quarta-feira, 13 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1971



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua a relembrar, post a post, cada ano do cinquentenário de carreira de Roberto Carlos. Hoje, é a vez de recordar um ano iluminadíssimo da estrada musical de RC.

1971 foi mais um ano no qual o confronto entre Estados Unidos e União Soviética mediram forças na corrida tecnológica. Após os americanos lançarem o Apollo XIV na Lua, a União Soviética tentou conhecer Marte, com a sonda Mars 2, em 19 de maio. 11 dias depois, os Estados Unidos contra-atacaram, lançando a sonda Mariner 9.

As guerras continuavam ecolodindo por todo o mundo. No Vietnã, americanos e vietnamitas prosseguiam duelando, desta vez sem os exércitos da Nova Zelândia e da Austrália. E, no final de 1971, durante 13 dias ocorreria a Guerra Indo-Pasquitanesa, ocorrida logo depois da independência de Bangladesh. Pela segunda vez em sua história, o dólar americano acabou o ano desvalorizado. Curiosamente, no mesmo 1971 em que a Bolsa de Nasdaq começou a funcionar.

Este ano marcaria a estreia de muitas coisas que até hoje fazem parte do nosso cotidiano. Em abril, foi ao ar a primeira edição do Jornal Hoje, noticiário exibido no início da tarde da programação da TV Globo. Em junho, a série El Chavo del Ocho estreou na televisão mexicana e, mais tarde, passaria por vários países (sendo, inclusive, um grande sucesso no Brasil). E em outubro, foram abertas as portas de Walt Disney World, responsável por desenhos que há tanto tempo comovem o mundo.

O futebol brasileiro também teve uma estreia. Após dividir os campeonatos de futebol entre os estaduais, os regionais (como o Torneio Rio-São Paulo) e alguns torneios confusos, como a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, enfim foi criado o Campeonato Brasileiro de Futebol do jeito que é jogado nos dias de hoje. Dos 20 clubes que tentaram ser o melhor do Brasil, chegaram ao triangular final São Paulo, Botafogo e Atlético Mineiro.

No primeiro jogo, o Atlético venceu o São Paulo por 1 a 0 no Mineirão. No segundo, os são-paulinos golearam por 4 a 1 no Morumbi. Na partida final, realizada no Maracanã, chegou-se a uma situação curiosa: quem vencesse sagrava-se o melhor do país e, em caso de empate,o São Paulo era campeão. Mas Dadá Maravilha, num gol de cabeça no qual ele diz que parou no ar (assim como param o beija-flor e o avião), fez o gol da vitória atleticana. Até o momento, foi o único título brasileiro do Galo mineiro.

Aos poucos chegando ao primeiro lugar na audiência (em especial pela exibição de Irmãos Coragem, novela de Janete Clair que começou no ano anterior mas continuava muito bem no horário das 20h), a TV Globo mantinha a tradição dos festivais. No VI Festival Internacional da Canção, mais uma vez o destaque foi Evinha, que deu o primeiro lugar à música Kyrie, de Paulo Soares e Marcelo Silva. Na segunda posição, ficou Karany Karanuê, música de Diana Camargo e José de Assis interpretada pelo Trio Ternura. Em terceiro, a dupla Antônio Carlos e Jocafi apresentou mais uma boa canção de sua safra - Desacato.

E em 1971, RC apresentaria aquele que é consagrado por muitos um dos melhores discos de seus 50 anos de carreira. Com o seguinte repertório:

LADO A

1 - Detalhes, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Como dois e dois, de Caetano Veloso

3 - A namorada, de Maurício Duboc e Carlos Colla

4 - Você não sabe o que vai perder, de Renato Barros

5 - Traumas, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

6 - Eu só tenho um caminho, de Getúlio Côrtes

LADO B

1 - Todos estão surdos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Se eu partir, de Fred Jorge

4 - I love you, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - De tanto amor, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

6 - Amada amante, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

O seleto grupo de compositores de Roberto Carlos (Renato Barros, Getúlio Côrtes e Fred Jorge), uma dupla pela primeira vez estaria presente na lista anual de RC. Carlos Colla fazia parte de uma banda e conseguiu contato com o cantor para pedir que ele escrevesse uma música. Roberto inverteu o convite, pedindo uma canção para ele. E assim surgiu na voz de Roberto Carlos a música A namorada.

Caetano Veloso esteve presente duas vezes neste trabalho de RC. Como autor, através da política Como dois e dois, e também como homenageado de uma das canções. Caetano estava em exílio na cidade de Londres, e Roberto Carlos foi com sua esposa, Nice, visitá-lo. Do encontro emocionante, no qual RC apresentou ao violão As curvas da Estrada de Santos, surgiu uma homenagem musical. Roberto e Erasmo escreveram para ele a belíssima Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, já prevendo que um dia os pés do amigo voltariam a tocar a areia branca.

Na safra de canções escritas com Erasmo, Roberto abriu espaço para outra homenagem. Na penúltima faixa do lado B, RC deu sua versão para De tanto amor, música que ele escreveu como presente de casamento para sua afilhada, a cantora Claudette Soares, interpretar. No mesmo estilo de Oh, meu imenso amor e Vista a roupa, meu bem, esteve presente também a irreverência, na faixa I love you. O lado B foi aberto por mais uma canção religiosa, Todos estão surdos, na qual Roberto citou outro cabeludo que apareceu na rua do cancioneiro mundial - John Lennon.

Roberto tocou em assuntos mais íntimos, como uma lembrança de seu acidente em Traumas, e, pela primeira vez, incluiu em sua safra uma música sensual. Em plena época da discussão sobre o divórcio e da marcha pelo moralismo, Roberto Carlos ousou fazer uma homenagem intitulada Amada amante.

Mas a canção mais marcante do repertório de 1971 foi a que abriu este antológico LP. É uma música que atravessa as décadas e que, 10 anos depois, Roberto chegou a dizer que "acho que vou cantá-la pelos próximos 100 anos". Passados 38 anos que ele escreveu esta música com Erasmo, Roberto Carlos continua com ela em seus shows.

Segue a letra! Na foto, a contracapa do LP de 1971.

Abraços a todos, Vinícius.

DETALHES - Roberto e Erasmo

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida, eu vou viver
Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E toda hora vão estar presentes, você vai ver

Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isso lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua
O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada ou coisa assim
Imediatamente você vai lembrar de mim

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei mas eu duvido
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim
E nessa hora você vai lembrar de mim

À noite envolvida no silêncio do seu quarto
Antes de dormir você procura o meu retrato
Mas na moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim
E tudo isso vai fazer você lembrar de mim

Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada
Pensando ter amor nesse momento
Desesperada você tenta até o fim
E até nesse momento você vai lembrar de mim

Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma todo o amor em quase nada
Mas quase também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso, de vez em quando, você vai, vai lembrar de mim

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver
Não, não adianta nem tentar me esquecer...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1970



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua contando post a post cada um dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos, com todos os fatos que o mundo conheceu neste tempo todo. Hoje, nossa retrospectiva entra em uma nova década da carreira de RC.

Em 1970, o mundo deu um grande passo no valor à humanidade, quando entrou em vigor o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Assinado em 1968, o tratado foi uma iniciativa para tentar um uso pacífico das armas nucleares. Até o momento, são 187 países que assinam este pacto.

No cenário religioso, santidades chamaram atenção aos olhos do mundo. Santa Teresa d'Ávila e Santa Catarina de Sena foram proclamadas doutoras da Igreja Católica pelo Papa Paulo VI. E o Papa, em novembro, seria alvo de um covarde atentado quando visitava Malina, nas Filipinas.

