos 90). Gil inaugurou um novo estilo de disco ao vivo, que se tornaria constante nos lançamentos anuais brasileiros: os acústicos produzidos pela MTV. Gravados ao vivo, estes discos apresentavam novas leituras de canções mais bem sucedidas de cantores e grupos tradicionais na Música Popular Brasileira - com o advento do DVD, que apareceu ao final da década, tornando o vídeo cassete obsoleto, a gravação, além de som, tinha imagem.

Em uma década na qual o resultado comercial parecia ser a dianteira das gravadoras, a tendência parecia mesmo ser a de voltar ao passado para garantir futuras vendas. Muitos artistas consagrados lançaram discos "ao vivo", geralmente no ano seguinte ao lançamento de um disco gravado em estúdio. A prioridade na fórmula garantida de sucesso se refletiu, por exemplo, nos únicos lançamentos do "amigo de fé" Erasmo Carlos - depois do disco mal sucedido Homem de rua, de 1992, em 1996 ele lançou É preciso saber viver, formado por regravações de canções dele com Roberto e releituras de músicas gravadas originalmente por Roberto Carlos.

Roberto foi um dos poucos a tentar fugir deste formato de meramente reler seus grandes sucessos a cada trabalho novo (em alguns discos desta década ele fez uma "cota" de ter uma regravação por disco, casos de Se você pensa, em 1993, Custe o que custar, de 1994, Quase fui lhe procurar, de 1995, Como é grande o meu amor por você, em 1996, e Esta tarde vi llover, no ano de 1997). E na década de 1990 a crítica concentrou ainda mais o repúdio anunciado que vinha acontecendo desde meados da década anterior. Mas, apesar do alarde de depreciadores, ele seguiu, caminhando com seus milhões de amigos - dentre eles, Maria Bethânia, que fez o brilhante tributo As canções que você fez pra mim, e da safra de novas bandas de rock que fizeram o disco Rei - além dos sucessos nas rádios que RC teve, como Mulher pequena, de 1992, e Alô, de 1994.

Sua discografia desta década traz algumas peculiaridades. Os três primeiros anos ainda mostram sua forte ligação com o mercado latino - em seus LPs, além de conter sempre uma faixa do disco lançado no início do ano apenas para o mercado castelhano, vinha também uma versão em português de música naquele idioma (Mujer e Por ela, de 1990, Oh, oh, oh, oh e Se você quer - dueto em disco com Fafá de Belém, de 1991, e Una en un millón e Dizem que um homem não deve chorar, de 1992). O retorno ao contato com as canções latinas viria de maneira esporádica em 1997, através do belíssimo disco Canciones que amo, que foi lançado também no Brasil (e, além de clássicos da música latina, trouxe uma curiosa versão em espanhol para Insenstatez, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes).

Outro recorte de suas canções em parceria com Erasmo recai sobre as homenagens às mulheres vistas como "comuns". Entre 1992 e 1996 vieram, em ordem, músicas dedicadas a mulheres de baixa estatura, acima do peso, que usam óculos e que têm 40 anos (Mulher pequena, Coisa bonita, O charme dos seus óculos e Mulher de 40, respectivamente). Procurando sempre dialogar com outros estilos de música, RC passeou por outras praias musicais, como a salsa (Romântico, de 1995), o forró (O baile da fazenda, de 1998) e o estilo neo-sertanejo (Todas as manhãs, de 1991, e Amigo, não chore por ela, de 1995).

O apego religioso se fez cada vez mais presente, com várias maneiras de homenagear Jesus (Luz divina, Jesus salvador, Coração de Jesus e Meu menino Jesus - um dado curioso: esta última, até o momento, é a única canção feita explicitamente para falar sobre o Natal), além de Quando eu quero falar com Deus, música vista por muitos como uma resposta a Se eu quiser falar com Deus, que Gilberto Gil escreveu para RC gravar, mas que ele não aceitou incluir em seu repertório por trazer idéias muito dissonantes das suas opiniões. As "mensagens" se fizeram presentes em outras canções: no repúdio à guerra de Quero paz, e na igualitária Herói calado. Mas outra faceta religiosa surgiu em letra e música: as canções em homenagem a símbolos da Igreja Católica. A primeira delas veio em 1993, com Nossa Senhora. Três anos depois, foi a vez de O terço. E, na única inédita do conturbado ano de 1999, foi a vez de Todas as Nossas Senhoras.

Esta abordagem de RC a símbolos do catolicismo é atribuída por muitos à sua esposa, Maria Rita. Ela, que, de acordo com Roberto, deu a ele "os melhores anos de minha vida", tinha um grupo de amigas para rezar. Na década de 1990, Roberto e Maria Rita viveram uma história de grande amor, que se refletiu nas canções românticas que RC assinou com Erasmo anualmente - basta ouvir os versos de Primeira dama, Obsessão e Quando digo que te amo, dentre outras.

Os dois começaram a morar juntos no ano de 1991, e em 1996 oficializaram ainda mais a união em uma cerimônia de casamento. Mas, no ano de 1998 veio uma notícia triste para o casal: foi descoberto em Maria Rita um câncer na região pélvica. RC, que estava às voltas com a feitura seu disco daquele ano, transferiu as gravações para São Paulo, e alternava sua rotina entre momentos no estúdio e acompanhar a esposa no hospital.

Naquele ano, o disco saiu com apenas quatro músicas inéditas - as outras seis faixas apresentaram versões ao vivo de canções de destaque em seu repertório, como Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, Falando sério e Outra vez. E 1999 seria um ano de melhoras e pioras, que faria com que RC interrompesse sua rotina de shows e até mesmo deixasse de gravar seu especial anual na TV Globo. Para amenizar a ausência de um novo trabalho, a gravadora Sony lançou duas compilações - o álbum duplo 30 sucessos e a coletânea de canções religiosas Mensagens. Depois de um ano de batalhas contra o câncer, Maria Rita descansou em dezembro, e um de seus últimos pedidos foi o de que Roberto não parasse de cantar.

Na década em que RC diz ter descoberto "o que é o amor sem limite", nada mais justo do que colocar no post de hoje a canção que ele considera a mais forte que já escreveu em toda sua vida. Uma obra-prima presente no disco de 1998, que ele preferiu assinar sozinho, e, em cada palavra, define o quanto é importante ver brilhar a todo instante no rosto da pessoa amada um sorriso. A década de 1990 se encerrava com uma tristeza para RC. Mas na década seguinte, ele veria que, no colo de seu público, ainda tinha muitos motivos para sorrir e cantar. Isso é um assunto para o próximo post.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos posando para a parte interna do LP de 1996. Um dado curioso: este foi seu último lançamento presente no mercado também em formato de vinil.

Abraços a todos, Vinícius.

EU TE AMO TANTO - Roberto Carlos

Eu não me acostumo sem seus beijos
E não sei viver sem seus abraços
Aprendi que pouco tempo é muito
Se estou longe dos seus braços

E por isso eu te procuro tanto
E te telefono a toda hora
Pra dizer mais uma vez "te amo"
Como estou dizendo agora

Faço qualquer coisa nessa vida
Pra ficar um pouco do seu lado
Todo mundo diz que não existe
Ninguém mais apaixonado

Meu amor, você é minha vida
Sua vida eu também sei que sou
Cada vez mais juntos
Quem procura por você sabe onde estou

Olha, eu te amo tanto e você sabe
Sou capaz de tudo se preciso
Só pra ver brilhar a todo instante
No seu rosto esse sorriso...

domingo, 27 de abril de 2008

As décadas de Roberto Carlos - Anos 80



Olá, amigos.

A série As décadas de Roberto Carlos chega ao seu terceiro post que aborda a carreira de RC a partir das décadas musicais de suas canções. Esta é a nossa forma de homenagear seu aniversário de 67 anos, que aconteceu no último dia 19 de abril. Hoje este blogue fala sobre a década de 1980, um período marcado por muitas alterações políticas e tecnológicas, e que, no contexto social, atualmente é visto com certa nostalgia na sociedade brasileira - que costuma fazer muitas festas para recordar os "anos 80".

A Guerra Fria que assolava o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial já dava sinais de rendição por parte do socialismo. Aos poucos, os países que faziam parte da potência socialista União Soviética iam fazendo sua abertura ao capitalismo norte-americano e se tornando países independentes. O momento simbólico da derrocada socialista viria a 9 de novembro de 1989, quando ocorreu a queda do Muro de Berlim. Este muro dividia a Alemanha entre Alemanha Ocidental (sob júdice dos Estados Unidos) e Alemanha Oriental (sob poder da União Soviética).

Na parte tecnológica, a década de 1980 é cenário do surgimento de dois artigos que se tornariam populares a partir da década seguinte: o computador MacIntosh e o Compact Disc (CD), que digitalizou a música e, mais tarde, tornaria obsoleto o Long-Play (LP). Entretanto, a tecnologia veria a outra face do progresso: em 1986 (definido pela Organização das Nações Unidas como o Ano Internacional da Paz), dois lamentáveis incidentes teriam sérias conseqüências aos olhos do mundo.

Em 28 de janeiro, o ônibus espacial Challenger, dos Estados Unidos, explodiu logo após ter partido da sede da NASA. E a partir do dia 26 de abril, os olhos se voltaram para a pequena cidade de Chernobyl, na Ucrânia, palco de um acidente nuclear de enormes proporções, que causou mortes e seqüelas gravíssimas a todos os moradores da região.

A tecnologia trouxe um incidente lamentável também no Brasil. Em 1987, o desleixo de um laboratório fez moradores da cidade de Goiânia se contaminarem com o elemento químico Césio 137 deixado em uma lata de lixo comum. O incidente desencadeou mortes e seqüelas até os dias de hoje na cidade.

Em território brasileiro, os anos 80 são considerados por cientistas políticos como "a década perdida". A Ditadura Militar já convivia com sua abertura política, e se resumia a atentados isolados, como a tentativa frustrada de dois militares explodirem o Riocentro (que era palco de um show para comemorar o feriado de primeiro de maio, Dia do Trabalho). O mandato de João Baptista Figueiredo (iniciado em 1979 e que durou até 1985) trazia algumas expectativas de melhora na política brasileira.

Entretanto, os vários comícios em praças de todas as cidades do Brasil não foram suficientes para que a Emenda das "Diretas Já" (que pedia o voto direto para presidente já depois do fim do mandato de Figueiredo)fosse aprovada. Mesmo assim, o país saboreou a vitória de Tancredo Neves, da Frente Liberal, sobre Paulo Maluf, no colégio eleitoral formado por deputados e senadores .

Mas a alegria se transformou em tristeza para milhões de brasileiros em 21 de abril de 1985, quando Tancredo Neves faleceu. Em seu lugar, assumiu a cadeira mais importante do país o maranhense José Sarney, que, já sem o poder do "milagre brasileiro" da década anterior, teve de passar seu mandato em duelo contra a inflação galopante e nas constantes tentativas mal sucedidas de fazer planos econômicos para combatê-la - Planos Verão, Bresser e Cruzado foram alguns deles.

