sábado, 31 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 9



Olá, amigos.

Prosseguindo a série Casa, esquinas e quintais, mostramos hoje mais uma canção da discografia de Roberto Carlos que fala sobre algumas situações que acontecem dentro de um lar. A música de hoje tem em comum com a do post anterior (Por motivo de força maior, de 1976) o fato de sua letra mostrar um panorama completo da casa.

Para evidenciar a grandiosidade das situações narradas durante a letra, Roberto e Erasmo usaram uma figura de linguagem que é mais apropriada às ruas de uma cidade. As ESQUINAS, que são lugares que ficam nos cantos formados por duas ou mais ruas que se cruzam, aparecem nesse lar cantado por RC.

O título foi o primeiro passo para uma canção que faz associação da intimidade de um casal com situações que costumam acontecer no trânsito da cidade. Em casa, os limites são passados na busca de um abraço, as paradas são para um carinho no corredor e o destino é o local dos amantes - o quarto.

Na música que abre o lado B do LP que lançou em 1985, Roberto Carlos cantou o trajeto de um amor que chega junto ao destino de uma deliciosa vida a dois. Para o homem que outrora parava o carro na contramão, nada melhor do que nas esquinas de casa não precisar ficar atento a leis e nem sinais.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em um registro da segunda metade da década de 1980.

Abraços a todos, Vinícius.

PELAS ESQUINAS DA NOSSA CASA - Roberto e Erasmo

Abro a porta sem cuidado, como todo apaixonado
Vou correndo pra você
E no nosso encontro eu passo dos limites nesse abraço
Deixo tudo acontecer

A aceleração é louca quando beijo a sua boca
Me dispara o coração
Nosso corpo se resvala sem controle pela sala
Que loucura, que paixão

Com você
Nesse trânsito eu vou mais
Nas esquinas dessa casa
Não têm leis e nem sinais

Vamos nós nesse carinho, mas paramos no caminho
Dessa vez no corredor
Mãos e abraços que doçura, mais abaixo ou na cintura
Tudo é sempre sedutor

Tantos beijos e carícias, tantas curvas e delícias
Mais palavras, mais calor
E chegamos ofegantes ao destino dos amantes
Nosso quarto, nosso amor

Com você
Nesse trânsito eu vou mais
Nas esquinas dessa casa
Não têm leis e nem sinais...

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 8



Olá, amigos.

A série Casa, esquinas e quintais continua a apresentar neste blogue canções da discografia de Roberto Carlos que mostram partes de um lar. E a música de hoje é uma das que traz uma visão panorâmica e amargurada sobre os momentos vividos dentro de casa.

Afinal, quando ela deixa de ser o sinônimo do conforto e a garantia de ser um lugar para viver, vêm apenas as lembranças de momentos bons deixados para trás. E, ao aparecerem novamente na memória de uma pessoa, trazem o desenrolar de uma história que chegou ao fim, algumas vezes, de maneira melancólica.

Esta canção que encerra o LP de 1976 é até o momento a mais recente música que RC gravou de autoria de Getúlio Côrtes - compositor muito associado à época da Jovem Guarda na discografia de Roberto, em especial por ter escrito canções em linguagem próxima de narração de histórias em quadrinhos, como Pega ladrão, O sósia e O feio. Getúlio só apareceu de maneira "mais recente" no disco lançado em 1995, quando foi feita uma nova leitura de Quase fui lhe procurar (gravada originalmente em 1968, no LP O inimitável), e também na inclusão da emblemática Negro gato (do LP de 1966) em seus shows, apresentada por RC como um "sinal de que a terapia tá dando certo".

Dez anos depois de dar voz às desventuras do negro gato que tem uma vida de amargar, Roberto cantou um novo enfoque do repertório de Getúlio Côrtes. Uma canção mais madura, falando das nostalgias que se tem quando passa por cômodos que hoje não fazem mais parte do cotidiano de alguém - e que, por motivo de força maior, hoje aparecem apenas na lembrança. E como lembrança musical, hoje este blogue apresenta uma música não muito lembrada na discografia de Roberto Carlos, mas que merece toda nossa consideração com o grande "negro gato" Getúlio Côrtes.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em um número presente no DVD Antologia apresentado no ano em que gravou a música com a qual encerramos o post de hoje.

Abraços a todos, Vinícius.