O Brasil voltou a aparecer no cenário mundial através do talento com os pés. Treinado por Zagallo (que substituiu João Saldanha, demitido às vésperas da Copa do Mundo por responder à solicitação do presidente Emílio Garrastazu Médici pedindo Dadá Maravilha no time com a declaração "ele escala os ministérios e eu escalo a Seleção), o Brasil apresentou uma Seleção histórica, com jogadores fantásticos, que marcaram época. Com craques como Pelé, Gérson, Jairzinho, Rivelino e tantos outros, o Brasil venceu os seis jogos disputados e, na final, derrotou a Itália pelo placar de 4 a 1. A taça erguida pelo capitão Carlos Alberto Torres ficaria em definitivo no Brasil. A Taça Jules Rimet ficaria no país que vencesse por três vezes a Copa do Mundo. Um incidente aconteceria com a taça algum tempo depois, mas isto é um assunto para um dos próximos posts.

A televisão brasileira passou por algumas mudanças em sua programação de 1970. Em São Paulo, a TV Gazeta começou suas transmissões no canal 11. E a histórica TV Excelsior, saiu do ar a 30 de setembro de 1970. A emissora saiu derrotada na queda de braço com o governo militar, que censurava boa parte dos programas desde o golpe de 1964. Asfixiada financeiramente e institucionalmente, a TV Excelsior saiu do ar deixando uma bonita história para contar.

1970 também trouxe o ponto final de uma bela história da música. Os Beatles saíram de cena, e John, Paul, Ringo e George continuaram no cenário musical, cada um pro seu lado.

Embora a TV Record tenha deixado sua "era dos festivais" na década anterior, a TV Globo continuava apresentando o Festival Internacional da Canção. E o Brasil premiou novos nomes do cenário da Música Popular Brasileira. A sensação do festival foi Tony Tornado, que ganhou com sua interpretação (acompanhado do Trio Ternura) para BR-3, de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo. Em segundo lugar, ficou Ivan Lins, mesmo sob a forte crítica da esquerda brasileira, que considerou O amor é o meu país, dele e de Ronaldo Monteiro de Souza, um ufanismo exagerado típico da Ditadura Militar. E em terceiro, Taiguara mostrou sua vertente de intérprete e de compositor com a empolgante Universo do teu corpo.

Roberto Carlos ia cada vez mais veloz na estrada. E em 1970 ganhava os palcos de uma tradicionalíssima casa de espetáculos do Rio de Janeiro. Ronaldo Bôscoli definiu o Canecão com a frase "aqui se escreve a história da Música Popular Brasileira". E RC iniciou suas linhas no show A 200 km por hora.

A 200 km por hora teve direção de Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, e o arranjador Chiquinho de Moraes foi o responsável por dirigir os músicos do RC-7, do Quinteto Villa-Lobos e da Banda Supersônica. Roberto entrava no palco num carro de corrida, com ruídos de motores acelerando no início e no fim do show. O repertório era o seguinte:

Lobo mau
Eu sou terrível
Mexerico da Candinha
Quero que vá tudo pro inferno
Namoradinha de um amigo meu
Eu te amo, te amo, te amo
Não vou ficar
Ciúme de você
As flores do jardim da nossa casa
Não quero ver você triste
Canzone per te
O diamante cor-de-rosa
Tutti Frutti
Laura
Oh, meu imenso amor
Se você pensa
As curvas da Estrada de Santos
O calhambeque
120... 150... 200 km por hora

Considerada a grande guinada na carreira de RC, esta apresentação reflete a fase mais soul dele, que refletiu inclusive no arranjo da "lenta" canção Laura. Os momentos de mais destaque foram suas performances instrumentais - com a gaita em O diamante cor-de-rosa e com a guitarra em Não vou ficar - o bloco das canções sobre velocidade na reta final do show e o coro dos espectadores acompanhando a valsa Oh, meu imenso amor.

Uma reportagem na Revista Manchete sobre a estréia do show que ficou por 45 dias no Canecão realça:

"Quando Roberto Carlos apareceu no palco do Canecão, calça de veludo vermelho e túnica franjada de camurça escura, estava começando o show mais esperado das noites cariocas dos últimos anos. Mas quando ele se curvou para agradecer as palmas (muitas) depois do número final, continuou a mesma ansiedade de antes da primeira música. Era quase unânime a opinião de que esse mito da música popular brasileira está em nível superior ao esquema armado para sua primeira aparição ao vivo".

120...150...200 km por hora entraria no LP que Roberto Carlos lançou ao final de 1970. Mas não seria a única a emocionar seu público. Eis o repertório:

LADO A

1 - Ana, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Uma palavra amiga, de Getúlio Côrtes

3 - Vista a roupa, meu bem, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Meu pequeno Cachoeiro, de Raul Sampaio

5 - O astronauta, de Édson Ribeiro e Hélio Justo

6 - Se eu pudesse voltar no tempo, de Pedro Paulo e Luiz Carlos Ismail

LADO B

1 - Preciso lhe encontrar, de Demétrius

2 - Minha senhora, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Jesus Cristo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Pra você, de Sylvio César

5 - 120...150...200 km por hora, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

6 - Maior que o meu amor, de Renato Barros

Neste novo LP, Roberto Carlos voltou às suas raízes cachoeirenses, cantando a música Meu pequeno Cachoeiro, da autoria de seu conterrâneo Raul Sampaio. Com um dado curioso: RC quis mudar o verso "o meu jenipapeiro lá no centro do terreiro dando sombra no quintal", mas Raul insistia em só permitir a gravação se fosse do jeito original. Enfim, conseguiu ceder, e recentemente afirmou que "meu flamboyant na primavera, que bonito que ele era, dando sombra no quintal".

RC apresentou ao cenário musical outro grande compositor - Sylvio César - mas também abriu espaço no seu repertório para uma canção daquele que mais tarde vocalista de sua banda, Luiz Carlos Ismail. Demétrius retribuiria a gentileza de RC (que anos antes mandou para ele a canção Eu não presto, mas eu te amo), escrevendo a música que abre o lado B do disco. Os autores constantes da época, Getúlio Côrtes, Renato Barros e a dupla Hélio Justo e Édson Ribeiro continuava em seu repertório, mas cada vez mais com canções intimistas.

A safra de Roberto e Erasmo Carlos apresentou várias vertentes de sua composição. Desde a doce Ana, passando pela romântica Minha senhora, a introspectiva 120...150...200 km por hora e mais uma irreverente homenagem a gerações antigas da Música Popular Brasileira: com voz mais anasalada, RC cantou a fantástica Vista a roupa, meu bem.

E, pela primeira vez em seu repertório, abria espaço para falar de uma grande característica de sua alma. A FÉ. Em estilo gospel, RC louvava a Jesus Cristo, numa canção que até hoje chega aos corações de muitos brasileiros.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em raro registro na TV Tupi.

Abraços a todos, Vinícius.

JESUS CRISTO - Roberto e Erasmo

Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui...

Olho pro céu e vejo
Uma nuvem branca que vai passando
Olho na terra e vejo
Uma multidão que vai caminhando

Como essa nuvem branca
Essa gente não sabe aonde vai
Quem poderá dizer o caminho certo
É Você, meu Pai

Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui...

Toda essa multidão
Tem no peito amor e procura a paz
E apesar de tudo
A esperança não se desfaz

Olhando a flor que nasce
No chão daquele que tem amor
Olho pro céu e sinto
Crescer a fé no meu Salvador

Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui...