Na última parte da década, o país teve dois alentos no cenário político. No ano de 1985, houve as primeiras eleições diretas para governadores nas capitais depois de décadas, que terminaram com vitórias de políticos como Saturnino Braga no Rio de Janeiro e na volta de Jânio Quadros ao cenário político, agora como governador do estado de São Paulo.

Mas, certamente, 1989 seria o ano de maior esperança para os eleitores brasileiros. Pela primeira vez desde 1960, o país pôde acompanhar o processo eleitoral para, ao seu fim, em 17 de dezembro, escolher seu governante nos próximos cinco anos. Numa eleição "solteira" (expressão que significa que a eleição ocorreu em um ano que não houve eleição também para governadores, senadores e deputados), depois de 21 candidatos e dois turnos, o alagoano Fernando Collor de Mello derrotou o pernambucano radicado em São Paulo Luiz Inácio "Lula" da Silva. Sua eleição, através de artimanhas escusas, traria fortes conseqüências ao Brasil na década seguinte.

O Brasil também assistiu a alguns momentos de transformação na sua televisão durante a década de 1980. Em 1981, foi inaugurado o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), tendo como presidente Silvio Santos. No ano de 1983, a Rede Manchete, presidida por Adolpho Bloch, começou suas transmissões. E, a partir de 1989, a TV Record, que era pertencente aos grupos Paulo Machado de Carvalho e Silvio Santos, foi comprada pelo empresário Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus. A partir do fim de 1986, a TV Globo passou a apresentar anualmente um evento com intuito social amparado pela UNICEF - o Criança Esperança, projeto que até hoje arrecada fundos para crianças carentes de todo o país.

No cenário esportivo, o Brasil assistiu a duas Copas do Mundo que terminaram em uma geração de futebol-arte, mas que encerrou a década sem títulos. O time de Zico, Falcão e Sócrates foi eliminado duas vezes por países que jogavam futebol mais burocrático e violento: em 1982, depois de encantar os desportistas na Copa da Espanha, o Brasil foi eliminado com três gols de Paolo Rossi na derrota por 3 a 2 para a Itália (que seria campeã do torneio). Em 1986, também sob o comando do mestre Telê Santana, o Brasil foi eliminado depois de um empate por 1 a 1 com a França (e da infelicidade de Zico errar um pênalti durante a partida) e de, nas disputas de pênalti, ser derrotado por 4 a 3 - a campeã daquele ano foi a Argentina de Maradona. Para "embalar" a Copa do Mundo, em 1985 Roberto Carlos lançou a canção Verde e amarelo, dele e de Erasmo.

A década foi marcada como o período em que o rock teve seus olhos voltados para o Brasil - foi o Rock In Rio, megaevento que trouxe para os palcos do Rio de Janeiro artistas universais como James Taylor, Queen e tantos outros. A música brasileira se voltou também para o estilo pop/rock, e o BRock trouxe nomes importantes para a década, como Paralamas do Sucesso, Titãs, Cazuza e Legião Urbana. No estilo batizado com o prefixo "MPB", os cantores Chico Buarque e Caetano Veloso se destacaram com o programa mensal Chico & Caetano, com encontros musicais que entraram para a história.

Roberto Carlos prosseguia em sua rotina de lançar anualmente álbuns nos mercados brasileiro e latino. Mas sua consagração alçou vôos maiores. Já no início da década de 1980, RC passou a ser considerado o "Frank Sinatra brasileiro", em especial depois que seus shows passaram a ter Emoções definitivas em letra e música. Em vez de lançar seus discos em longas temporadas no Canecão, Roberto começou a se apresentar em ginásios de todo o país, e a se apresentar em várias cidades, a bordo do avião fretado especialmente para ele e sua equipe, no ambicioso e bem sucedido Projeto Emoções. O sucesso prosseguiria a partir de 1987, com a estréia do show Detalhes - uma apresentação que ficou mais acessível ao público, pois dez de seus números fizeram parte do LP Roberto Carlos ao vivo, de meados de 1988 (dentre eles, uma emocionante interpretação de Imagine, de John Lennon, em dueto com a cantora mirim Gabriella)..

Casado com a atriz Myriam Rios (a quem dedicou A atriz, de 1985), RC apresentou músicas mais "joviais" sobre o romantismo a dois - caso de músicas como Cama e mesa e O côncavo e o convexo. As outras facetas mostradas a partir da década de 1970 se apresentaram na discografia de Roberto Carlos.

Vieram as "mensagens" religiosas como a intimista Estou aqui, os louvores de A guerra dos meninos, Ele está pra chegar e Aleluia, o lamento de Paz na Terra e a explosiva Apocalipse. As "mensagens" se estenderam a outras temáticas, como as de cunho ecológico As baleias , Águia dourada e Amazônia e a igualitária Todo mundo é alguém. Também viria o fim de amor de Você não sabe , Do fundo do meu coração e Tolo (que mostrou um disco de dor-de-cotovelo lançado em 1989, ano de seu fim de relacionamento com Myriam Rios).

RC abriu espaço pela primeira vez para um encontro musical em seu disco - e escolheu Maria Bethânia para gravar Amiga, em seu LP de 1982. No disco lançado para o exterior, na versão hispânica intitulada Amigos, ele teve um encontro musical com a cantora Ana Belén. Roberto também participou de discos de outros cantores - o memorável Sentado à beira do caminho, encontro com o amigo Erasmo Carlos para seu LP Erasmo Carlos convida... (em 1988, Roberto Carlos retribuiria o convite, dividindo os vocais com o parceiro na música Papo de esquina), a música infantil É tão lindo, com a turma do Balão Mágico, além da participação no compacto com fins beneficentes aos desabrigados pela chuva no Nordeste Chega de mágoa, que contou com artistas de vários estilos musicais, de Elizeth Cardoso a Paula Toller, de Chico Buarque a Roger, e, naturalmente, teve os expoentes Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Dialogando com vários estilos musicais, Roberto abriu espaço em seus especiais para cantores e grupos de samba, pagode, BRock, e isto se refletiu em seus discos, que trouxeram arranjos mais calcados por teclados. Em 1987, ele se tornou enredo da escola de samba Unidos do Cabuçu, que desfilou Roberto Carlos no reino da fantasia e inspirou Roberto a fazer com Erasmo a canção Nêga, do LP de 1986. Alguns analistas consideram que sua obra ficou aquém de qualidade desde que buscou agradar públicos de classe mais baixa - e justificam isto com a saída do produtor Evandro Ribeiro (em 1983, por problemas de saúde) e a entrada de Mauro Motta (que até hoje produz seus discos).

Mas a década de 1980 certamente será marcada para Roberto Carlos por seus números. No ano de 1984, o country em homenagem à classe dos caminhoneiros intitulado Caminhoneiro foi executado mais de 3 mil vezes nas rádios do país em seu primeiro dia de execução. O número foi superado no ano seguinte, com Verde e amarelo, que tocou mais 3.500 vezes em um só dia.

A consagração se estendeu ao cenário internacional. No ano de 1982, RC recebeu da gravadora CBS o "Globo de Cristal", prêmio entregue a artistas que vendem mais de 5 milhões de discos fora de seu país de origem. Mas, certamente, o prêmio mais marcante viria em 1989: o Grammy de Melhor Cantor Latino-Americano, pelo LP Volver, que teve como música de destaque a canção Si el amor se va, assinada por Roberto Livi, seu produtor no exterior. O diálogo com o mercado latino foi tão forte que, a partir da segunda metade da década, RC passou a não restringir seus discos a cantar versões em espanhol das suas canções em português - houve espaço para músicas feitas originalmente no idioma hispânico, dentre elas as músicas Me has echado al olvido, Poquito a poco, e até mesmo Sonrie (versão em espanhol para Smile, de Charles Chaplin), que teve sua gravação em castelhano lançada no álbum "brasileiro" de 1989.

Em uma década de emoções, tantas e tão bonitas, Roberto Carlos comprovava, disco a disco, que as boas safras anuais incluídas em seu repertório e o carinho que recebia de seu público não iriam mudar, esse caso não tinha solução. Bem como diziam os versos da canção que ele apresentou ao público em seu LP de 1982.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em show no Maracanãzinho, parte de seu Roberto Carlos Especial de 1984.

Abraços a todos, Vinícius.

FERA FERIDA - Roberto e Erasmo

Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída

Mas saí ferido
Sufocando meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido

Animal arisco
Domesticado esquece o risco
Me deixei enganar
E até me levar por você

Eu sei
Quanta tristeza eu tive
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor

Eu sei
O coração perdoa
Mas não esquece à toa
E eu não me esqueci

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

Eu andei demais
Não olhei pra trás
Era solto em meus passos
Bicho livre, sem rumo e sem laços

Me senti sozinho
Tropeçando em meu caminho
À procura de abrigo
Uma ajuda, um lugar, um amigo

Animal ferido
Por instinto decidido
Dos meus rastros desfiz
Tentativa infeliz de esquecer

Eu sei
Que flores existiram
Mas que não resistiram
A vendavais constantes

Eu sei
Que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
E eu não me esqueci

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração...

sexta-feira, 25 de abril de 2008

As décadas de Roberto Carlos - Anos 70




Olá, amigos.

Prosseguindo a homenagem ao aniversário de Roberto Carlos, que pintou em azul e branco as cores de abril desde o dia 19 de abril de 1941, este blogue continua sua série As décadas de Roberto Carlos. E hoje passamos à década de 1970, uma década de ousadias no mundo e no universo musical de RC.

Na política mundial, tudo em volta parecia deserto, tudo certo "como dois e dois são cinco" na rixa entre Estados Unidos e a União Soviética na Guerra Fria. Os norte-americanos continuavam com sua invasão ao Vietnã, numa guerra que terminaria sem vencedores. Mas outros países estariam em evidência, graças à ousadia de revolucionários que acabaram com o colonialismo.

A Revolução dos Cravos, de 1974, decretou a independência de todos os países africanos que ainda eram colônias de Portugal: Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe. Entretanto, o território africano foi palco de um momento vergonhoso para a história: as guerras pela independência da Namíbia e da Rodésia.

No Brasil, a Ditadura iniciou a década cada vez mais fortalecida. Com a instituição do Ato Institucional Número 5 e o poder centralizado na perseguição e na tortura, o governo Médici se tornaria o mais sanguinário da história. Os brasileiros tinham três opções: a luta armada, o desbunde e o exílio. Do exílio, Caetano Veloso receberia um presente: em visita a terras londrinas, Roberto Carlos deu-lhe a música Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, música feita com Erasmo Carlos para matar as saudades do Brasil - de onde ele tinha saído à força, como acontecera também com Chico Buarque e Gilberto Gil.