POR MOTIVO DE FORÇA MAIOR - Getúlio Côrtes

Então cheguei sozinho e quis rever a nossa casa
O desalinho dos cabelos disfarcei
O muro mal pintado, algumas flores escondidas
Degraus empoeirados, a varanda esquecida

No meio de uma sala, o tapete
No fim do corredor, a porta do nosso quarto que guardava
Antigas frases e atitudes inseguras
Todos os erros, os nossos gestos incontidos
Seus apuros e segredos

Depois de tanto tempo
Eu lhe encontro se escondendo
Atrás de frases repetidas pra justificar
A sua decisão de separar as nossas vidas
Por isso acomodei, sem ter razão pra contornar

Você se fez senhora
Somente por respeito e por escrito
Mas fica o dito por não dito
E as suas mágoas eu respeito

Mas não aceito o argumento
De que agora se arrepende
E por motivo de força maior
É melhor partir

Se alguém me acompanha
Deve saber
Que às vezes só ganha
Quem sabe perder

Depois de tanto tempo
Eu lhe encontro se escondendo
Atrás de frases repetidas pra justificar
A sua decisão de separar as nossas vidas
Por isso acomodei, sem ter razão pra contornar

Você se fez senhora
Somente por respeito e por escrito
Mas fica o dito por não dito
E as suas mágoas eu respeito

Mas não aceito o argumento
De que agora se arrepende
E por motivo de força maior
É melhor partir

Se alguém me acompanha deve saber
Que às vezes só ganha quem sabe perder...

terça-feira, 27 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 7



Olá, amigos.

A série Casa, esquinas e quintais prossegue contando em letra e música trechos da discografia de Roberto Carlos que falam sobre partes de um lar. E hoje chegamos a uma parte de casa na qual, através dela, somos espectadores do resto do mundo.

A JANELA, definida no Dicionário Aurélio como a abertura da parede para deixar entrar num edifício a luz e o ar, aparece em situações interessantes no cancioneiro gravado por RC. Trata-se, inclusive, de um objeto mencionado em todas as décadas de sua discografia.

O primeiro momento vem ainda no LP É proibido fumar, de 1964, quando ele recomenda que as janelas estejam fechadas para evitar que o leão à solta não se torne um vizinho indesejável na música Um leão está solto nas ruas, assinada por Rossini Pinto. Quatro anos depois, na canção Madrasta, de Beto Ruschel e Renato Teixeira (do LP O inimitável), ele avisava à "bem vinda" madrasta que o vale verde se dá por trás das janelas de sua casa e de seu pai.

Das janelas cantadas por RC também pode-se ver as muitas flores e sua mãe dizendo num sorriso e na lágrima o aviso de ter cuidado na partida pro futuro, na sincera O divã (do LP lançado em 1972). A menina, botão em flor se abrindo para conhecer o primeiro amor nos versos de A menina e o poeta (surpreendente canção assinada por Wando, do disco de 1976), o "broto" Susie (primeira canção que Roberto assinou e gravou, ainda para o compacto de 1959) ou o rosto da mulher que vira sua cabeça dos versos de Obsessão (presente no LP de 1993).

As janelas se abrem para a chegada de quem estava num exílio voluntário ou não e retorna para seus pés tocarem a areia branca. Elas foram algumas das partes que Roberto e Erasmo usaram para homenagear Caetano Veloso na época de seu exílio em Londres, na letra de Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, lançada no emblemático LP de 1971.

Na janela vêm muitos sentimentos, desde a certeza do cotidiano presente em Rotina (última faixa do LP de 1973), na qual ele imagina a água morna do chuveiro deslizando no corpo da esposa e respingando gotas coloridas no vidro, até ser o lugar por onde uma pessoa religiosa olha o céu e encontra a presença de Jesus (como mostra Jesus Salvador, do LP de 1994). Das frestas da janela podem exalar o amor extremo de Tudo pára (de 1981) e o frio da solidão de Você já me esqueceu (de autoria de Fred Jorge, e gravada por RC em 1972). E é pelas vidraças que um abandonado consegue transmitir o tanto que sofreu pela espera de quem sempre achou que voltava, como dizem os versos de Ivor Lancellotti para a bela música Abandono, gravada por Roberto em 1979.

Mas dentre todas as janelas escritas ou gravadas por Roberto Carlos, certamente a mais emblemática vem do ano de 1972. Nos versos de Roberto e Erasmo que abrem o disco daquele ano, ela é a personagem-título e a metáfora que separa a segurança de casa da liberdade do horizonte de uma estrada.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em show da década de 1970.

Abraços a todos, Vinícius.