Em cada esquina eu vejo
O olhar perdido de um irmão
Em busca do mesmo bem
Nessa direção caminhando vem

É meu desejo ver
Aumentando sempre essa procissão
Para que todos cantem
Na mesma voz essa oração

Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo, Jesus Cristo
Jesus Cristo, eu estou aqui...

sábado, 9 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1969



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções encerra uma das décadas do cinquentenário de carreira de Roberto Carlos. Depois de uma década na qual passou pela Bossa Nova e pela Jovem Guarda, RC seguia o rumo do Brasil e do mundo e começava a apresentar transformações, num prenúncio do que viria na década seguinte.

1969 foi o marco de progressos nos ares. Em fevereiro, ocorreu o primeiro voo comercial do Boeing 747, e no mês seguinte, o Concorde cruzou os ares pela primeira vez. Mas os Estados Unidos ainda iriam mais longe no dia 20 de julho.

A missão Apolo XI terminou com transmissão via satélite para todas as televisões do mundo. Neil Armstrong se tornou o primeiro homem a pisar na Lua, num momento que ele definiu como "um pequeno passo para um homem, e um grande salto para a humanidade".

Mas as coisas em terra firme não caminhavam muito bem. Em 4 de setembro de 1969, o embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, foi mais uma das vítimas do confronto entre a Ditadura Militar e a luta armada no país. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (o MR-8) e a Ação Libertadora Nacional (ALN) o mantiveram em cativeiro durante quatro dias, e o sequestro acabou quando o governo aceitou a libertação do embaixador em troca de 15 presos políticos serem exilados. Um dos militantes envolvidos no sequestro foi o hoje deputado federal do Rio de Janeiro Fernando Gabeira, que relatou os momentos de 1969 no livro O que é isso, companheiro?. Mais tarde, o livro se tornaria um filme de Bruno Barreto, mas ele é assunto para um próximo post.

A vitória desta ação revolucionária não adiantaria muito na marcha pelo fim do regime militar. Em outubro de 1969, tomaria posse da presidência o general Emílio Garrastazu Médici. Ele apresentaria na década de 1970 um período terrível para a população brasileira.

A televisão mostrava novidades em sua programação. Começava a ser exibida na Inglaterra a primeira série cômica do grupo humorístico Monthy Python. Viriam vários filmes e um jeito de humor que influenciaria as futuras gerações de piadistas pelo mundo. E no Brasil, em primeiro de setembro ia ao ar a primeira edição de um informativo que permanece na programação nacional: o Jornal Nacional.

Em 1969 a música acompanharia um evento revolucionário. Nos dias 15, 16 e 17 de agosto, o mundo musical voltou seus olhos para Woodstock, num evento com a mistura explosiva de sexo, drogas e rock'n roll. De lá partiria para todos os cantos o som de artistas como Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Na Música Popular Brasileira, o país continuava a conhecer músicas através dos festivais. No V Festival de Música Popular Brasileira, exibido pela TV Record, foram lançadas as canções Sinal fechado (vencedora, composta e interpretada por Paulinho da Viola) e Clarisse (segunda colocada, com interpretação de Agnaldo Rayol para música de Eneida e João Magalhães). No IV Festival Internacional da Canção, as duas primeiras colocadas foram para canções com nomes de mulher. Em primeiro, Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, cantada por Evinha, e em segundo, Juliana, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, interpretada por Brasuca.

Roberto Carlos novamente apareceu nas telas do cinema brasileiro. E muito bem acompanhado - protagonizando o filme ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa. Em Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, o trio estava no exterior e se tornava alvo de um grupo de bandidos liderado por Pierre (vivido novamente por José Lewgoy). Com muitas cenas de luta de samurai, perseguições e, claro, muita música, o filme encerra com Roberto, Erasmo e Wanderléa cantando a música É preciso saber viver.

Em função de briga entre gravadoras, o registro do trio cantando nunca foi para disco. As músicas apresentadas no filme foram distribuídas nos discos e compactos do trio - Você vai ser o meu escândalo (com Wanderléa), Vou ficar nu pra chamar sua atenção e Aquarela no Brasil (no LP Erasmo Carlos e Os Tremendões, de Erasmo), Custe o que custar (em compacto de RC), Não vou ficar e a instrumental O diamante cor-de-rosa (ambas no LP de Roberto Carlos).

Neste disco de 1969, Roberto Carlos já apresentava sua interpretação no estilo do soul music, cantando sua verdade através deste repertório:

LADO A

1 - As flores do jardim da nossa casa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Aceito seu coração, de Puruca

3 - Nada vai me convencer, de Paulo César Barros

4 - Do outro lado da cidade, de Helena dos Santos

5 - Quero ter você perto de mim, de Nenéo

6 - O diamante cor-de-rosa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

LADO B

1 - Não vou ficar, de Tim Maia

2 - As curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Sua estupidez, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Oh, meu imenso amor, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Não adianta, de Édson Ribeiro

6 - Nada tenho a perder, de Getúlio Côrtes

As canções mais descompromissadas, engraçadinhas de seus compositores aos poucos ganhavam contornos mais sérios, falando de amores mal ou bem sucedidos - casos de Nada tenho a perder e Não adianta. Mas em meio ao romantismo de canções como Aceito seu coração e Quero ter você perto de mim (além da homenagem a uma geração antiga de intérpretes com Oh, meu imenso amor), já apareciam as características do soul, em letra, música e interpretação.

Logo no início do disco, Roberto Carlos abria espaço para uma canção escrita na Holanda, durante o tratamento de saúde de seu filho Segundinho (com um glaucoma que tirou parte de sua visão). Numa interpretação com a alma na voz, RC apresentou ao público As flores do jardim da nossa casa.

O soul se desenhou na interpretação de Nada vai me convencer, mas ganhou tintas fortes na primeira faixa do lado B - através de Não vou ficar, canção assinada por Tim Maia, expoente deste novo movimento musical aqui no Brasil. Num novo jeito de mostrar seu ponto de vista sobre questões amorosas, Roberto escancarava a voz para a letra de Sua estupidez.

A Jovem Guarda ia pelo espelho na distância se perdendo. Mas a paixão pelos carros prosseguia na garupa das canções de Roberto e Erasmo. As lágrimas azuis de outrora iam embora, e a estrada servia como forma de esquecer frustrações anteriores. Através das curvas da Estrada de Santos, Roberto Carlos cantava um novo ponto de vista, iniciando a fase que muitos chamam de seu amadurecimento musical.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos soltando a voz em clipe para o filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa.

Abraços a todos, Vinícius.

AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS - Roberto e Erasmo

Se você pretende saber quem eu sou
Eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na Estrada de Santos
E você vai me conhecer

Você vai pensar que eu
Não gosto nem mesmo de mim
E que na minha idade
Só a velocidade anda junto a mim

Só ando sozinho e no meu caminho
O tempo é cada vez menor
Preciso de ajuda, por favor me acuda
Eu vivo muito só

Se acaso numa curva
Eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo, corrijo num segundo
Não posso parar

Eu prefiro as curvas da Estrada de Santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive e vi pelo espelho
Na distância se perder

Mas se amor que eu perdi
Eu novamente encontrar
As curvas se acabam e na Estrada de Santos
Não vou mais passar
Não, não vou mais passar...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1968



Olá, amigos.

Em mais um post da série 50 anos de emoções, este blogue chega hoje a aquele que é definido pelo escritor Zuenir Ventura como "o ano que não terminou". Hoje é a vez de 1968.

Este ano foi um marco negativo para todas as tentativas de paz no mundo. A começar pelo assassinato de Martin Luther King, morto pela ignorância dos que eram favoráveis à permanência da segregação racial. A ignorância norte-americana continuava em outro território - o Vietnã - com a guerra chegando ao seu décimo ano de conflitos, desta vez tendo como palco o território de Saigon.