Surgiam alguns movimentos estudantis e, em especial muitos movimentos armados de oposição ao regime, dentre eles a Guerrilha do Araguaia, na qual militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) iam para a região tentando combater o militarismo para implantar o comunismo no país. Com os órgãos de imprensa convivendo com a censura ampla, geral e irrestrita, as notícias não chegavam à população - e jornais como O Estado de S. Paulo ironizavam colocando, no lugar das notícias vetadas pela censura, receitas de bolo. A ironia também fez parte de outro jornal de oposição ao regime - O Pasquim, iniciado no fim da década anterior e que reuniu nomes como Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Sérgio Cabral, Paulo Francis e Tarso de Castro.

Emílio Garrastazu Médici continuava mantendo as aparências através de aparições constantes em partidas de futebol, e foi responsável pela mudança de técnico da Seleção Brasileira às vésperas da Copa do Mundo de 1970. O presidente pediu a escalação do então artilheiro do Atlético Mineiro, Dadá Maravilha, e o treinador João Saldanha retrucou com a frase: "o presidente escala o Ministério, e eu escalo a Seleção". Foi o suficiente para que "as feras do Saldanha" passassem a ser comandadas por Zagallo. Alheia aos incidentes dos bastidores, a Seleção Brasileira, que tinha em sua escalação os nomes de Pelé, Jairzinho, Gérson e Tostão, voltou do México trazendo a Taça Jules Rimet em definitivo (o time que vencesse o torneio por três vezes guardaria ela para sempre em sua sala de troféus) após vencer os seis jogos disputados - e, na final, derrotar a Itália pelo placar de 4 a 1. Com um dado curioso: Dadá não atuou em nenhuma partida da Copa. Ele voltaria a ter destaque no ano seguinte, quando seu gol daria ao Atlético Mineiro o título do primeiro Campeonato Brasileiro (anteriormente, existiam partidas entre times de vários estados, mas não nos moldes iniciados em 1971 e que prosseguem até os dias de hoje) na vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo.

Nas outras duas edições da Copa do Mundo, o Brasil teve passagens frustrantes. Em 1974, sem Pelé, que pediu dispensa, a Seleção dirigida por Zagallo e comandada por Rivelino não resistiu ao talento do "carrossel holandês" e perdeu o jogo decisivo da fase final por 2 a 0 para o encantador time de Johann Cruyff (que só não resistiu à campeã Alemanha). A derrota por 1 a 0 para a Polônia na decisão do terceiro lugar fez o time retornar ao Brasil em quarto lugar. No ano de 1978, agora sob o comando de Cláudio Coutinho, a Seleção apresentou uma safra de bons jogadores, que fizeram o time terminar o torneio invicto... mas em terceiro lugar. Os anfitriões argentinos precisavam vencer por quatro gols de diferença para garantir o primeiro lugar na fase decisiva, pois estavam empatados com a Seleção Brasileira. Misteriosamente, o jogo entre Argentina e Peru (que seria na mesma hora que o do Brasil) foi transferido para duas horas depois, e o goleiro peruano decretou vitória argentina por 6 a 0. Restou ao Brasil derrotar a Itália por 2 a 1 e se definir como "campeão moral" da Copa de 1978, vencida pela Argentina, novamente tendo a Holanda como vice-campeã.

O outro alicerce da manutenção do apoio ao governo militar brasileiro acabou virando farelo. O excepcional crescimento econômico que vinha desde 1969 - o "Milagre brasileiro" - e a idéia do ministro Delfim Netto de fazer crescer o bolo para depois distribuí-lo ao povo não sobreviveu à primeira crise do petróleo, em 1974, e fez reduzir pela metade o crescimento anual da economia brasileira.

Em 1974, Médici foi substituído por Ernesto Geisel na cadeira mais importante do Brasil, e a Ditadura passou a ficar enfraquecida aos olhos da população - principalmente depois do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, que "foi suicidado" na prisão. Pressionada pelo senso comum, a Ditadura ficou mais flexível, promovendo a revogação do AI-5 e baixando a Lei da Anistia, que a partir de 1979 fez com que bons filhos brasileiros como Betinho e Fernando Gabeira pudessem retornar à sua casa chamada Brasil. Este era o ponto inicial de uma abertura política "lenta, gradual e segura" que teria continuidade no governo de João Baptista Figueiredo, último presidente militar do país.

O cenário musical trouxe à tona bandas de rock psicodélicas como Pink Floyd, Led Zeppelin e Deep Purple, mas teve espaço também para as músicas de discoteca, a partir do bem sucedido filme Os embalos de sábado à noite, protagonizado por John Travolta. As discotecas se popularizaram também no Brasil, mas através da televisão, na novela Dancin'days, de Gilberto Braga. A Música Popular Brasileira ia bem, obrigado, trazendo não só discos fenomenais de Elis Regina, Maria Bethânia, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas também reuniões musicais que se tornaram registros fonográficos: Caetano e Chico - Juntos e ao vivo, Doces bárbaros (reunião de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia), Chico Buarque & Maria Bethânia e Tom, Vinícius, Toquinho e Miúcha. Era o país se curtindo musicalmente.

O Brasil na época já se consolidava como o grande fabricante de teledramaturgia, e em 1973 viu sua primeira novela totalmente em cores - O bem amado, de Dias Gomes. Nesta época tiveram destaque autores fantásticos, como Dias Gomes, Cassiano Gabus Mendes, Janete Clair e Lauro César Muniz. Era a TV Globo se consagrando na escalada pela audiência.

E a emissora do Jardim Botânico traria nesta década um grande evento para a audiência televisiva e musical. No fim de 1974, veio a primeira edição do Roberto Carlos Especial, inaugurando a tradição de todos os anos termos o prazer de rever RC, e muitas vezes bem acompanhado de seus convidados. O primeiro especial teve como convidados Erasmo Carlos, Antônio Marcos e Paulo Gracindo, além das participações de seu filho Segundinho (contracenando com personagens do programa infantil Vila Sésamo e depois 'pilotando' um carro de brinquedo enquanto o pai cantava O calhambeque), das suas filhas Luciana e Ana Paula e da esposa, Cleonice Rossi.

Nesta década, Roberto revelou a maturidade de suas canções, que apresentaram uma pluralidade de temas em letras e músicas primorosas para o cancioneiro brasileiro. A inocência da Jovem Guarda era vista pelo espelho, na distância se perdendo, cedendo espaço primeiro para a influência da soul music, e depois adentrando por um terreno ousado - o erotismo. Desta safra vieram Proposta, Seu corpo, Os seus botões, Cavalgada, Café da manhã.

Os anos 70 apresentaram também a transposição da religiosidade para as faixas de seus discos. Do tom raivoso de quem canta com a alma do soul apresentadas em Jesus Cristo e Todos estão surdos até os louvores de A montanha, O homem e , RC seguia cantando e seguindo uma luz lá no alto. A "mensagem" veio também na forma de canções com temáticas ecológicas, como O progresso e O ano passado.

Na década mais apreciada por críticos musicais, Roberto não só deu voz a canções escritas em parceria com Erasmo que até hoje recebem leituras de vários artistas (Além do horizonte, Amigo, 120...150...200 km por hora e, a mais aplaudida de todas - Detalhes), como também apresentou em sua discografia compositores que, através de suas interpretações, teriam sua obra reconhecida - Isolda (Outra vez), Maurício Duboc e Carlos Colla (Falando sério), Benito di Paula (Amanheceu)e os dois grandes artistas Fagner e Belchior (Mucuripe). A música brasileira retribuiu as canções que ele fez pra nós, com suas canções recebendo leituras de vários artistas - dentre elas, Nara Leão, que fez um disco interpretando apenas canções de Roberto e Erasmo, intitulado ...E que tudo mais vá pro inferno (mas, em sua prensagem mais recente, "rebatizado" de Debaixo dos caracóis dos seus cabelos). Com o passar dos anos, esta reverência à sua obra ganhou níveis internacionais, em especial depois que ele começou a gravar discos para o mercado latino - se tornou comum RC lançar um disco no Brasil em dezembro e, no início do ano seguinte, lançar um LP com suas canções versionadas para o espanhol.

A consagração veio também no palco, em turnês realizadas sob a direção da dupla Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli que fizeram Roberto Carlos estender por meses suas apresentações na casa de espetáculos Canecão - A 200 km por hora, Além da velocidade, Concerto e Palhaço foram as apresentações da época - nos três primeiros shows com sua orquestra sob a regência de Chiquinho de Moraes, para, a partir de 1977, ter a companhia do maestro Eduardo Lages (que até hoje prossegue a cargo dos arranjos e regência, não só de sua orquestra, mas também de seus discos).

Roberto, que iniciou a década a 200 km por hora, aos poucos foi tirando o pé do acelerador, para buscar novos rumos, nas curvas do erotismo e da linha romântica que até hoje o consagra. Afinal, não é qualquer artista que consegue cantar coisas mais sensuais em propostas com palavras cuidadosamente escolhidas numa canção de amor - como é a música de hoje, terceira faixa do LP de 1973.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos agradecendo o aplauso do público durante um show da década que apresentamos hoje.

Abraços a todos, Vinícius.

PROPOSTA - Roberto e Erasmo

Eu te proponho
Nós nos amarmos, nos entregarmos
Nesse momento
Tudo lá fora deixar ficar

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor o meu conforto
E além de tudo, depois de tudo, te dar a minha paz

Eu te proponho
Na madrugada, você cansada
Te dar meu braço
E no meu abraço, fazer você dormir

Eu te proponho
Não dizer nada, seguirmos juntos a mesma estrada
Que continua, depois do amor
Ao amanhecer...
Ao amanhecer...

Eu te proponho...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

As décadas de Roberto Carlos - Anos 60




Olá, amigos.

Como o mês de abril é um período de comemoração para todos os que acompanham Roberto Carlos, a partir de hoje este fotolog faz uma retrospectiva da carreira de RC através de um panorama por décadas de sua obra - e também mostrando o contexto no qual ocorreram seus momentos mais marcantes. A série As décadas de Roberto Carlos começa abordando a década de 1960.

O mundo ainda vivia sob o ranço da denominada Guerra Fria, ainda conseqüência do fim da Segunda Guerra Mundial, e a rixa entre Estados Unidos e União Soviética gerou fortes efeitos colaterais ao mundo. Nesta guerra não-declarada entre o capitalismo e o socialismo, as lutas por áreas de influência nos países subdesenvolvidos e as corridas armamentista e tecnológica chegaram às vias de fato em momentos que comoveram o mundo - as guerras da Coréia e do Vietnã.