À JANELA - Roberto e Erasmo

Da janela o horizonte
A liberdade de uma estrada eu posso ver
O meu pensamento voa livre em sonhos
Pra longe de onde estou

Eu às vezes penso até onde essa estrada
Pode levar alguém
Tanta gente já se arrependeu e eu
Eu vou pensar, eu vou pensar

Quantas vezes eu pensei sair de casa
Mas eu desisti
Pois eu sei lá fora eu não teria
O que eu tenho agora aqui

Meu pai me dá conselhos
Minha mãe vive falando sem saber
Que eu tenho meus problemas
E que às vezes só eu posso resolver

Coisas da vida...
Choque de opiniões...
Coisas da vida...
Coisas da vida...

Novamente eu penso ir embora
Viver a vida que eu quiser
Caminhar no mundo enfrentando
Qualquer coisa que vier

Penso andar sem rumo
Pelas ruas, pela noite sem pensar
No que vou dizer em casa
Nem satisfações a dar

Coisas da vida...
Choque de opiniões...
Coisas da vida...
Coisas da vida...

Penso duas vezes me convenço
Que aqui é o meu lugar
Lá fora às vezes chove
E é quase certo que eu vou querer voltar

A noite é sempre fria
Quando não se tem um teto com amor
E esse amor eu tenho mas me esqueço
Às vezes de lhe dar valor

Coisas da vida...
Choque de opiniões...
Coisas da vida...
Coisas da vida...

Tudo tem seu tempo
E uma vida inteira eu tenho pra viver
E nessa vida é necessário a gente
Procurar compreender

Coisas que aborrecem
Muitas vezes acontecem por amor
E esse amor eu tenho esquecido às vezes
De lhe dar valor

Coisas da vida...
Choque de opiniões...
Coisas da vida...
Coisas da vida...

domingo, 25 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 6




Olá, amigos.

A série Casa, esquinas e quintais continua a procurar na discografia de Roberto Carlos canções que falam sobre partes de um lar. E depois de atravessar a porta no post anterior, hoje começamos a reparar alguns detalhes de dentro de casa.

A começar pelas PAREDES. A parede é uma obra que serve como limitação de um espaço, vedando o ponto de vista do exterior sobre uma casa ou um quarto.

Elas aparecem no repertório de RC como demonstração de intimidade de um casal. Na canção O amor é a moda, que abre o LP de 1983, Roberto e Erasmo revelam a certeza de que os casais fazem com que o amor esteja sempre na moda quando estão "pelos cantos escuros das ruas e entre quatro paredes bem mais".

Mas as paredes se fazem mais presentes em seu repertório com outras conotações: a de abrigar um desiludido amoroso e também transmitir a certeza de que tudo está terminado. No samba Só você não sabe (de 1989), a dor da solidão fica tão forte a ponto de quando está em casa ficar só no quarto e falar com as paredes.

Em Comentários (de Maurício Duboc e Carlos Colla e presente no LP de 1976), o final de um relacionamento vem com o apelo para que o que houve "entre quatro paredes" não seja revelado a outras pessoas, pois, como dizem os primeiros versos da canção: "eu só quero pedir pra você evitar comentários". Já na raivosa Jogo de damas, parceria dos irmãos Isolda e Milton Carlos gravada no LP de 1974, os segredos da dama que hoje "vestem de santa" correm o risco de vir à tona, e ficam mais fortes quando RC canta, de maneira calmamente ameaçadora: "conheço as paredes que guardavam segredos". Enquanto isso, o lamento de Recordações (assinada por Édson Ribeiro e Helena dos Santos para o LP de 1982), a falta que a pessoa faz se torna mais forte quando se vê ao redor "paredes nuas e lembranças que são suas".


A parede também está em uma canção apresentada anteriormente. Nos versos de O portão, de 1974, RC torna a nostalgia ainda mais forte por causa da parede que traz seu retrato "meio amarelado pelo tempo". Seu disco de 1989 trouxe espaço para falar de paredes conhecidas internacionalmente: naquele ano, ele deu sua versão para o clássico português Nem às paredes confesso, de Maximiano de Souza, Francisco Trindade e Artur Ribeiro, nos belos e eternos versos "de quem eu gosto nem às paredes confesso".