Seguindo o estigma de outro parente, Robert Kennedy foi assassinado em um atentado na Califórnia. Os Estados Unidos trariam uma luz no fim do túnel da barbárie através de um grupo de estudantes, que se mobilizou pedindo o fim da invasão americana em território vietnamita. Infelizmente, a tentativa foi em vão, ao menos em 1968.

Enquanto a política vivia os intensos impactos da Guerra Fria, o cinema americano apresentava ao mundo um dos ícones de sua história cinematográfica. O futuro chegou às telas, através de 2001 - A odisseia do espaço, obra-prima de Stanley Kubrick.

No Brasil, o futebol brasileiro perdeu uma chance de conquistar a América do Sul e tentar ser o melhor no confronto contra os europeus. O Palmeiras chegou à final da Taça Libertadores da América, mas não resistiu diante do argentino Estudiantes. Após uma derrota por 2 a 1 e uma vitória por 3 a 1, no jogo de desempate pelo título, os palmeirenses foram novamente derrotados, pelo placar de 2 a 0.

A Ditadura Militar já vivia em compasso de espera para escancarar seu patrulhamento em todo o território nacional, e em 1968 começou a apresentar sua verdadeira face. Tudo começou no dia 28 de março, quando o estudante de 16 anos, Edson Luiz de Lima Souto, foi assassinado no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Depois foi comprovado que o rapaz não tinha nenhuma participação em luta armada.

O incidente gerou a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, e ecoou até a esfera do poder ditatorial. No dia 3 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, fez um discurso com fortes palavras de oposição, e seus direitos políticos foram sumariamente cassados.

O golpe final veio em 13 de dezembro de 1968. O presidente Artur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional Número 5 (AI-5), dando plenos poderes ao presidente para decretar estado de sítio ou fechar o Congresso, além do governo poder intervir em estados e municípios. Foram suspensos os habeas corpus para pessoas que eram acusadas de crimes políticos, além da censura prévia ser imposta no país.

Neste contexto, a Música Popular Brasileira se sobressaiu como defensora de toda uma sociedade civil, expondo através de metáforas ou de canções de protesto suas divergências com o regime. Em 1968, um protesto ganhou as ruas da nação. No III Festival Internacional da Canção, Geraldo Vandré apresentou em Pra não dizer que não falei das flores um panorama no qual, mesmo diante de soldados, as pessoas caminhavam e cantavam e seguindo a canção. A mobilização para todos irem embora pois "quem sabe faz a hora não espera acontecer" ganhou a comoção do público e as ruas, e custou a Geraldo sua prisão e uma forte repressão. Tanto que hoje, com outro nome e com outra carreira, ele jamais aceitou falar de seu período como compositor.

O apoio a Pra não dizer que não falei das flores foi tanto que quando a belíssima Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, foi anunciada em primeiro lugar, a canção interpretada por Cynara e Cybele foi extremamente vaiada. Poucos perceberam que a doce música falava sobre exilados políticos.

Roberto Carlos também apareceu em festivais. Primeiro em fevereiro de 1968, na cidade italiana de San Remo. Lá, em fevereiro, ele aportou para cantar uma música assinada por dois Sergios, Endrigo e Bardotti, num cenário bem disputado nas terras italianas.

Das 23 canções apresentadas inicialmente no festival, 14 delas chegaram a finalistas do prêmio de San Remo, mas apenas as três mais votadas receberiam a premiação dos jurados. O apresentador Pippo Baudo (que fez as honras do festival ao lado de Luisa Rivelli) anunciou os premiados. Com o terceiro lugar, ficou Canzone, de Don Backy e Mariano e defendida por Adriano Celentano e Milva (e 251 votos dos jurados). Em segundo lugar, veio Casa Bianca, de Don Backy e La Valle, interpretada por Ornella Vanoni e Marisa Sannia (que recebeu 255 votos do júri).

E em primeiro lugar, com 306 votos, de Bardotti e Endrigo... CANZONE PER TE! No microfone do festival, RC falou em português sobre a emoção que sentia naquele 3 de fevereiro:

"Eu quero dizer a todos os brasileiros que neste momento estou realmente muito feliz, muito contente, e não sei nem mesmo o que dizer dada a emoção que eu estou nesse momento".

Um dado curioso: antes de partir para a Itália, Roberto deixou em compacto uma gravação de Canzone per te. Quando chegou em terras italianas, Endrigo e Bardotti fizeram alterações na letra, e RC teve de cantar com a letra escrita em sua mão, para o caso de esquecê-la. No disquinho que tem esta gravação, aparece no lado B a canção L'ultima cosa, que nunca mais foi lançada novamente em sua discografia.

Ele diria, cerca de 20 anos depois, durante o show Detalhes, em um número bem curioso, no qual ele apresentava uma música associada à roupa que ele vestia no palco. Sobre o paletó de babados que vestiu em San Remo, RC disse:

"Com essa roupa aqui eu vivi uma das maiores emoções de toda minha vida. Me lembro quando eu cheguei em San Remo, e tremia no aeroporto. Cheguei no hotel, e tremia mais. Então abri a mala, peguei essa roupa. Mas eu tremia tanto que essas bolinhas caíram todas no chão! Tive de catar tudo rapidamente, porque logo em seguida tinha o primeiro ensaio, e logo a primeira apresentação da noite". Embora durante suas apresentações do show, Roberto volta e meia se atrapalhasse com aquele paletó cheio de babados, de uma coisa não esqueceu: "E foi assim que naquela noite, com Sergio Endrigo, vivi aquela emoção toda".

Nelson Motta contou sobre sua reação quando soube da consagração de RC em San Remo:

"Numa bela manhã do verão de 1968, acordei com uma notícia maravilhosa: Roberto Carlos tinha vencido o famoso Festival de San Remo, cantando uma bela balada de Sergio Endrigo em impecável italiano. Que orgulho! Foi como ganhar uma Copa do Mundo de Música. Cantando com grande sentimento em dueto com Endrigo, o Rei da Jovem Guarda levantou o público e o júri e conquistou inédita vitória para nossas cores. E sons. (...) Roberto saiu consagrado do festival, virou estrela consagrada na Itália, começou a se tornar conhecido na Europa, ficou maior do que a Jovem Guarda e o Fino da Bossa de Elis Regina, juntos".

Mais do que uma vitória para o artista Roberto Carlos e para a música brasileira, há 40 anos esta conquista do Festival de San Remo confirmou uma verdade que persiste até os dias de hoje. De que Roberto Carlos tem versatilidade para cantar todos os estilos sobre os quais sua voz quiser se deitar, não se restringindo somente ao "iê-iê-iê-" que na época agonizava diante da superexposição da mídia que outrora havia sido benéfica para a ascensão dos brotos da Jovem Guarda. Após San Remo, Roberto ousaria tomar novos rumos, se mostraria inimitável e partiria por novos ritmos e novas canções, para o deleite de seu público. Coisas que, felizmente, seriam maiores do que o fim do programa Jovem Guarda, que saiu do ar definitivamente em 1968 mas continua sendo revivido a cada canção.

Ele experimentaria um novo ritmo, agora em um festival brasileiro. No IV Festival da Música Popular Brasileira, Roberto Carlos surpreendeu a todos apresentando ao público uma música de Renato Teixeira e Beto Ruschel - Madrasta. Ela não seria classificada no final, e os vencedores seriam premiados pela primeira vez em júri popular júri especial. O júri especial consagrou São, São Paulo, de Tom Zé, mas que ficou em quinto lugar no júri popular. O júri popular premiou Bemvinda, linda canção de Chico Buarque. Em segundo lugar nos dois júris, ficou Memórias de Marta Saré, assinada por Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri e interpretada por Edu Lobo e Marília Medalha. O júri especial premiou com a terceira colocação a música Divino maravilhoso (de Caetano Veloso e Gilberto Gil, na voz de Gal Costa) e, em quarto, Dois mil e um (de Rita Lee e Tom Zé, com Os Mutantes).