Os norte-americanos tiveram o dissabor de ver seu então presidente John Kennedy morrer em um atentado em 1963 (apenas dois anos depois de assumir a presidência). Mas seis anos depois assistiram pela televisão a uma grande vitória tecnológica sobre os soviéticos: a chegada de Neil Armstrong, um de seus homens, à Lua, com transmissão ao vivo pela televisão. As imagens do astronauta conseguiram ofuscar dois feitos da União Soviética que ocorreram nesta década: a ida de Iuri Gagarin ao espaço (de 1961) e o envio de um robô até a Lua (no ano de 1966).

O Brasil começou sua década vivendo ainda sob a euforia dos Anos Dourados pintados na segunda metade da década anterior. O reconhecimento do "jeitinho brasileiro de fazer música" definido como Bossa Nova e o primeiro triunfo da Seleção Brasileira de Futebol no ano de 1958 tiveram um grande aliado político - o presidente Juscelino Kubistcheck. JK, o "presidente Bossa Nova", fez em 21 de abril de 1960 um grande momento da história de nosso país: a inauguração da atual capital, Brasília, e a transferência do centro político nacional para o Centro-Oeste. No futebol, o Brasil teve um novo alento. A geração de 58, mesmo quatro anos mais velha e com Pelé tendo se contundido na segunda partida do torneio, passou por seus adversários e, no último jogo, venceu a Tchecoslováquia por 3 a 1, retornando do Chile como vencedora da Copa do Mundo de 1962.


Entretanto, após Juscelino deixar o poder, a política do país começou a sua derrocada. Eleito na corrida eleitoral de 1960, Jânio Quadros renunciou em 1961, depois de apenas oito meses sentado na cadeira mais importante do Brasil - e atitudes contraditórias, como condecorar o "líder comunista" Che Guevara e ao mesmo tempo proibir, dentre outras coisas, o uso de biquínis nas praias, as corridas de cavalo nos dias de semana e a comercialização de lança-perfumes. Em seu lugar, assumiu João Goulart, político mal visto por militares e por conservadores da sociedade brasileira, que o viam como um "perigo vermelho".

Após tentativas sem sucesso de colocar o governo sob o sistema parlamentarista, um grupo de militares se reuniu para destituir João Goulart de seu cargo. Na madrugada de 31 de março para primeiro de abril de 1964, a "revolução" dos generais dava seus primeiros passos rumo à Ditadura Militar. Seria o começo de longos anos de chumbo, inicialmente com o poder nas mãos de Castello Branco, para depois chegar a Artur da Costa e Silva e culminar no governo de Emílio Garrastazu Médici - que encerrou a década com o terror das constantes prisões e torturas e da censura cada vez mais forte, promovidos pelo Ato Institucional Número 5, de dezembro de 1968 (e traria graves conseqüências para a década seguinte, mas isso é um assunto para o próximo post).

A última Copa do Mundo da década pôde ser vista como um paralelo entre a confusão política do país com o desempenho do futebol brasileiro. Vítima de uma falta de organização tamanha (que fez com que, inclusive, o Brasil chegasse a ter 44 jogadores à disposição para, dentre eles, escolher os 11 titulares para a Copa), o Brasil voltou para casa bem mais cedo na Inglaterra, em 1966. Com Pelé caçado em campo o tempo todo, o Brasil foi eliminado na primeira fase, após uma inexpressiva vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária e derrotas por 3 a 1 para Hungria e Portugal.


E foi graças à Inglaterra que o cenário musical respirou canções apresentadas por quatro rapazes de Liverpool. John Lennon, Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison se reuniram e fizeram os Beatles, com seu som de ontem, hoje e sempre povoando céus de diamantes num universo de Michelles, Eleanors Rigbys e tantos outros que passaram a cantar suas músicas.

Os Beatles influenciaram o universo da música, talvez na tentativa de serem "maiores do que Deus" (como eles mesmos definiam suas pretensões artísticas), e proporcionaram a ascensão do movimento do 'iê-iê-iê' no Brasil. Depois das federações de futebol probirem a exibição de partidas aos domingos (pois esvaziavam os estádios), a TV Record deixou espaço para suas tardes ficarem mais jovens na festa de arromba apresentada por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, com o nome de Jovem Guarda.

Também foi graças à TV Record que a Música Popular Brasileira foi apresentada a nomes que até hoje fazem história em nosso cancioneiro. A emissora organizou festivais de música popular, no qual apareceram nomes de compositores e cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Nara Leão, e tantos outros. A televisão brasileira ainda teria uma data histórica nesta década: em 26 de abril de 1965, a Rede Globo começava suas transmissões.

Para Roberto Carlos, os anos 60 foram uma década de transformação. Após gravar alguns compactos que passaram desapercebidos entre 1959 e 1960, ele lançou pela CBS seu primeiro LP: Louco por você, de 1961. Cantando um repertório que ia do rock ao bolero, Roberto não teve repercussão com este disco - tanto que ele nunca mais permitiu o lançamento do LP, atualmente objeto de cobiça de muitos colecionadores de vinis, que se dispõem a pagar 3 mil reais por suas 12 primeiras gravações em long-play.

Após o "não" do estilo da Bossa Nova de seus compactos e o "não" ao estilo eclético do primeiro disco, foi ao som do "iê-iê-iê" que Roberto Carlos seguiu a trilha da guinada de sua carreira. No ano de 1963, RC chegou às paradas de sucesso parando na contramão e contando a história do Splish splash. No ano seguinte, uma nova leva de sucessos com É proibido fumar e O calhambeque.

E se abriu o caminho para a Jovem Guarda. Cantando para a juventude, RC foi do inferno (Quero que vá tudo pro inferno) ao céu (Eu te darei o céu) apresentando canções sobre amores, brotos e sempre numa velocidade quentíssima. Num ritmo cada vez mais acelerado, Roberto chegou às telas do cinema, com o irreverente Roberto Carlos em ritmo de aventura , dirigido por outro Roberto, o Farias, e dirigindo ao público outros grandes momentos como Por isso corro demais, E por isso estou aqui e a singela declaração de amor de Como é grande o meu amor por você.

Roberto Carlos estava terrível, mas, já era bom parar... A Jovem Guarda já ficava envelhecida aos olhos e ouvidos do público, sofrendo o ônus de um dos motivos pelos quais teve tanto destaque no momento musical brasileiro: a superexposição da mídia. No turbilhão da Tropicália, RC buscava novos rumos naquele fim de década, e, em meio a tantos imitadores de seu estilo "jovem-guardista", ousou se declarar O inimitável, e lançar um disco no qual sua voz se deitou por vários estilos de música - dos primeiros passos pelo soul em Se você pensa até o intimismo absoluto de Madrasta.

Ele também se arriscou a fazer apresentações nos "seletos" festivais de música brasileira, defendendo canções como América, América (de César Roldão Vieira) e Anoiteceu (de Francis Hime e Vinícius de Moraes), mas conseguindo repercussão apenas em 1967, quando deu o quinto lugar para a belíssima Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná. A Jovem Guarda teve seu fim simbolizado no segundo filme de sua carreira - Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, aventura que protagonizou ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa, que chegou aos cinemas em 1970.

No último disco da década, Roberto já mostrava uma nova faceta de seu estilo intérprete - a soul music, a música negra americana, presente não só no estilo mais "adulto" de canções fantásticas como As flores do jardim da nossa casa, As curvas da estrada de Santos e Sua estupidez, mas também na inclusão de Não vou ficar, escrita por Tim Maia. O estilo soul passaria pelos discos de RC por mais alguns discos - mas isso é um assunto para o próximo post.

Em meio a tantas nuances, certamente a mais marcante de todas para os anos 60 de Roberto Carlos veio de terras italianas. Em fevereiro de 1968, RC se apresentou no célebre Festival de San Remo, e proporcionou não só mais um momento de consagração da música brasileira num evento internacional, como também uma certeza para aqueles que proclamavam seu fim para a música depois que acabou a Jovem Guarda. Como disse Nelson Motta ao relembrar aquela vitória inédita para nossas cores e sons: "Roberto saiu consagrado do festival, virou estrela consagrada na Itália, começou a se tornar conhecido na Europa, ficou maior do que a Jovem Guarda e o Fino da Bossa de Elis Regina, juntos".

E é esta canção lançada em compacto no ano de 1968 e depois relançada na compilação de 1976 intitulada San Remo 68 que este fotolog recorda a década de 1960 de Roberto Carlos. A música ainda fez parte do LP Ao vivo, lançado em meados de 1988, que trouxe RC durante o show Detalhes relembrando toda aquela emoção que os versos de Endrigo e Bardotti apresentam para sua carreira.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos na apresentação em San Remo. Um olhar mais atento em sua mão mostra um dado curioso: lá estava escrita a letra da canção, pois os autores mudaram a letra abaixo às vésperas da apresentação. Mas, pelo que se disse na época, Roberto não precisou recorrer à "cola".

Abraços a todos, Vinícius.

CANZONE PER TE - Sergio Endrigo e Sergio Bardotti

La festa appena cominciata è già finita
Il cielo non è più com noi
Il nostro amore era l’invidia di chi è solo
La mia ricchezza, la tua allegria

Perché giurare che sarà l’ultima volta
Il cuore non ti crederà
Qualcuno ti darà la mano
E con un bacio un’altra storia nascerà

E tu, tu mi dirai
Che sei felice come non sei stata mai
E un’altra volta io dirò
Le cose che dicevo a te

Ma oggi devo dire che ti voglio bene
Per questo canto e canto te
La solitudine che mi haii regalato
Io la coltivo come un fiore

Ma oggi devo dire che ti voglio bene
Per questo canto e canto te...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O cheiro das novas emoções



Olá, amigos.

Abril traz em seu calendário o aniversário de Roberto Carlos, mas neste 2008 foi a vez de ele dar um presente ao público feminino. No último dia 17, o cantor lançou o perfume EMOÇÕES, em um evento no Golden Room do Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

Na propaganda já divulgada através do site de vídeos You Tube, o perfume, criado pela Racco, traz a seguinte frase: "Nós, homens, somos românticos. Encante-nos...". Um pedido muito condizente com as canções que Roberto fez para nós, do sexo masculino, cantarmos para as mulheres que fazem parte de nossa vida e que apresentam todas as emoções e todos os encantos dos nossos corações.

A Coordenadora de Produto da Racco, Flávia Almeida, apontou as características de Emoções: "Uma fragrância discreta e única para valorizar o equilíbrio, a harmonia e o romantismo e viver intensamente todas as emoções. Com notas de Rosa Branca, Cassis, Lírio do Vale e folhas de Violeta, ela foi criada para todas as mulheres brasileiras, com suas características particulares, que são mais do que retratadas e valorizadas nas diversas composições de Roberto Carlos". Como era de se esperar, são muitas várias emoções vindas através do frasco lançado pela Rocco.