Entretanto, nenhuma canção é tão forte quanto a que ele lançou em seu LP de 1975. Nos versos de Beto Ruschel e Cézar das Mercês, Roberto revelou aos seus ouvintes a história de uma moça que se fechava em seu quarto de dormir e sua imaginação apresentava de noite desenhos na parede. Talvez em uma das melhores interpretações de sua discografia, a misteriosa menina que via desenhos na parede do quarto teve seus sonhos desenhados em belíssimas letra e música que merecem ser descobertas.

Segue a letra! Na foto, uma parte da contracapa do disco lançado em 1975.

Abraços a todos, Vinícius.

DESENHOS NA PAREDE - Beto Ruschel e Cézar das Mercês

Ela se fechava
No seu quarto de dormir
Como uma flor
Se guardando para o sol

E dos seus sonhos, acordava no meio da noite
E cada sombra na parede desenhava alguém
Que chegaria com as primeiras luzes da manhã
Sempre a manhã

E cada sombra na parede desenhava alguém
Que chegaria com as primeiras luzes da manhã...

E dos seus sonhos acordava no meio da noite
E cada sombra na parede desenhava alguém
Que chegaria com as primeiras luzes da manhã
Sempre a manhã

E cada sombra na parede desenhava alguém
Que chegaria com as primeiras luzes da manhã...

E cada sombra na parede desenhava alguém
Que chegaria com as primeiras luzes da manhã...

Quando a luz do sol
Lentamente aparecer
Só irá mostrar
Cada coisa em seu lugar...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 5




Olá, amigos.

A série Casa, esquinas e quintais continua a apresentar canções da discografia de Roberto Carlos que falam sobre objetos presentes em uma casa. E no post de hoje, enfim adentramos no lar das canções que RC escreveu (sozinho ou com Erasmo)e/ou somente interpretou.

A PORTA, abertura na parede que fica ao nível do solo ou de um pavimento aparece de maneira extensa na discografia de RC. Na metáfora presente na casa de portas abertas para a amizade de Amigo (de 1977) ou na porta entreaberta de um coração conquistado de forma inocente em Não se afaste de mim (de 1980). Também aparece como o objeto que proporciona a privacidade do casal, que, ao fechar a porta pode se amar como aparece nos versos de Porque a gente se ama (de 1990), Procura-se (esta, de Roberto Carlos e Ronaldo Bôscoli lançada em 1980) ou Quando a gente ama (gravada em 1994), dentre tantas outras canções sensuais.

Mas dentre estes vários sentidos que o olhar de compositor enxerga através da porta, certamente um dos mais comoventes é a espera pelo retorno da pessoa amada depois de um desentendimento amoroso. Seja para o momento de reconciliação sugerido em Perdoa (gravada em 1983) ou a ansiedade de ver o amor voltando para casa através da porta em Silêncio (música de Beto Surian lançada em 1994) e Pra ficar com você (canção de Mauro Motta e Carlos Colla para o disco de 1995).

A porta pode às vezes ser usada como a certeza de que o relacionamento chegou ao fim. E em uma briga é capaz dela surgir como argumento para uma pessoa se sobressair, mostrando que apesar da dissidência do momento, seu companheiro (ou sua companheira) ainda tem um sentimento muito grande.

Como mostra a terceira faixa do LP lançado por Roberto Carlos em 1988. Nos versos de Roberto e Erasmo, RC faz o desafio de que se ela disser que não o ama, vai ter de dizer isto mais de uma vez.


Segue a letra! Na foto, a parte interna da capa do LP de RC daquele ano. Um dado curioso: este registro foi usado como capa do disco Sonrie, que Roberto lançou para o mercado latino no início do ano seguinte.

Abraços a todos, Vinícius.

SE VOCÊ DISSER QUE NÃO ME AMA - Roberto e Erasmo

Se você disser que não me ama
Tem que me dizer mais de uma vez
Tem que me fazer acreditar
Em coisas que eu não quero ouvir

Tem que dizer tudo que eu detesto
Que não me suporta, que eu não presto
Tem que repetir por muitas vezes
Que não quer saber de mim

Tem que me dizer coisas horríveis
Inacreditáveis, impossíveis
Coisas que um homem não suporta
Ter que ouvir de uma mulher

Tem que me dizer que eu vá embora
Me botar daquela porta afora
E mesmo assim não sei se desse jeito
Em tudo isso vou acreditar

Tem que disfarçar o seu desejo
E não se excitar quando eu te beijo
Porque qualquer pequeno gesto seu
É um bom motivo pra eu ficar

Se você disser que não me ama
Tem que me dizer mais de uma vez...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Post especial - FALSA LOURA



Olá, amigos.