A intimista Madrasta encerraria seu LP de 1968. Mas esta não seria a única surpresa para os ouvintes neste O inimitável, que trouxe as seguintes canções:

LADO A

1 - E não vou mais deixar você tão só, de Antônio Marcos

2 - Ninguém vai tirar você de mim, de Édson Ribeiro e Hélio Justo

3 - Se você pensa, Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - É meu, é meu, é meu, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Quase fui lhe procurar, de Getúlio Côrtes

6 - Eu te amo, te amo, te amo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

LADO B

1 - As canções que você fez pra mim, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Nem mesmo você, de Helena dos Santos

3 - Ciúme de você, de Luiz Ayrão

4 - Não há dinheiro que pague, de Renato Barros

5 - O tempo vai apagar, de Paulo César Barros e Getúlio Côrtes

6 - Madrasta, de Renato Teixeira e Bato Ruschel

Roberto Carlos apresentou seu inimitável estilo de ser todos os estilos de música. O romantismo de E não vou mais deixar você tão só e Ninguém vai tirar você de mim, passando pela dor-de-cotovelo de Não há dinheiro que pague, O tempo vai apagar e Quase fui lhe procurar, as declarações de amor exaltadas de Eu te amo, te amo, te amo e quase infantis como em É meu, é meu, é meu, a doce balada As canções que você fez pra mim, as raivosas Nem mesmo você e Ciúme de você, a introspecção de Madrasta.

E também na vertente do soul music, que Roberto Carlos ajudou a trazer para o Brasil e ainda ficaria em seus discos nos próximos anos. Afinal, bom sempre foi ser feliz e mais nada. Como diz a canção de Roberto e Erasmo em O inimitável.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos experimentando um visual mais psicodélico nesta reta final dos incríveis anos 60.

Abraços a todos, Vinícius.

SE VOCÊ PENSA - Roberto e Erasmo

Se você pensa que vai fazer de mim
O que faz com todo mundo que te ama
Acho bom saber que pra ficar comigo
Vai ter que mudar...

Daqui pra frente
Tudo vai ser diferente
Você tem que aprender a ser gente
O seu orgulho não vale nada, nada...

Você tem a vida inteira pra viver
E saber o que é bom e o que é ruim
É melhor pensar depressa e escolher
Antes do fim

Você não sabe
E nunca procurou saber
Que quando a gente ama pra valer
Bom mesmo é ser feliz e mais nada, nada

Nada, nada...

terça-feira, 5 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1967



Olá, amigos.

Continuando a série 50 anos de emoções, hoje este blogue conta como foi o ano no qual Roberto Carlos foi além dos horizontes da música. RC acelerou o ritmo de aventura nas telas do cinema.

O ano de 1967 trouxe algumas reviravoltas na política de vários lugares do mundo. Na Grécia, o Rei Constantino II foi derrubado por George Papadopoulos, que instaurou uma ditadura militar no país. Sete anos depois de sua independência em relação à França, o Togo passou por um golpe político, que elevou Gnassingbé Eyadéma ao poder deste país africano.

Nas eleições presidenciais norte-americanas, Richard Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos. O comunismo sofreu um abalo nos seus alicerces no dia 8 de outubro deste ano. Nas proximidades de La Higuiera, Ernesto Che Guevara e seus companheiros de guerrilha foram capturados, e no dia seguinte, Che foi executado na Bolívia.

A partir de 5 de junho, o mundo voltou suas atenções para o Oriente. Tinha inicio a Guerra dos Seis Dias, quando Israel declarou guerra ao Egito, à Síria e à Jordânia. O conflito terminou no dia 10 do mesmo mês, com a rendição da Síria e a derrocada do poder bélico dos países árabes. Israel também conseguiu o direito sobre as Colinas de Golã, a Península do Sinai e a Cisjordânia. Mas os embates movidos pela religiosidade estariam bem longe de terminar.

O mundo também assistiu a uma grande vitória da medicina. Em 3 de dezembro de 1967 ocorreu o primeiro transplante de coração de um ser humano para outro. Na Cidade do Cabo, o paciente Lewis Washkansky recebeu o órgão de Denise Darvall, de 25 anos, que morrera num desastre de avião. Apesar da operação bem sucedida, Lewis morreu 18 dias depois, em decorrência de uma pneumonia.

A partir de 15 de março, o Brasil deixou de ser a República dos Estados Unidos do Brasil e passou a ser conhecida como República Federativa do Brasil - nome que tem até hoje. O país teve um grande passo na democracia de raças graças à criação da Fundação Nacional do Índio (a FUNAI), em 5 de dezembro.

A televisão começava a conhecer seus progressos e, pela primeira vez, foi realizada uma transmissão de um evento via satélite. Em 25 de junho, o mundo acompanhou pela TV a uma apresentação dos Beatles cantando All you need is love. Em terras brasileiras, a TV brasileira ganhou mais um canal: a TV Bandeirantes, presente no canal 13 de São Paulo. A emissora ainda demoraria para ter uma transmissão nacional.

No ano de estreia dos conjuntos The Doors, Pink Floyd e Bee Gees, Roberto Carlos continuava se aventurando nas apresentações do Festival da Música Brasileira. Tudo teve início quando o compositor Luiz Carlos Paraná o convidou para apresentar no festival um samba que contava uma história de carnaval. O autor afirmou que, quando contou a amigos que tinha entregue a interpretação a RC, muitos torceram o nariz, por conta do "iê-iê-iê" com o qual Roberto estava ainda envolvido.

Mas foi Roberto Carlos que o presenteou com a valorização de sua música. Roberto ficou em quinto lugar no Festival, uma ótima posição diante de canções maravilhosas que passaram pelo palco do Teatro Record. À frente de Maria Carnaval e cinzas ficaram Ponteio (de Edu Lobo e Capinam, interpretada por Edu Lobo, Marília Medalha e o Quarteto Novo, e vencedora da competição), Domingo no parque (de Gilberto Gil, apresentada por Gilberto Gil e o grupo Os Mutantes, com a segunda posição), Roda viva (canção de Chico Buarque apresentada por Chico e o grupo MPB-4) e Alegria, alegria (música de Caetano Veloso que Caetano cantou na companhia dos Beat Boys). O festival ainda trouxe um momento curioso: Sérgio Ricardo estava sendo vaiado pela plateia durante sua apresentação de Beto bom de bola quando, num momento de revolta, interrompeu sua interpretação para quebrar um violão numa mesa e atirá-lo nos espectadores que o vaiavam.

Só que o ritmo de Roberto Carlos ainda era o de aventura, e ele se aventurou nas telas do cinema nacional. Roberto Farias dirigiu seu xará num filme psicodélico, cercado de aventura, situações inusitadas, garotas bonitas e, claro, muita música. Em Roberto Carlos em ritmo de aventura, RC estava realizando um filme dirigido por um diretor maluco (papel do irmão de Roberto Farias, Reginaldo Faria) e um grupo de bandidos capitaneado por Brigite (vivida por Rose Passini) queria impedi-lo de fazer e levá-lo para uma organização na qual ele iria aderir à cibernética para fazer suas canções. Em meio a isto, vinha para o Brasil o ator francês Pierre (interpretado por José Lewgoy), que carregava o desejo de, no cinema, fazendo o papel de bandido, matar o mocinho.