Em meio a este cheiro de amor espalhado no ar a nos entorpecer (como disse Djavan na letra de A ilha, gravada por Roberto para seu LP de 1980), a fragrância feita pela Racco e aprovada por RC comprova que cada vez mais música é perfume. E certamente, muitas mulheres nos trarão emoções ainda mais fascinantes para olhos e olfatos do público masculino.

Os amantes à moda antiga, "machos" mas que não se incomodam em ser um doce com sua mulher, vão fazer novas propostas de noites, madrugadas e de amanhecer com um café da manhã. Mesmo porque, o símbolo sexual no qual se encontra em seu amor o descanso e a paz infinita (vinda através da coincidência total do côncavo e o convexo, de cama, mesa e lençóis macios) apresenta o perfume e a maciez de uma música suave.

Da música chamada Emoções, que, agora emprestando seu título para um perfume, deixa a mulher ainda mais cheirosa. E, como previu uma canção lançada por Roberto em seu disco de 1996, provavelmente vai embaralhar a cabeça de muitos homens.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos durante a apresentação do perfume Emoções - que custará R$ 79,90 e será vendido nas capitais brasileiras e também nas cidades de Roma, Nova Iorque, Lisboa e Paris.

Abraços a todos, Vinícius.

CHEIROSA - Roberto e Erasmo

Por que você tá tão cheirosa desse jeito?
Parece que saiu do banho pra me ver
Você sabe que toda causa tem efeito
Eu tenho um milhão de coisas pra fazer...

Cheirosa, cheirosa...

Meu bem, isso não se faz com quem trabalha
E já vai sair pra cumprir o seu dever
Esse perfume a cabeça me embaralha
De terno e gravata, o que é que eu vou fazer?

Cheirosa, cheirosa...

Me beija, me abraça e perfuma também minha roupa
E fica no ar que eu respiro e então não dá outra
Eu volto pra casa mais cedo, e que coisa gostosa
Dos pés à cabeça, você vive sempre cheirosa...

Ai, ai, ai, que coisa louca
É de dar água na boca
Seu perfume, meu amor
Que coisa gostosa que vem de você, minha flor

Cheirosa, cheirosa...

Eu volto e te encontro cheirosa desse jeito
Parece que saiu do banho pra me ver
Me abraça, me beija, me aperta e se encosta em meu peito
Agora eu não tenho nada pra fazer

Cheirosa, cheirosa...
Cheirosa, cheirosa...
Cheirosa, cheirosa...

sábado, 19 de abril de 2008

Roberto Carlos 67



Olá, amigos.

Chegou um dos dias mais bonitos do calendário musical brasileiro. Pela 67ª vez, renovamos nossos votos de felicidade, paz, saúde... enfim, de parabéns a ROBERTO CARLOS. O artista que nos ajuda a falar muitas coisas que, em palavras, às vezes não sabemos dizer.

Quando fez um disco com canções da safra de RC (sozinho ou na companhia de Erasmo Carlos), a cantora Nara Leão disse ser fascinada pelos vários "Roberto-Erasmo" que existem. E, de fato, a pluralidade do cancioneiro gravado por Roberto Carlos é das coisas mais fascinantes - em especial por se tratar de um cantor que transpõe para canção toda sua verdade.

A verdade de sua paixão que vai além dos horizontes da velocidade. De calhambeque, Cadillac, caminhão, lambreta, homenageando os velhos caminhoneiros e os taxistas que circulam por nosso cotidiano. Voando pela vida, a 120, a 150, 200km por hora, preferindo curvas das Estradas de Santos mesmo que as constantes paradas na contramão fizessem com que a saída mais cômoda fosse sentar à beira do caminho.

Vieram alguns percalços, o "não" do movimento da Bossa Nova e depois o sinal verde para a brasa se aquecer e tornar as tardes de domingo mais jovens entre as guitarras, os sonhos e as emoções da Jovem Guarda. Viriam os brotos, as paixões declaradas entre o céu e o inferno, tendo a Lua como testemunha e contando com sete cabeludos para topar qualquer parada. Em ritmo de aventura, a máquina quente de RC se apressava para tornar este tempo mais intenso, cantando amores que pareciam singelos, mas um deles se tornaria a grande declaração de amor feita em letra e música.

Mas a Jovem Guarda envelheceu aos olhos e ouvidos da nossa música. Veio a chance de respirar novos ares, e da província de San Remo, Roberto se consagrou inimitável ao trazer para o Brasil um dos maiores troféus da canção mundial. Do exterior também veio a influência do soul, presentes em seus últimos discos da década de 1960 e no início dos anos 70.

E os inesquecíveis anos 70 trouxeram a pérola feita a quatro mãos com Erasmo - Detalhes. Uma música que relatou fielmente o sentimento de despeito ao final de uma relação amorosa. Justo escrita por um artista que se mostraria com o passar das décadas um artista com o amor sempre presente em sua obra - e em todos os sentidos que esta singela palavra com quatro letras consegue trazer.

O amor erótico, sem preconceitos, adentrou na música brasileira. Primeiro, de maneira tímida, apenas como uma proposta, para, em seguida, tecer detalhes de cama e mesa, contando os botões da blusa e desenhando cada parte do corpo em que encontra o amor, o descanso e a paz infinita. Na paz de um sorriso, o sonho realiza de tal forma que tudo pára quando se faz um amor quente de 20 dezembros e 10 fevereiros no mesmo verão.

O amor ao próximo, o louvor às questões religiosas. Versos de quem deseja a paz universal através da guerra de meninos armados apenas de um hino que anuncia que Ele, o Homem, está pra chegar. O destino da fé, nos passos pela montanha, dizendo a Jesus Cristo, o salvador, que está aqui, na certeza de que Ele é a verdade. E Roberto recorreu também a outros detalhes religiosos - Nossa Senhora do Brasil (e em seguida todas as Nossas Senhoras), rezou uma oração em letra e música tendo o terço na mão. Contou passagens bíblicas como o Apocalipse, mostrando um momento contemporâneo de acordes dissonantes da ascensão da violência e do crime para implorar por paz na Terra. Em alto e bom som, RC canta mensagens de paz aos corações. Lamentavelmente, muita gente ainda não o ouviu porque não quis ouvir - estes estão surdos...

As "mensagens" apareceram em outras facetas, como a da igualdade que faz com que todo mundo seja alguém aos olhos de Deus - heróis calados nas mais variadas rotinas. E um destaque especial a mostrar o panorama ecológico, questionando as vantagens do progresso, a insônia causada pelas conseqüência deixadas na Amazônia, o desaparecimento das baleias. E, algumas décadas depois, uma visão menos apaixonada da ecologia, e a reflexão de que os seres humanos não são perfeitos. Ainda...

Roberto de tantos amores e de tantas homenagens a seus familiares, que passaram a fazer parte de nossa família através de suas canções. Quem não sente afeição pela titia Amélia que o ajudou no início do seu trajeto rumo ao sonho de cantor profissional? Quem não quis o colo carinhoso de Lady Laura? E quem não iria querer passar as mãos pelos cabelos brancos do querido, velho e amigo pai? Canções muito peculiares à primeira vista, mas que depois se revelaram homenagens universais a pais, mães, tias e filhos.

Roberto Carlos de amores antigos, atuais, a todas as modas, pois amor é uma coisa que nunca está fora de moda. Amor sem se preocupar com estética, revelando corações existentes atrás de mulheres mais baixas, acima do peso, escondidas atrás de óculos e acima dos 40 anos - todas elas são verdadeiros símbolos sexuais.

E do amor sem limite... Da chegada do grande amor de uma vida para tomar conta de seu coração pra sempre. Todo mundo pode perguntar o por que de só pensar nela, o por que de dedicar seus discos a ela. Podem até enxergar como obsessão. Mas, não, não, não importa o que os outros pensam, afinal, é com ela que veio a grandeza do amor e a certeza de que o amor é mais do que se pensa.

E o Roberto Carlos que um dia desejou ter um milhões de amigos conseguiu milhares deles, que o aplaudem em cada detalhe de sua vida. O primeiro da lista vem de uma amizade que completa 50 anos.

Erasmo Carlos, o irmão camarada com quem dividiu sonhos, desejos e a busca por escrever em suas letras e músicas sempre exatamente aquilo que buscava transmitir. "O meu amigo Erasmo Carlos" e parceiro de obras primorosas que enfeitam ainda mais a safra que chamamos de Música Popular Brasileira.

Roberto, este que vos escreve já lhe falou de tudo. Mas tudo o que foi escrito nestas muitas homenagens prestadas em fotologs, blogues, ainda é pouco diante da gratidão que sinto por sua música fazer parte da minha vida. Que neste e nos próximos anos venha ainda muita história para contar desse mundo tão próximo do nosso dia-a-dia. E que o palco ainda traga estas emoções todas e tão bonitas, vividas, reais, e que você as receba sempre com o coração aberto.

E sempre na certeza de que, se choramos ou se sorrimos com suas canções, o importante são sempre as emoções que vivemos na sua companhia. Como já disse uma música sua lançada no LP que chegou às lojas em 1981.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos na foto usada para a contracapa do disco e do DVD Duetos, que reúne os encontros musicais de seus especiais na TV Globo - momentos tão bonitos apresentados por ele para nós.

Abraços a todos, Vinícius.

EMOÇÕES - Roberto e Erasmo

Quando eu estou aqui
Eu vivo esse momento lindo
Olhando pra você
E as mesmas emoções sentindo

São tantas já vividas
São momentos que eu não me esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que contei aqui

Amigos eu ganhei
Saudades eu senti partindo
E às vezes eu deixei
Você me ver chorar sorrindo

Sei tudo que o amor
É capaz de me dar
Eu sei, já sofri
Mas não deixo de amar

Se chorei ou se sorri
O importante
É que emoções
Eu vivi

São tantas já vividas
São momentos que eu não me esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que contei aqui

Mas eu estou aqui
Vivendo esse momento lindo
De frente pra você
E as emoções se repetindo

Em paz com a vida
E o que ela me traz
Na fé que me faz
Otimista demais

Se chorei ou se sorri
O importante é que emoções eu vivi
Se chorei ou se sorri
O importante é que emoções eu vivi...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Crônicas da vida - 3



Olá, amigos.

Encerrando esta primeira leva da seção Crônicas da vida, que este que vos escreve publicou originalmente no blogue Aplauso, do amigo Fabiano Cavalcante, hoje o blogue faz homenagem à face mais presente na obra de Roberto Carlos. A dois dias de seu aniversário, RC merece que esteja em destaque o romantismo que suas canções sempre trazem.

Novamente no estilo de seção de revista, a crônica de hoje ajuda a mostrar como as músicas que Roberto escreve (sozinho ou com Erasmo) não saem de moda. E a tendência de todas as estações do ano é sempre a mesma:

Moda - MAURO ABRANCHES

TENDÊNCIAS OUTONO-INVERNO

A moda outono-inverno deste ano de 2008 segue com uma tendência ao estilo retrô. Ternos, cravos e fraques em voga. Entretanto, não é necessária tanta preocupação com cores e também não precisa tirar dinheirinho do bolso querendo roupa melhor. Velho tênis e calça desbotada são um charme de elegância.