Este blogue hoje abre espaço para um post especial que apresenta a vocês mais um encontro de Roberto Carlos com o cinema. Após estrelar três produções cinematográficas (Roberto Carlos em ritmo de aventura, Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa e Roberto Carlos a 300 km por hora) e de o cinema ter proporcionado encontros com Nelson Rodrigues (Roberto e Erasmo fizeram não só a música-tema gravada por Erasmo para Os 7 gatinhos, filme de Neville D'Almeida baseado na peça homônima do dramaturgo, como outras duas canções aparecem na trilha: Cavalgada e A primeira vez, ambas da dupla, nas gravações de RC), Dias Gomes e Lauro César Muniz (que escreveram o roteiro do filme O marginal, de Carlos Manga, com música-tema assinada por Roberto e Erasmo interpretada por Wilson Miranda) e até com o cinema americano (no filme Doze homens e outro segredo, a canção L'appuntamento, versão em italiano de Sentado à beira do caminho, apareceu na trilha, na voz de Ornella Vanoni) a discografia de RC agora se encontra com um dos grandes cineastas do Brasil.

Gaúcho radicado em São Paulo, CARLOS REICHENBACH tem 40 anos de carreira dedicada ao cinema nacional (como diretor e como fotógrafo), e mostra em sua filmografia a peculiaridade de mostrar o cotidiano em sua "verdade nua e crua" mas deixando sempre em evidência as questões psicológicas de seus personagens. Seus primeiros filmes aconteceram na época do surgimento da Boca do Lixo, quarteirão do bairro da Luz, em São Paulo, que reunia um grupo de pessoas interessadas em fazer cinema - e, anos depois desta reunião, as produções da região ficaram marcadas por trazerem forte apelo sexual. Nesta fase se destacam as suas pornochanchadas A ilha dos prazeres proibidos (de 1977), O império do desejo (de 1978)e Amor, palavra prostituta (de 1980), mas que se diferenciam das comédias eróticas da época por trazerem sempre reflexões em seus diálogos e por não apresentarem cenas de sexo gratuitas.

A densidade dos filmes que escreve e dirige continuou em destaque em algumas de produções seguintes, caso de Filme demência (de 1985), que, segundo o cineasta é "um Fausto paulistano", referência ao personagem escrito por Goëthe. Em 1986, com Anjos do arrabalde, ele voltaria sua câmera para questões sociais - no caso deste filme estrelado por Betty Faria, o cotidiano de professoras.

Com o "apagão cinematográfico" ocorrido no Brasil durante a gestão de Fernando Collor de Mello, Reichenbach só voltaria a estrear uma produção cinematográfica em 1993 - o poético Alma corsária. Seis anos depois, a nostalgia interiorana tomou as telas com o filme Dois córregos.

Aos 62 anos, Carlos Reichenbach é um dos poucos cineastas de muita estrada cinematográfica nacional que continua a lançar e a escrever seus filmes mesmo sem o apoio majoritário da Globo Filmes. E neste ano de 2008 novamente apresentou uma abordagem de seu olhar de "cinema feminino".

Falsa loura levou para as telas de cinema a história de Silmara (ótima atuação de Rosanne Mulholland), uma operária de uma grande indústria de São Paulo que mora com o pai Antero (vivido por João Bourbonnais), um ex-presidiário que sentiu na pele o crime que cometeu - o incendiário traz no rosto cicatrizes causadas pelo fogo. O filme mostra o cotidiano dela, as relações com o pai e o irmão (o homossexual Tê, interpretado por Léo Áquilla) e com suas colegas de trabalho, e seu envolvimento com dois cantores - o vocalista Bruno (papel de Cauã Reymond) do grupo Bruno e os seus Andrés e o cantor romântico Luiz Ronaldo (participação especial de Maurício Mattar).

O universo das mulheres operárias já havia rendido filmes como Lilian M., relatório confidencial (de 1974) e Garotas do ABC (de 2004) na filmografia de Carlos Reichenbach. Mas, com Falsa loura, a história da proletária que quer tornar seu cotidiano mais atraente e acaba adentrando pelo deslumbre do meio artístico é mais ácido ao revelar como algumas pessoas não têm o pudor de tratar as outras como coisas descartáveis. Um filme tão contundente quanto suas 17 produções anteriores - da qual se destaca também o recente Bens confiscados, de 2005.