Além de trechos incidentais de músicas como Quero que vá tudo pro inferno, Negro gato e Nossa canção, Roberto lançou 12 músicas novas, no LP que deu nome ao filme. Eis as canções:

LADO A

1 - Eu sou terrível, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Como é grande o meu amor por você, de Roberto Carlos

3 - Por isso corro demais, de Roberto Carlos

4 - Você deixou alguém a esperar, de Édson Ribeiro

5 - De que vale tudo isso, de Roberto Carlos

6 - Folhas de outono, de Francisco Lara e Jovenil Santos

LADO B

1 - Quando, de Roberto Carlos

2 - É tempo de amar, de José Ari e Pedro Camargo

3 - Você não serve pra mim, de Renato Barros

4 - E por isso estou aqui, de Roberto Carlos

5 - O sósia, de Getúlio Côrtes

6 - Só vou gostar de quem gosta de mim, de Rossini Pinto

Algumas canções nem chegaram à trilha do filme, e outras (como É tempo de amar), têm apenas sua melodia na tela. Um dado curioso em relação à música que encerra o disco: a música Só vou gostar de quem gosta de mim estava prevista para o LP do ano anterior. Bem, ao menos é o que indica a gravação em áudio disponível na Internet, na qual RC apresenta músicas do disco de 1966. A canção de Rossini Pinto está em meio ao repertório apresentado.

Renato Barros encontrou uma forma interessante de conseguir que sua música fosse gravada por RC. Em um dos dias de gravação do LP Roberto Carlos em ritmo de aventura, o autor aproveitou um intervalo para ensaiar a música Você não serve pra mim. Roberto ouviu, achou legal e pediu para ele. Renato ainda insistiu um pouco, dizendo que era música para um trabalho de Renato e seus blue caps. Mas, diante da nova insistência de RC, acabou cedendo ao cantor (conseguindo o que queria inicialmente). Você não serve pra mim rendeu um clipe engraçadíssimo no filme.

Os ecos da separação artística com Erasmo Carlos ficaram explícitos neste LP. As músicas Como é grande o meu amor por você, Por isso corro demais, De que vale tudo isso, Quando e E por isso estou aqui vêm somente com a assinatura de Roberto. Mas a amizade foi selada de maneira importantíssima.

A briga se desfez com o bilhete "Bicho, eu não tô mais zangado com você". Depois, RC mostrou uma melodia de uma música que estava pensando para a sequência inicial do filme. Uma letra que não estava conseguindo fazer, mas que ele sabia que Erasmo faria em 10 minutos. Estava assim sacramentado o novo início da parceria entre Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que ainda iria pôr mesmo para derreter na Música Popular Brasileira.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em uma cena antológica do filme que estrearia no início do ano seguinte. Nela, RC anda de helicóptero por todo o Rio de Janeiro, mostrando imagens da Igreja da Candelária, do Centro, do Aterro do Flamengo. Há também uma cena fantástica, na qual o helicóptero passa por dentro do Túnel do Pasmado - e pode-se ver o terreno onde, anos mais tarde, seria erguido o Shopping Rio Sul.

Abraços a todos, Vinícius.

EU SOU TERRÍVEL - Roberto e Erasmo

Eu sou terrível
E é bom parar
De desse jeito
Me provocar

Você não sabe
De onde eu venho
O que eu sou
E o que tenho

Eu sou terrível
Vou lhe dizer
Que ponho mesmo
Pra derreter

Estou com a razão no que digo
Não tenho medo nem do perigo
Minha caranga é máquina quente

Eu sou terrível, e é bom parar
Porque agora vou decolar
Não é preciso nem avião
Eu voo mesmo aqui do chão

Eu sou terrível
Vou lhe contar
Não vai ser mole
Me acompanhar

Garota que andar do meu lado
Vai ver que eu ando mesmo apressado
Minha caranga é máquina quente
Eu sou terrível, eu sou terrível

Eu sou terrível...

domingo, 3 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1966



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções apresenta mais um post no qual comenta um dos muitos anos nos quais Roberto Carlos está presente no cenário musical brasileiro. Esta é a forma do Emoções de Roberto Carlos comemorar em grande estilo seu cinquentenário de carreira.

Hoje é a vez de chegarmos ao ano de 1966. Este ano seria o início de um tenebroso período na história de nuestros hermanos argentinos. Em 28 de junho, o presidente Arturo Illia foi deposto por um grupo de militares. A intenção era combater a ascensão de ideias comunistas, e se precisasse, através da violência - como foi em 29 de julho, quando forças policiais invadiram universidades e protagonizaram a "Noite dos cassetetes".

Do outro lado do mundo, começava uma revolução: a Revolução Proletária da China. Liderado por Mao-Tsé Tung, o movimento teve o apoio de estudantes e trabalhadores contra a burocracia que atingia o Partido Comunista Chinês. Na África, tinha inicio a guerra de independência da Namíbia, que ainda demoraria muitos anos para deixar de ser controlada por uma metrópole.

O Papa Paulo VI deu um grande passo da Igreja Católica ao livre arbítrio das pessoas. Neste ano, o Index Librorum Prohibitorum (lista de publicações consideradas "perniciosas" pela igreja) foi abolido. Autores como Nicolau Maquiavel, Galileu Galilei, Alexandre Dumas e Voltaire tinham sido alguns dos responsáveis por "livros proibidos". Em 1966, o mundo conheceria outra igreja: a Igreja de Satã. Fundada por Anton Szandor LaVey (o "Papa Negro"), a igreja se opunha a muitas doutrinas cristãs, pregando coisas como indulgência, vingança e considerando os pecados como caminhos para gratificação mental, emocional e física.

No Brasil, a Ditadura Militar já pensava em sucessão política. O Marechal Castello Branco baixou dois novos atos institucionais. Com o Ato Institucional 3, em fevereiro, foram estabelecidas eleições indiretas para governadores e vice-governadores, e também estipulado que os prefeitos das capitais seriam indicados pela Assembleia Legislativa. Em dezembro, o Ato Institucional 4 convocou ao Congresso Nacional para votar o projeto de Constituição, que definitivamente revogou a Constituição de 1946.

No dia 3 de outubro, o Marechal Artur da Costa e Silva foi eleito novo presidente do Brasil. O MDB se absteve das votações depois que as pressões políticas nos estados fizeram com que o Arena elegesse 17 governadores. Mais tarde, seis deputados do partido de oposição teriam seus direitos políticos cassados.

Após o bicampeonato em 1958 e 1962, a Seleção Brasileira de Futebol frustrou a torcida na Copa do Mundo. Depois da desordem na preparação do time - chegou-se ao cúmulo de 44 jogadores estarem pré-convocados - o Brasil chegou à Inglaterra para atuar contra Bulgária, Hungria e Portugal. Com muito esforço, a Seleção venceu os búlgaros por 2 a 0. Na segunda partida, os húngaros venceram o Brasil por 3 a 1, em um jogo no qual a violência foi a tônica da Hungria. Com Pelé apanhando em campo, o time português, comandado pelo craque Eusébio, derrotou o Brasil por 3 a 1 e a Seleção voltou mais cedo para casa com um décimo-primeiro lugar.

O futebol da Seleção Portuguesa encantou o mundo, mas não foi suficiente para levá-lo à final do torneio - terminou em terceiro lugar. Inglaterra e Alemanha Ocidental decidiram a Copa do Mundo, e, após o empate em 2 a 2 no tempo normal, os ingleses venceram na prorrogação por 2 a 0. Um dos gols ingleses aconteceu num erro da arbitragem, que deu gol em lance no qual a bola bateu no travessão e depois caiu em cima da linha.