Ainda aproveitando a moda da primavera, é interessante deixar flores em casa e também mandar buquês aos respectivos namorados (acompanhados sempre de bilhetes com declarações de amor). Afinal, as folhas caem, mas nascem outras no lugar, em especial no coração. Modas de amor para aquecer o inverno!


E, na contagem regressiva para o blogue se juntar aos muitos, tantos que comemorarão mais uma passagem de ano deste cantor que emociona com detalhes tantos amantes (de todas as modas, de todos os gostos, de todos os corações), este post encerra trazendo as duas canções que inspiraram a seção de moda de nossa Crônica da vida. Que eu gostaria de saber a opinião dos que acessam ao blogue para saber se vale a pena continuá-la em próximas oportunidades.

A primeira canção data de 1980, e é a terceira canção do lado B de seu LP daquele ano, e a segunda canção apresentada abre o disco apresentado em 1983. Ambas comprovam que o amor pode ser considerado um sentimento à moda antiga, mas jamais vai estar fora de moda.

Seguem as letras! Na foto, Roberto Carlos durante o clipe da canção Amante a la antigua, versão em espanhol de uma das músicas que aparecem ao final deste post.

Abraços a todos, Vinícius

AMANTE À MODA ANTIGA - Roberto e Erasmo

Eu sou aquele amante à moda antiga
Do tipo que ainda manda flores
Aquele que no peito ainda abriga
Recordações de seus grandes amores

Eu sou aquele amante apaixonado
Que curte a fantasia dos romances
Que fica olhando o céu de madrugada
Sonhando, abraçado à namorada

Eu sou do tipo
De certas coisas
Que já não são comuns
Nos nossos dias

As cartas de amor
O beijo na mão
Muitas manchas de batom
Daquele amasso no portão

Apesar de todo progresso
Conceitos e padrões atuais
Sou do tipo que, na verdade
Sofre por amor e ainda chora de saudade

Porque sou aquele amante à moda antiga
Do tipo que ainda manda flores
Apesar do velho tênis e da calça desbotada
Ainda chamo de querida a namorada

Ainda chamo de querida
A minha namorada
A minha namorada...

***

O AMOR É A MODA - Roberto e Erasmo

Se o amor está fora de moda
Eu estou um tanto quanto antiquado
Por amar e sentir certas coisas
O que às vezes se diz que é quadrado

O ciúme me causa problemas
Que eu às vezes não posso conter
Reações de um machismo ridículo
Que nem sempre consigo esconder

Olha
Tudo é questão de momento
Homem que tem sentimento
Briga por tudo o que quer

Ama, independente da moda
Macho, mas não se incomoda
De ser um doce
Com sua mulher

O amor está sempre na moda
Não me deixam mentir os casais
Pelos cantos escuros das ruas
E entre quatro paredes bem mais

Sei que muitos se querem bastante
E que outros se amam demais
Meu amor por você é tão grande
E essa moda é a gente que faz...

terça-feira, 15 de abril de 2008

Crônicas da vida - 2


Olá, amigos.

A poucos dias de uma data especial no nosso calendário (se aproxima o dia de aniversário de Roberto Carlos), este que vos escreve vem aproveitando um tema que fez algum tempo atrás para outro amigo que fala sobre RC. No blogue Aplauso, idealizado e atualizado por Fabiano Cavalcante, fiz alguns textos para a seção Crônicas da vida, transformando para situações cotidianas canções assinadas por Roberto (sozinho ou com Erasmo Carlos). Fabiano, por sinal, teve o recente privilégio de assistir ao show de RC na praia de Fortaleza (a terra onde vive), e fez o relato desta passagem do cantor por uma das mais belas cidades do Nordeste. Recomendo lê-la em seu blogue (o link está nos nossos favoritos, à direita).

Em Crônicas da vida, achei uma saída para tornar mais condizente as histórias inspiradas naquelas canções do Roberto. Sim, é bem verdade que muitas das músicas escritas e gravadas por RC contam histórias (de amores bem sucedidos, perdidos ou saudosos, de rotinas, de religiosidade, de protesto...). No entanto, muitas de suas canções têm um sabor de bom conselho que ele dá de graça aos que o escutam.

É o caso de uma das canções mais bem sucedidas dos anos 80, que mostra que RC, em seu romantismo, também compreende algumas nuances da alma feminina. Vejamos as coisas que ele aconselha às mulheres em um texto que parece ter sido extraído de uma revista destinada ao público feminino. Para dar mais veracidade, chamamos uma articulista do sexo oposto ao deste que vos escreve:

SEÇÃO MULHER - Carmem Escorel

Sensualidade de ser você mesma

Não, não, não, em tempos de botox, silicone, cirurgias plásticas e milagres que tornam as mulheres cada vez mais perfeitas nos holofotes da mídia, o segredo não é ficar bonita igual a estas que a gente vê estampadas no jornal. A forma de evidenciar nossa sensualidade vem de uma receita simples: ser você mesma.

Basta ter a medida certa de seu jeito provocante e sensual, e dar destaque à mulher ideal que temos dentro de nós. Seja você mesma, e você e seu companheiro vão sentir tudo o que é bom de uma relação a dois.


A faixa apresentada no lado B do LP lançado em 1985 comprova uma coisa que o "sexto sentido" feminino ainda não conseguiu enxergar. A certeza de que toda mulher é um símbolo sexual.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos durante a turnê do LP que traz a música abaixo (chamada de Verde e amarelo, mas que trazia a mesma estrutura de seu show Emoções).

Abraços a todos, Vinícius.

SÍMBOLO SEXUAL - Roberto e Erasmo

Meu bem, não ligue, tudo isso é normal
Mulher bonita a gente sempre vê no jornal
Fazendo pose, bico, caras e bocas
Etcétera e tal

Cabelo pop, punk, rock é um toque
De capa de revista ou de televisão
Mas você sabe bem o que faz
Pra me chamar atenção

Você tem tudo nesse jeito provocante e sensual
Tudo que se espera da mulher ideal
Porque você, meu bem
É meu símbolo sexual...

E no verão o bronzeado é geral
É tanto que não cabe na medida atual
Eu me amarro em seu short, o decote
Em tudo seu afinal

Então você se chega mais e me abraça
Me beija e no seu beijo sinto tudo o que é bom
Eu te pego, e me entrego, e me esfrego
Todo no seu batom

Você tem tudo nesse jeito provocante e sensual
Tudo que se espera da mulher ideal
Porque você, meu bem
É meu símbolo sexual...

Sex, sex, sex, sexual...
Sex, sex, sex, sexual...
Porque você, meu bem
É meu símbolo sexual...

Você me fala tanta coisa bonita
Me acaricia, me provoca, me agita
Depois me olha desse jeito e me faz
Chegar mais perto e eu chego perto demais

Sex, sex, sex, sexual...
Sex, sex, sex, sexual...
Meu bem, você é mesmo
Meu símbolo sexual...

Sex, sex, sex, sexual...
Sex, sex, sex, sexual...
Porque você, meu bem
É meu símbolo sexual...

P.S.: estou republicando estas crônicas com outro intuito. Gostaria de saber do comentário de vocês, para ver se agrada e se eu posso continuar encontrando novas crônicas da vida em canções que Roberto Carlos fez para nós. Todos os comentários serão muito bem vindos.

domingo, 13 de abril de 2008

Crônicas da vida - 1



Olá, amigos.

Este fotolog abre espaço para mostrar um trabalho deste que vos escreve relacionado à obra de Roberto Carlos. Algum tempo atrás, o meu amigo Fabiano Cavalcante me encomendou fazer uma série intitulada Crônicas da vida para ser publicada por ele em seu blogue Aplauso - que está entre nossos favoritos, basta clicar no nome da lista para conhecer.

E nos próximos posts vou dedicar este espaço para republicar algumas destas crônicas. Através delas, reinventamos a música cantada por Roberto Carlos, e mostramos o quanto seu repertório se aproxima do cotidiano de todos nós que o acompanhamos.

E foi assim que uma música assinada por Roberto e Erasmo "reapareceu" do ponto de vista jornalístico, narrando uma situação que pode acontecer em qualquer tráfego urbano. E a notícia contada abaixo parece sempre presente nos jornais de todo o país:

Motorista multado culpa pedestre parada na calçada

Foi detido na tarde de ontem o motorista Adalberto Souza, após ser flagrado dirigindo na contramão da Avenida Getúlio Vargas. De acordo com o guarda presente no local, o Coronel Mariano Pontes da Silva, o indivíduo não só dirigia em sentido contrário aos demais veículos, como também estava dirigindo em alta velocidade, avançou o sinal e estava com a buzina de seu carro quebrada.

Em depoimento à 9ª DP, Adalberto afirmou que conhece o trajeto, mas disse que uma pedestre o fez voltar o carro: “Na beira da calçada, ela estava displicente. Fui em direção a ela, e não percebi que havia parado em local proibido”. Após prestar esclarecimentos no local, Adalberto Souza foi liberado, mas teve sua carteira apreendida.


A canção escolhida é a faixa que abre o LP lançado por Roberto Carlos em 1963. E há exatos 45 anos foi a primeira parada de RC na estrada de muitos sucessos.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em outro momento de sua vitoriosa estrada: no palco, em seu show A 200 km por hora.

PAREI NA CONTRAMÃO - Roberto e Erasmo

Vinha voando no meu carro
Quando vi pela frente
Na beira da calçada
Um broto displicente

Joguei o pisca-pisca
Para a esquerda e entrei
A velocidade que eu vinha
Não sei

Pisei no freio
Obedecendo ao coração
E parei...
Parei na contramão

O broto displicente
Nem sequer me olhou
Insisti na buzina
Mas não funcionou

Segue o broto seu caminho sem me ligar
Pensei por um momento que ela fosse parar
Arranquei a toda e sem querer avancei o sinal
O guarda apitou

O guarda muito vivo de longe me acenava
E pela cara dele vi que não gostava
Falei que foi Cupido quem me atrapalhou
Mas minha carteira pro xadrez levou

Acho que esse guarda nunca se apaixonou
Pois minha carteira o malvado levou
Quando me livrei do guarda, o broto não vi
Mas sei que algum dia ela vai voltar
E a buzina dessa vez eu sei que vai funcionar...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Roberto Carlos, intérprete - 21h



Olá, amigos.

No último post deste recorte da discografia de Roberto Carlos, batizado de Roberto Carlos, intérprete, mostramos aqui como sua discografia vem sendo uma fonte de repertório para os artistas até os dias de hoje. Esta constância atingiu inclusive às faixas de horário dedicadas à teledramaturgia na TV Globo, há décadas a maior fabricante de novelas brasileiras.