A escalação do elenco tem algumas curiosidades: a personagem Briducha é vivida por Djin Sganzerla, filha do cineasta Rogério Sganzerla (diretor de destaque do Cinema Marginal, dentre eles O bandido da luz vermelha). Léo Áquilla, que faz o personagem Tê, foi durante anos repórter do Noite afora, programa erótico apresentado por Monique Evans na madrugada da Rede TV!. No papel de Milena, aparece Susana Alves, que ficou conhecida do grande público quando fazia a personagem Tiazinha no programa H, apresentado por Luciano Huck na TV Bandeirantes.

O lado intérprete de Roberto Carlos é evidenciado em Falsa loura. O cantor Luiz Ronaldo proporcionou que Maurício Mattar gravasse uma canção do repertório de RC para fazer parte da trilha da "falsa loura" Silmara. Lançada originalmente em seu LP de 1975, a música dos irmãos Isolda e Milton Carlos é revivida na voz de Maurício Mattar para mais uma ótima produção de Carlos Reichenbach.

Segue a letra! Na foto, o cartaz de Falsa loura, que este blogue recomenda - e diz que vale a pena esperar que seja lançado em DVD, caso já esteja fora do circuito de cinema.

Abraços a todos, Vinícius.

ELAS POR ELAS - Isolda e Milton Carlos

Hoje senti que é bem melhor
Não haver nada entre nós
Daqui pra frente

Pois você nunca percebeu
Tudo o que eu quis lhe dar de meu
Sinceramente

Você tentou dizer da paz
Com tantas frases tão banais
Que eu te faria feliz

Enquanto eu me enganei
Dizendo ao mundo que te amei
Você nem quis ouvir

Hoje senti que é bem melhor
Darmos as costas pro pior
Que está bem perto

Você vai ter que compreender
É assim mesmo que vai ser
Errado ou certo

Assim como você
Vai abrir mão do que passou
Tudo o que houve vai esquecer
Nem vai lembrar sequer quem sou

Elas por elas, decidi
Vai ser preciso te esquecer
Para viver em paz...

P.S.: no post de amanhã, este blogue retoma a série Casa, esquinas e quintais.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Casa, esquinas e quintais - 4



Olá, amigos.

A série Casa, esquinas e quintais continua a enumerar as canções da discografia de Roberto Carlos que falam sobre lugares que fazem parte de uma casa. São recortes musicais que RC fez sobre o lar.

No post de hoje, este blogue apresenta um olhar diferenciado sobre um dito popular muito comum em nosso cotidiano. A frase "a grama do vizinho é mais verde do que a minha" costuma ser usada para mostrar que, muitas vezes, as pessoas preferem olhar as coisas que os vizinhos possuem a valorizar seus próprios pertences. Algum tempo depois, este ditado foi completado de maneira satírica com as palavras "até se descobrir que a grama dele é sintética".

Roberto e Erasmo também assinaram uma canção sobre uma parte da casa vizinha, mostrando que a observam não só com o olho de vizinhança mas também com o olhar de compositores. Dentre os vários cômodos da casa do vizinho, eles escolheram o QUINTAL - palavra usada para definir um terreno que fica nos fundos de uma casa, e geralmente tem uma horta ou um jardim.

E na segunda faixa do lado A do LP lançado por Roberto Carlos em 1975, ele relata uma "travessura" que uma pessoa fez no quintal do vizinho. No sonho de primavera cantado por RC, encerramos o quarto post da série Casa, esquinas e quintais.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos numa foto parecida com a capa de seu disco do ano de 1975.

Abraços a todos, Vinícius.

O QUINTAL DO VIZINHO - Roberto e Erasmo

Eu hoje acordei pensando
Num sonho que eu tive à noite
Sentei-me na cama para pensar
No sonho que eu tive

No sonho que eu tive...
No sonho que eu tive...

Fiquei tanto tempo pensando
Em tudo que estive sonhando
Que por um momento pensei ser verdade
O sonho que eu tive

O sonho que eu tive...

Sonhei que entrei no quintal do vizinho
E plantei uma flor
No dia seguinte ele estava sorrindo
Dizendo que a primavera chegou

E quando eu abri a janela
Estava um dia tão lindo
No outro quintal o vizinho sorrindo
Lembrei do meu sonho
O sonho que eu tive

O sonho que tive...

E quando eu abri a janela
O dia estava tão lindo
No outro quintal meu vizinho sorrindo
Lembrei do meu sonho, do sonho que eu tive

O sonho que eu tive...
O sonho que eu tive...
O sonho que eu tive...