Em 1966, Roberto Carlos receberia pela primeira vez o apelido carinhoso pelo qual seus fãs chamam até os dias de hoje. Em primeiro lugar nas paradas de sucesso, RC foi chamado ao programa A buzina do Chacrinha para ser coroado o "Rei" do cenário musical. Numa apresentação bem irreverente, o Velho Guerreiro chamou Roberto para ir ao trono, e Lady Laura coroou seu filho a um reinado que iria além dos domínios da Jovem Guarda.

RC foi além dos domínios da Jovem Guarda e se arriscou a entrar no seletíssimo Festival da Música Popular Brasileira. No palco do Teatro Record, ele usou sua interpretação para defender a belíssima Anoiteceu, parceria de Francis Hime e Vinícius de Moraes. Infelizmente, a música não foi classificada e Roberto Carlos jamais a incluiu em sua discografia.

Naquele ano, o Festival da Música Popular Brasileira abriu a exceção de colocar um empate no primeiro lugar - entre A banda, canção de Chico Buarque interpretada por Nara Leão, e Disparada, música de Geraldo Vandré e Theo de Barros, conhecida pela voz de Jair Rodrigues. As outras canções premiadas foram: De amor ou paz (de Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos, na voz de Elza Soares, em segundo), Canção para Maria (de Paulinho da Viola e Capinam, também interpretada por Jair Rodrigues, com o terceiro), Canção de não cantar (a música de Sérgio Bittencourt ficou em quarto lugar, defendida pelo MPB-4) e Ensaio geral (quinto, com a interpretação de Elis Regina para a canção de Gilberto Gil).

Com seu sucesso musical, Roberto era requisitado para apresentar outros programas na TV Record - Roberto Carlos à noite, Opus 7 e Todos os jovens do mundo foram alguns deles - mas continuava apresentando o Jovem Guarda ao lado de Wanderléa e Erasmo Carlos. No entanto, sua parceria e amizade com Erasmo Carlos sofreu um abalo neste ano.

Erasmo se apresentou no programa Show em Si...Monal, apresentado por Wilson Simonal, cantando parcerias dele com Roberto (como Parei na contramão e Quero que vá tudo pro inferno). Por um deslize da produção, as músicas em nenhum momento foram creditadas também a RC. A fofoca chegou aos ouvidos de Roberto, que decidiu romper a parceria com Erasmo.

Em seu LP daquele ano, pela primeira vez desde 1963 Roberto Carlos não apareceu na autoria em companhia de Erasmo Carlos. Eis a lista de canções:

LADO A

1 - Eu te darei o céu, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Nossa canção, de Luiz Ayrão

3 - Querem acabar comigo, de Roberto Carlos

4 - Esqueça (Forget him), de Mark Anthony, com versão de Roberto Côrte Real

5 - Negro gato, de Getúlio Côrtes

6 - Eu estou apaixonado por você, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

LADO B

1 - Namoradinha de um amigo meu, de Roberto Carlos

2 - O gênio, de Getúlio Côrtes

3 - Não precisas chorar, de Édson Ribeiro

4 - É papo firme, de Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves

5 - Esperando você, de Helena dos Santos

6 - Ar de moço bom, de Niquinho e Othon Russo

Trazendo uma foto bem ao estilo das capas dos Beatles, com RC de preto no fundo preto e seu rosto claro contrastando com o resto, o disco mostrou um Roberto bem "negro gato". Do mesmo jeito que o título da canção de Getúlio Côrtes. Além da irresistível Negro gato (que, recentemente, Roberto Carlos voltou a cantar, como "sinal de que a terapia está dando certo"), Getúlio Côrtes mostrou o bom humor de sua música através de O gênio.

Desta vez, a única versão de canção americana veio em Esqueça. Através da letra de outros compositores viriam músicas muito bem sucedidas, como Nossa canção e É papo firme. Esta última receberia uma curiosa "resposta" musical - a Jovem Guarda usaria a cantora Waldirene para ser "a garota papo firme que o Roberto falou", nos versos de A garota do Roberto.

A coautoria de Roberto Carlos e Erasmo Carlos ficou remanescente em duas faixas. Depois de começar o LP do ano anterior, Jovem Guarda, com o amor mandando tudo para o inferno, RC abriu seu disco indo para o outro extremo- em Eu te darei o céu. E o fim do lado A mostra a dupla numa doce canção da descoberta de amor em meio a tanta correria - Eu estou apaixonado por você.

Roberto Carlos assina sozinho duas canções. Na que ocupa a terceira faixa do lado A, RC volta a apresentar sua rebeldia, na desafiadora Querem acabar comigo. Mas é na faixa que abre o lado B que Roberto mantém o estilo de suas canções na época da Jovem Guarda. De maneira displicente, ele conta da confusão amorosa na qual se intrometeu, ao amar loucamente a namoradinha de um amigo seu.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos no dia de sua "coroação".

Abraços a todos, Vinícius.

NAMORADINHA DE UM AMIGO MEU - Roberto Carlos

Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu
Sei que estou errado
Mas nem mesmo sei como isso aconteceu

Um dia sem querer
Olhei em seu olhar
E disfarcei até pra ninguém notar

Não sei mais o que faço
Pra ninguém saber que estou gamado assim
Se os dois souberem nem mesmo sei o que eles
Vão pensar de mim

Eu sei que vou sofrer
Mas tenho que esquecer
O que é dos outros
Não se deve ter

Vou procurar alguém
Que não tenha ninguém
Pois comigo aconteceu
Gostar da namorada de um amigo meu

Comigo aconteceu gostar da namorada
De um amigo meu...

*****

P.S.: um dado curioso. Alguns anos atrás, vazaram na Internet gravações em áudio de bastidores das gravações do LP de 1966. Em uma delas, Roberto Carlos canta o trecho de uma canção que nunca foi lançada. A música provavelmente chamaria Você vai perder seu bem. Seguem os versos:

Eu já falei
Você vai perder seu bem
Você não é
O que ela quer de alguém

Você não sai
Com seu benzinho a passear
Por outro cara
Ela vai se interessar

Eu já falei
Você vai perder seu bem
Eu já falei
Você vai perder seu bem...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1965



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções chega ao ano de 1965. Um ano especialíssimo para a carreira de Roberto Carlos, em sua juventude musical.

1965 teve uma alteração na maior potência mundial. Os Estados Unidos tiveram uma alteração no seu poder, com o início do mandato de Lydon B. Johnson, pela segunda vez ocupando a cadeira presidencial norte-americana. A União Soviética teve mais um grande feito na corrida especial com os Estados Unidos: a sonda espacial Venera chegou ao planeta Vênus. Este foi o primeiro artefato a pousar suavemente num planeta.

No Brasil, a Ditadura Militar dava mais um passo no caminho do totalitarismo político no país. Em 27 de outubro, foi instituído o Ato Institucional Número 2, que causava a extinção de todos os partidos políticos. O Ato também permitiu ao presidente decretar "estado de sítio" por 180 dias sem consultar o Congresso e punições a cassados políticos que se manifestassem contra o regime. Em novembro, o governo instituiu uma nova legislação partidária, que fixou dois partidos: Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Em meio à insegurança política, o país assistia à certeza de uma ascensão de uma cantora. No primeiro Festival da Música Popular Brasileira (exibido pela TV Excelsior), Elis Regina emocionou o país com sua interpretação para a canção Arrastão, parceria de Edu Lobo com Vinícius de Moraes.

A televisão teria um momento importantíssimo para o seu futuro no país. Em 26 de abril de 1965, começava a funcionar no Rio de Janeiro a Rede Globo de Televisão. Ela teria mais tarde um papel fundamental na carreira de Roberto Carlos. Mas isto é um assunto para um dos próximos posts.