Músicas originalmente gravadas por Roberto Carlos vêm sendo usadas na trilha musical das produções da emissora do Jardim Botânico - nos posts anteriores, vimos Sonho lindo (gravada por RC em 1973), cantada por Tânia Mara e presente em Desejo proibido, e Coisas do coração (lançada por RC em 1987), na gravação de José Augusto que está entre as canções de Beleza pura.

O horário das 21h também abriu espaço a leituras mais recentes de músicas da safra de RC. E, assim como no título da novela, o "Roberto Carlos intérprete" aparece em dose dupla.

Vindo de um sucesso no horário nobre (Senhora do destino, no ar entre 2004 e 2005), o autor Aguinaldo Silva recebeu a incumbência de escrever uma nova sinopse para entrar no ar no fim de 2007 - mas, apesar do "hiato" entre as datas, as sinopses costumam ser entregues com antecedência de mais de um ano. Uma jogada de risco, uma grande armadilha pela qual ele passou anteriormente e já não teve muito sucesso na década anterior - quando escreveu o sucesso A indomada, em 1997, e depois teve um fracasso retumbante com Suave veneno, em 1999 - explicado por Aguinaldo como "fase de ameixa sêca" (momento em que perdeu completamente a inspiração para escrever).

Em sua nova empreitada, o autor lançou a partir de primeiro de outubro de 2007 a história de Duas caras - expressão que, no gosto popular, serve como referência para dizer que uma pessoa é cínica, hipócrita. E que, no caso do protagonista de sua novela, acabaria também sendo levada ao pé da letra.

A trama começou quando Adalberto Rangel (vivido por Dalton Vigh) presenciava um acidente de carro numa região do sul do país. O casal morto (Waldemar e Gabriela Nascimento, participações especiais de Fúlvio Stefanini e Bia Seidl, respectivamente) trazia uma pasta com dólares e a foto de uma moça - Maria Paula (papel de estréia como protagonista da atriz Marjorie Estiano).

Em Passaredo (cidade fictícia localizada no estado do Paraná), Maria Paula recebia a notícia de que estava órfã através do desconhecido. Adalberto aproveitava a fragilidade da moça para seduzi-la, e depois fugia com todo o dinheiro da família.

Os anos se passavam, e Adalberto, após várias cirurgias plásticas, mudava de rosto e também de identidade: agora era Marcôni Ferraço, dono de uma grande construtora no Rio de Janeiro. Um de seus empregados, Juvenal Antena (ótima atuação de Antônio Fagundes), se opunha às atitudes da construtora com relação aos subalternos, e inflava uma revolta para que os antigos empregados tivessem direito à moradia. Ele se tornava o líder de uma região conhecida como "favela da Portelinha".

Enquanto isto, Maria Paula traçava um plano obsessivo de encontrar o homem que a deixou na miséria. Com a ajuda do advogado Claudius (interpretado por Caco Ciocler), homem apaixonado por ela desde que moravam em Passaredo, ela seguia primeiro rumo a São Paulo, até chegar ao Rio de Janeiro, trazendo um trunfo: o filho Renato (estréia de Gabriel Sequeira). A trama tecida por Aguinaldo tem um mérito: seus núcleos dão margem a várias situações, e há como abordar assuntos em evidência atualmente na realidade nacional.

Na favela da Portelinha, além da expansão urbana, o autor deu margem para apresentar como pessoas de diferentes histórias e diferentes formas de viver convivem entre si. O caso mais latente foi a convivência entre adeptos do candomblé (liderados por Dona Setembrina, vivida por Chica Xavier) e a igreja protestante (tendo o pastor Inácio Lisboa, ótima construção de Ricardo Blat).

Entretanto, esta trama se perdeu depois que Aguinaldo decidiu que a Portelinha seria invadida por traficantes armados. A matança atingiu Rebeca, a filha do pastor (sensível atuação de Paola Crosara), com uma bala perdida. Após a morte de Setembrina e de Rebeca na "invasão" e do desaparecimento do pastor Lisboa, o mérito de mostrar a igreja protestante sem estereótipos (e convivendo em paz com umbandistas) foi deixado de lado: ganhou destaque a personagem Edivânia (vivida por Susana Ribeiro) e seu grande fanatismo religioso. O tom de Edivânia vem recebendo protestos por parte de seguidores das religiões protestantes - que afirmam que a personagem infla ainda mais o repúdio aos evangélicos. Talvez na tentativa de amenizar esta situação, o autor vem dando destaque a Ezequiel (vivido por um grande ator chamado Flávio Bauraqui), que seria um evangélico "inofensivo" aos olhos do público.

O público e a Portaria 796 (que classifica a censura das atrações exibidas na televisão) fizeram com que Aguinaldo Silva mudasse outra trama. Ainda na favela havia a "Uisqueria", lugar de prostituição velada na qual a personagem Alzira (papel de Flávia Alessandra) dançava para o deleite do público masculino - ela escondia a profissão do marido Dorgival (interpretado por Ângelo Antônio), portador de uma doença rara no coração que só poderia ser tratada em uma operação muito delicada. Aguinaldo causou um incêndio na "Uisqueria" e a transformou num bar mais comportado - o "Texas Bar", com as prostitutas se tornando dançarinas e passando a fazer parte de outras situações. De maneira irônica, o autor também incluiu um personagem intrigante - o "Sufocador de Piranhas", misteriosa pessoa que ataca as mulheres que trabalham no local sempre quando elas passam pela região mais deserta da favela. Embora tenha o mérito da ironia, este personagem se assemelha demais com outros "mistérios" de novelas anteriores de Aguinaldo Silva - a "Mulher de Branco" de Tieta e o "Cadeirudo" de A indomada .

Um dado curioso que justifica a frase "novela das oito que começa às nove": para que as novelas discutam temas mais polêmicos, elas atualmente vêm sendo obrigadas a proibir a atração "para menores de 14 anos". Esta classificação torna obrigatório que elas comecem depois das 21h. Enquanto Duas caras foi considerada "proibida para menores de 12 anos", ela começava no horário das 20h55. Em virtude destas mudanças, atualmente a TV Globo não tem mais reprisado novelas de seu horário de maior audiência: muitas coisas não devem ser apresentadas no horário da tarde, em que se apresenta o Vale a pena ver de novo - programa dedicado à reapresentação de novelas bem sucedidas na emissora. Desde segunda-feira, está indo ao ar a reprise de Cabocla, exibida originalmente às 18h.

Outra questão abordada pelo dramaturgo é o cotidiano de uma universidade. Trata-se da Universidade Pessoa de Moraes, e todos os fatos que se passam em uma faculdade. Desde Branca (vivida por Suzana Vieira), esposa do antigo dono que, de uma hora para outra se via diante de ocupar um cargo tão importante, passando por uma pessoa que trabalha lá há anos e aguarda ansiosamente por sua nomeação para a reitoria da faculdade (Heriberto, vivido por Paulo Goulart), o corpo docente e os alunos (dentre eles, o engajado Rudolf criado por Diogo Almeida e a "menina prodígio" Ramona, feita por Marcela Barrozo). Ainda há a figura de Francisco Macieira (papel a cargo de José Wilker), um homem que participou de movimentos estudantis durante a Ditadura Militar e que, depois de um bom período morando na França, retornava para assumir a reitoria da faculdade.

Outras tramas interessantes são o casal cômico Gabriel e Maria Eva (feitos por Oscar Magrini e Letícia Spiller, respectivamente), o "triângulo amoroso" que vive em harmonia Bernardinho, Dália e Heraldo (respectivamente interpretados por Thiago Mendonça, Leona Cavalli e Alexandre Slaviero)e a figura do deputado Narciso (vivido por Marcos Winter), um deputado honesto. Também é abordada a luta contra o alcoolismo, através do personagem Zé da Feira (músico interpretado por Eri Johson). A parte cômica ficou mais enfraquecida com a saída da personagem Amara, pois a atriz que a interpretava, Mara Manzan, teve de se afastar por motivos de saúde.

O leque de criações de Aguinaldo Silva parece trazer boas opções. Entretanto, o desenvolvimento de Duas caras vem trazendo muitas falhas - em virtude do autor ou do público? Esta questão sempre permanece...

A começar pelo protagonista "duas caras". Após ser apresentado com uma faceta inescrupulosa, aos poucos parece que Ferraço vem recebendo doses de "bondade", se tornando um improvável bom moço (dubiedade difere de incoerência). Os capítulos passam, e Maria Paula prossegue sendo uma das mocinhas mais insuportáveis da história da teledramaturgia brasileira - ela só sabe chorar e se lamentar, além da fragilidade cada vez ficar maior (o ideal seria deixá-la mais fortalecida com as "pancadas" sofridas - e ela iria da inocência dos primeiros capítulos, passando por suas quedas constantes, até chegar à redenção).

A discografia do "Roberto Carlos intérprete" aparece através de duas histórias apresentadas em Duas caras. E, infelizmente, ambas pecam pela falta de originalidade do autor.

Quinta faixa do LP de 1966, a música que é tema do personagem Evilásio (vivido por Lázaro Ramos) renasceu cerca de 40 anos depois na voz de MC Leozinho - e a gravação da música foi sugerida ao cantor de funk pelo próprio RC (que ficou fascinado ao ouvir sua música no rádio e o convidou para, em seu Roberto Carlos Especial de 2006, os dois cantarem a música Se ela dança, eu danço). O envolvimento do "favelado" Evilásio com a "rica" Júlia (papel de Débora Falabella) tinha rendido uma das tramas de Senhora do destino: Maria Eduarda (também vivida por Débora Falabella) se apaixonava por um suburbano - Viriato (interpretado por Marcello Antony) e recebia o repúdio do pai. Em Duas caras, a não aceitação do pai de Júlia fica mais acentuada pelo fato de ele ser negro.

O personagem de Lázaro Ramos também está envolvido em outra trama. Ele, que é afilhado de Juvenal Antena, se voltou contra os desmandos do padrinho e se prepara para ser candidato a vereador. Um "conflito ideológico" na favela da Portelinha.

O segundo momento em que a obra de Roberto Carlos como intérprete aparece vem através de uma outra cantora em evidência atualmente: Isabela Taviani. Ela interpreta uma música gravada por RC em seu LP de 1977 e que é uma das músicas mais importantes do repertório de Wanderléa para ser o tema de Célia Mara (vivida por Renata Sorrah).