A TV Record já investia em programas musicais, como O fino da Bossa (programa apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues) e o mensal Show do dia 7, no qual todos os contratados da emissora apresentavam quadros mesclando números musicais e teatro. Mas uma imposição da Federação Paulista de Futebol, proibindo a exibição de partidas do Campeonato Paulista aos domingos, fez com que a TV Record estreasse uma nova atração musical em sua grade.

E em 22 de agosto de 1965, estreou Jovem Guarda, um programa que aqueceu a brasa das tardes de domingo, mostrando tantas alegrias de um grupo de jovens que cantava o ritmo do "iê-iê-iê" - este estilo que ficava cada vez mais intenso a cada música dos Beatles divulgada no mundo. Para liderar o grupo de jovens, coube a responsabilidade a um trio de talentos - a dupla Roberto Carlos e Erasmo Carlos e a ternura de Wanderléa.

Nos domingos da TV Record desfilaria muita música e talentos não só da Jovem Guarda (como Martinha, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Os Vips, Renato e seus blue caps, e tantos outros), como também de outros estilos musicais. Todos apresentados por Wanderléa, Erasmo Carlos e Roberto Carlos. "E tudo isso era um todo... Um todo chamado Jovem Guarda!".

Era Roberto Carlos cantando sua juventude. Como dizia a capa de seu LP lançado em maio de 1965 - Roberto Carlos canta para a juventude, que trouxe as seguintes canções:

LADO A

1 - História de um homem mau (Ol' man mose), de Louis Armstrong e Zilner Trenton Randolph, com versão de Roberto Rei

2 - Noite de terror, de Getúlio Côrtes

3 - Como é bom saber, de Helena dos Santos

4 - Os sete cabeludos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Parei... olhei, de Rossini Pinto

6 - Os velhinhos, de José Messias

LADO B

1 - Eu sou fã do monoquíni, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Aquele beijo que te dei, de Édson Ribeiro

3 - Brucutu (Alley-Oop), de Dallas Franzier, com versão de Rossini Pinto

4 - Não quero ver você triste, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - A garota do baile, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

6 - Rosita, de Francisco Lara e Jovenil Santos

Neste LP, RC mais uma vez mesclou canções românticas, como Aquele beijo que te dei e Parei... olhei com situações narradas em ritmo de aventura, casos de Noite de terror e até de Brucutu, uma curiosa canção que fala sobre um personagem de história em quadrinhos da época. Sua safra em parceria com Erasmo seguia a mesma dicotomia, trazendo tanto situações amorosas como em A garota do baile como a aventura de Os sete cabeludos.

Seu LP trouxe até espaço para uma ousadíssima homenagem ao monoquíni - na época dos maiôs, o monoquíni era revolucionário, pois tratava-se um maiô que deixava à mostra a silhueta feminina. E Roberto Carlos dizia para a juventude: Eu sou fã do monoquíni.

RC estaria presente mais uma vez no ano de 1965. Ao finzinho do ano, viria o LP batizado com o nome do programa que ele apresentava na TV Record. Era o grito de liberdade de RC no "iê-iê-iê" de seu LP Jovem Guarda, com o seguinte repertório:

LADO A

1 - Quero que vá tudo pro inferno, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Lobo mau (The wanderer), de Earnest Mareska, com versão de Hamilton Di Giorgio

3 - Coimbra, de Raul Ferrão e José Galhardo

4 - Sorrindo para mim, de Helena dos Santos

5 - O feio, de Getúlio Côrtes e Renato Barros

6 - O velho homem do mar, de Roberto Rei

LADO B

1 - Eu te adoro, meu amor, de Rossini Pinto

2 - Pega ladrão, de Getúlio Côrtes

3 - Gosto do jeitinho dela, de Othon Russo e Niquinho

4 - Escreva uma carta, meu amor, de Pilombeta e Tito Silva

5 - Não é papo pra mim, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

6 - Mexerico da Candinha, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Em Jovem Guarda, as bem humoradas canções de Getúlio Côrtes estiveram presentes em dois momentos - em O feio, na parceria com Renato Barros, e na historinha de Pega ladrão. As lágrimas azuis passaram emocionadas em letras como as de Escreva uma carta, meu amor, Sorrindo para mim, e Eu te adoro, meu amor, confirmando as presenças de Rossini Pinto e Helena dos Santos, além de apresentar Pilombeta aos ouvintes de Roberto Carlos.

Roberto Rei apareceu desta vez como autor, trazendo uma história parecida com a História de um homem mau - agora vivido em O velho homem do mar. Na única versão do LP, Roberto se declarava um Lobo mau, em mais uma irreverente canção sobre um homem que se diz "o tal" com as mulheres. Numa ida a outro estilo musical, RC encontrou uma belíssima canção de safra portuguesa, e trouxe para sua interpretação a homenagem Coimbra, como sempre, adequando a música ao seu estilo.

O acervo de composições feitas em parceria com Erasmo Carlos trazia novos momentos, com a espontaneidade de quem vive com o coração em ritmo de aventura. Roberto rechaçava papos sobre casamento nos versos de Não é papo pra mim, fazia piada com as críticas que sua música e suas roupas sofriam de algumas revistas de fofoca em Mexerico da Candinha. E, em especial... Aquecia o inverno de suas fãs nos versos de Quero que vá tudo pro inferno.

Era o primeiro ano de uma "festa de arromba" - termo muito bem definido por Roberto e Erasmo, na canção gravada por Erasmo Carlos em seu LP A pescaria. Uma comemoração que não iria parar, e que agora é rememorada nesta data dos 50 anos da carreira de Roberto Carlos.

Para encerrar este post, seguem dois momentos característico do ano de 1965 para RC. O primeiro, uma faixa intimista pinçada do LP Roberto Carlos canta para a juventude, na qual a música somente sublinha palavras que o cantor declama aos corações, pedindo o sorriso de quem não quer ver ninguém triste. O outro, da faixa que abre o LP Jovem Guarda, no qual Roberto era porta-voz dos jovens que viviam intensamente seus amores. E o resto que fosse para o inferno.

Segue a letra! Na foto, o Brasa em momento do programa Jovem Guarda. Mora?

Abraços a todos, Vinícius.

NÃO QUERO VER VOCÊ TRISTE - Roberto e Erasmo

O que é que você tem, conta pra mim
Não quero ver você triste assim
Não fique triste o mundo é bom
A felicidade até existe

Enxugue a lágrima, pare de chorar
Você vai ver, tudo vai passar
Você vai sorrir outra vez
Que mal alguém lhe fez, conta pra mim
Não quero ver você triste assim...

Olha, vamos sair
Hum... pra que saber aonde ir
Eu só quero ver você sorrir
Enxugue a lágrima, não chore nunca mais
E olha que céu azul, azul até demais

Esqueça o mal, pense só no bem
Que assim a felicidade um dia vem
Agora uma canção, canta pra mim
Não quero ver você triste assim

*****

QUERO QUE VÁ TUDO PRO INFERNO - Roberto e Erasmo

De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
Se você não vem e eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

De que vale a minha boa vida de playboy
Se entro no meu carro e a solidão me dói
Onde quer que eu ande tudo é tão triste
Não me interessa o que de mais existe
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
Oh, oh,
E que tudo mais vá pro inferno...

E que tudo mais
Vá pro inferno!

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P.S.: por falar em Não quero ver você triste, hoje estreia nos cinemas o documentário Paulo Gracindo - O bem amado, tributo a este grande ator que passou por rádio, teatro, cinema e televisão. Um dos momentos do filme traz o encontro entre Paulo e Roberto Carlos, no Roberto Carlos Especial de 1974. Em seu primeiro programa pela TV Globo, RC teve o privlégio de ver o ator declamando Não quero ver você triste.