Célia tinha, há décadas, um caso extraconjugal com João Pedro (participação especial de Herson Capri), marido de Branca e dono da Pessoa de Moraes. Em um dia que ela foi com amante a um circo, acontecia um tiroteio nas imediações do local, e ele era fulminado por uma bala perdida, morrendo na hora. Através dos jornais, Branca sabia da traição, e as duas passavam a se confrontar constantemente - inclusive depois que se descobria que Clarissa (vivida por Bárbara Borges) era filha de João Pedro, portanto, dona de metade do patrimônio universidade. A filha passava os direitos à mãe, que também se tornava uma das acionistas da Pessoa de Moraes. E, com esta trama, Aguinaldo Silva se repetia não na história, mas na escalação de seu elenco: assim como três anos antes, em Senhora do destino, Suzana Vieira e Renata Sorrah entram em conflito no horário nobre da TV Globo.

Alheio aos deméritos ou aos méritos que passam no horário das 21h, Roberto Carlos novamente se apresenta na trilha da novela de maior audiência na grade da TV Globo - através de dois momentos e de novas interpretações de canções que ele apresentou ao grande público. Como um negro gato, Roberto arrepia apresentando toda a ternura necessária para comover espectadores e ouvintes de boa música.

E esta série sai do ar deixando vocês com duas letras campeãs de audiência. Na foto, o logotipo de Duas caras.

NEGRO GATO - Getúlio Côrtes

Eu sou o negro gato de arrepiar
E essa minha vida é mesmo de amargar
Só mesmo de um telhado
Aos outros desacato

Eu sou o negro gato...
Eu sou o negro gato...

Minha triste história vou lhes contar
E depois de ouví-la sei que vão chorar
Há tempos eu não sei o que é um bom prato
Eu sou o negro gato...

Sete vidas tenho para viver
Sete chances tenho para vencer
Mas se eu não comer, acabo num buraco
Eu sou o negro gato...

Um dia lá no morro, pobre de mim
Queriam minha pele para tamborim
Apavorado, desapareci no mato
Eu sou o negro gato...

Eu sou o negro gato...
Eu sou o negro gato...

***
TERNURA (Somehow it got to be tomorrow) - Estelle Levitt e Kenny Karen (versão de Rossini Pinto)

Uma vez você falou
Que era meu o seu amor
E ninguém ia separar
Você de mim

Agora você vem dizendo adeus
Que foi que eu fiz
Pra que você
Me trate assim

Todo amor que eu guardei
A você eu entreguei
Eu não suporto
Tanta dor, tanto sofrer

Agora você vem dizendo adeus
Que foi que eu fiz
Pra que você
Me trate assim

Toda ternura que eu lhe dei
Ninguém no mundo vai lhe ofertar
E seus cabelos só eu sei
Como afagar

O meu pobre coração
Já não quer mais ilusão
Já não suporta mais sofrer
Ingratidão

Agora você vem dizendo adeus
Que foi que eu fiz
Pra que você
Me trate assim...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Roberto Carlos, intérprete - 19h



Olá, amigos.

Prosseguindo com este recorte da série Roberto Carlos, intérprete, chegamos à segunda faixa de horário da programação da TV Globo que traz uma canção originalmente lançada na voz de RC. Em tempos de trilhas musicais que tentam democratizar os discos das músicas que embalam as tramas das novelas, as atuais novelas da emissora do Jardim Botânico têm em seus três horários principais de teledramaturgia músicas do intérprete Roberto Carlos.

Cada vez mais a TV Globo vem se preocupando em convencionar o estilo de trama exibido em cada espaço de sua dramaturgia. Se o horário das 18h decididamente é destinado a tramas "de época" (termo usado para caracterizar novelas que passam em períodos anteriores à época atual), a faixa das 19h - na verdade, 19h15, pois o horário das sete da noite é ocupado pelos noticiários locais - também traz suas particularidades.

Como neste horário muitas pessoas que chegaram do trabalho estão reunidas em frente à TV depois de uma jornada diária cansativa, a idéia da emissora é colocar uma trama geralmente contemporânea com trama e personagens mais "leves" ao gosto do público. Alguns autores dizem se tratar de uma "novela das oito com menos profundidade".

A safra das sete é o espaço, muitas vezes, do humor (com Carlos Lombardi, que no ano retrasado colocou no ar a rocambolesca história de Pé na jaca) ou de dramas com fortes pitadas de irreverência (caso de Cobras & lagartos, de João Emanuel Carneiro). O horário originalmente dava margem a tentativas de inovações na linguagem da teledramaturgia, mas este conceito foi alterado com o fiasco de audiência da novela Bang bang, assinada por Mario Prata mas depois guiada por Carlos Lombardi (que entrou com o objetivo de "recuperar a audiência perdida").

Atualmente, o horário das 19h é o ideal para a emissora lançar colaboradores de novelas anteriores como autores principais das tramas de suas novelas. Foi assim com João Emanuel Carneiro, que estreou em Da cor do pecado, e também Walcyr Carrasco, que escrevia para as 18h e foi promovido de faixa quando escreveu Sete pecados. E desde 18 de fevereiro, data em que estreou a atual novela do horário, a emissora prossegue com esta política.

Colaboradora dos textos da trama vespertina Malhação, Andréa Maltarolli tem sua chance de se tornar uma das autoras da casa - e, quem sabe, conseguir o mesmo sucesso de João Emanuel Carneiro, que depois de duas tramas bem sucedidas às 19h, está escalado para escrever a próxima trama das 21h (com nome provisório de Juízo final). Pegando emprestado o título de uma música de Caetano Veloso, Andréa batizou com o nome de Beleza pura .

A história iniciou quando o engenheiro aeronáutico Guilherme Medeiros (vivido por Édson Celulari) lançou o helicóptero Carcará, que foi vendido ao dono de uma clínica estética Olavo Pederneiras (papel de Reginaldo Faria)para que ele gravasse um programa sobre estética na Amazônia. No entanto, a vilã Norma Gusmão (vivida por Carolina Ferraz), cegamente apaixonada por Guilherme e louca para tê-lo em suas mãos não só através do amor mas também dependendo dela para sua carreira e sua vida, sabotava o helicóptero, fazendo desaparecer não só Olavo mas também Sônia (interpretada por Christiane Torloni), o escritor Alex, a jornalista Márcia e o químico Mateus (respectivamente interpretados por Guilherme Fontes, Helena Fernandes e Rodrigo Veronese).

Guilherme acaba se envolvendo com a filha de Sônia, Joana (vivida por Regiane Alves), que passou toda sua vida num orfanato e apenas agora descobriu sua mãe biológica através de um detetive. Além de acreditar que o acidente é culpa de Guilherme, Joana ainda vem convivendo com dois obstáculos para viver seu amor com o engenheiro - a obsessão de Norma pelo rapaz e o amor doentio que Renato (dono da clínica de estética que Joana trabalha, vivido por Humberto Martins) sente por ela.

Nas tramas paralelas, destaque para as grandes oportunidades que a autora vem dando a atores de destaque em outras áreas. Mônica Martelli, que se consagrou nos palcos cariocas fazendo o monólogo de sua autoria Os homens são de Marte... e é pra lá que eu vou!, vive Helena, que finge ser o marido desaparecido Mateus para conseguir um emprego na clínica de Renato. Bruno Mazzeo, filho do humorista Chico Anysio e responsável pelo ótimo programa Cilada, apresentado no canal a cabo Multishow, diverte no papel do ambicioso e atrapalhado José Henrique Brandão Soares. Maria Clara Gueiros, atriz que já teve destaque no programa de qualidade duvidosa Zorra total com os bordões "vem cá, te conheço?" e "chupa essa manga" defende bem o papel de Suzy, amiga de Norma e que tem um caso mal resolvido com Raul (boa atuação de Leopoldo Pacheco). Bia Montez, que durante anos fez a Dona Vilma na atração vespertina Malhação, tem um trabalho interessante como Nazaré, em ótimas cenas com a filha Valmiréia (que é chamada de Meu Bem pelo patrão Guilherme) e o genro Erik (respectivamente feitos por Letícia Isnard - que teve destaque em Minha nada mole vida, e Pedro Brício)

A novela também traz personagens bem escritos, como Ivete (vivida por Zezé Polessa), que a todo custo quer impedir o namoro da filha Rakelly (papel de Ísis Valverde) com o pedreiro Róbson (interpretado por Marcelo Faria). E também traz uma trilha muito bem escolhida, que reúne nomes como Skank (em uma ótima leitura de Beleza pura), Roberto Frejat, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Ney Matogrosso e Nana Caymmi num interessante dueto com Marcio Faraco, em que Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, é interpretada em português e em francês.

Dentre as músicas também há espaço para uma nova leitura da face do "Roberto Carlos, intérprete". Desta vez, numa canção da dupla Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle. O maestro, que há mais de 30 anos ajuda a deixar afinada a música de Roberto Carlos, agora embala uma trama interpretada por dois atores cheios de afinação, não só em suas carreiras "solo", mas também na novela.

Originalmente gravada por Roberto Carlos em seu LP de 1987, a música de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle é tema do casal formado por Antônio Calloni e Soraya Ravenle. Seus personagens, Eduardo e Débora, vivem um "Romeu e Julieta" às avessas. Ambos são "viúvos" dos desaparecidos no helicóptero Carcará e se apaixonam, mas as filhas deles - Luiza (vivida por Bianca Comparato) e Fernanda (papel de Monique Alfradique) - além de não admitirem um envolvimento amoroso tão cedo, se odeiam porque disputam o amor de Klaus (estréia de Rafael Carodoso).

Na voz de José Augusto, a canção de Eduardo e Paulo Sérgio volta a ter destaque, e agora em um produto de teledramaturgia da emissora com maior audiência na TV brasileira. E também mostra que, apesar de todas as circunstâncias negativas, as coisas do coração podem trazer surpresas bem agradáveis. Mas, pra que querer saber coisas do coração?

Segue a letra! Na foto, o logotipo da novela Beleza pura.

COISAS DO CORAÇÃO - Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

Quantas vezes te falei
Que esse amor é tudo pra nós dois
Eu te quero e sempre vou te amar
Agora e depois

Quanto tempo, eu não sei
Não se mede em tempo uma paixão
Mas eu sinto cada dia mais
Você no coração

Quantas coisas entre nós
Foram ditas quase sem falar
De repente, um gesto e um olhar
Dizem "te amo"

E sem nada prometer
Nos amamos sem querer saber
Se é paixão ou se é um grande amor
Tudo que existe em nós

Pode ser amor, pode ser paixão
Pode ser até outra explicação
Só sei que quero ter você
Sempre a meu lado

Pode ser amor, pode ser paixão
Mas seja qual for a explicação
Meu bem, por que querer saber
Coisas do coração?

P.S.: gostaria de pedir desculpa pelo atraso em atualizar o post anterior - ele deveria ter sido atualizado no dia 7. É que na segunda-feira participei da leitura de uma peça chamada Entre o Céu e a Terra, reunindo três adaptações de contos de Machado de Assis feitas por José Antônio de Souza, e li ao lado de Gracindo Júnior, Rubens Araújo, Teton Cunha, Sacha Bali e grande elenco no palco da Casa da Gávea. Agradeço a compreensão...