Este espaço é para falar sobre a obra de Roberto Carlos. São detalhes que mostram pluralidade e a riqueza do Roberto cantor e compositor que há meio século assina belas páginas para a Música Popular Brasileira. Bem vindos, ainda temos muita história pra contar nesse mundo de letra e música.
Com o post de hoje, a série de canções da novela O bofe chega mais perto do final do lado A do LP da novela. Esta trilha foi escrita completamente por Roberto Carlos e Erasmo Carlos no ano de 1972.
A quinta faixa traz um registro curiosíssimo. O produtor musical, compositor, jornalista e escritor Nelson Motta aparece como cantor. E esta é somente uma das muitas colaborações dele com a teledramaturgia brasileira. A primeira delas foi a trilha musical da novela Véu de noiva (de Janete Clair), considerada a primeira novela "moderna" da TV Globo.
Além de ser o diretor musical das trilhas da TV Globo, ele assinou músicas para embalar os folhetins globais. Sua mais famosa é Dancin' Days, parceria com Ruban que foi tema de abertura da novela de mesmo nome, escrita por Gilberto Braga e no ar em 1978. Também é dele autoria, ao lado dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle a música Um novo tempo, tema utilizado nas chamadas de fim de ano da TV Globo.
Em 1972, Nelson interpretou o tema de Suzana Leopoldina (na foto, a atriz Ilka Soares como a personagem). Suzana era uma dama da sociedade que fazia parte do júri da Buzina do Chacrinha . Mais uma prova de como Bráulio Pedroso surpreendeu ao fugir das piadas convencionais e dos estereótipos cômicos das telenovelas em O bofe.
Segue a letra! Na foto, Ilka Soares, que vivia Suzana Leopoldina.
Abraços a todos, Vinícius.
MADAME SABE TUDO - Roberto e Erasmo
Vai, madame sabe tudo Vai, madame sabe tudo Quem não vai sou eu
Vai, madame sabe tudo Vai, madame sabe tudo Que esse mundo é seu
Vai, madame sabe tudo Vai, madame sabe tudo Quem não vai sou eu
Vai, madame sabe tudo Vai, madame sabe tudo Que esse mundo é seu
Nos subúrbios e bastidores Destilava seus amores E madame em mais de cem Sempre desfilava bem
Seu conselho interessa Pra quem quer subir de pressa Só precisa algum estudo Tá com ela, tá com tudo
Hoje, o Emoções de Roberto Carlos continua a fazer o resgate da trilha da novela O bofe, trilha totalmente escrita por Roberto e Erasmo Carlos para a novela de Bráulio pedroso. Assim como no post anterior, hoje falamos também um pouco do intérprete da canção.
Nascido em São Paulo no ano de 1941, OSMAR MILITO iniciou sua carreira em 1964. Passou a acompanhar artistas como Leny Andrade, Sylvia Telles, Nara Leão e Elis Regina.
Se apresentou no México e nos Estados Unidos, onde viveu por dois anos e se apresentou com o músico Sérgio Mendes. Retornaria ao Brasil no início da década de 1970, participando em shows de nomes como Chico Buarque e Nana Caymmi.
Entretanto, seu trabalho é mais associado à teledramaturgia da década de 1970. No período (que engloba também a novela O bofe) ele era presença constante em faixas de trilhas de novelas, como as célebres Selva de pedra e Carinhoso.
Na trilha de novela assinada por Roberto Carlos e Erasmo Carlos ele tem o privilégio de participar duas vezes. Milito participa da música de abertura da novela. Mas este é um assunto para um dos próximos posts.
Osmar Milito acompanha Luna e Suza num tipo de canção muito marcante das trilhas de novelas da época. Em letra e música, se definia explicitamente como era o personagem. Um recurso hoje utilizado esporadicamente em trilhas - afinal, elas agora são mero espaço para alavancar vendas de discos de artistas, e os artistas viraram uma forma de alavancar as vendas dos discos de novelas.
Segue a letra! Na foto, Osmar Milito.
Abraços a todos, Vinícius.
PORCELANA, VIDRO E LOUÇA - Roberto e Erasmo
Com a imagem da TV sem som Com os olhos no sono e cai na bolsa Porcelana, vidro e louça Eu lhe quero ainda mais
Segue a crença tradicional E o palpite dos santos protetores Divisão dos seus amores Primavera rende mais
E não tem culpa Se da reza ela se esquece E o céu acha que ela merece Lhe dando sua proteção
Família antiga E paixão equilibrada Mas não se precisa de nada Pra ganhar seu coração...
Na série de canções da novela O bofe, a postagem de hoje fala também de uma das intérpretes do LP. Este disco traz 12 músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos feita para a novela de Bráulio Pedroso.
Trata-se de ELZA SOARES. Depois de uma infância difícil, na qual foi obrigada a casar com 12 anos, Elza começou sua carreira artística no programa de calouros de Ary Barroso. Na ocasião, Ary ficou espantado com a aparência dela e perguntou "minha filha, de que planeta você veio?". Ela respondeu "do planeta fome".
Seu primeiro LP foi Se acaso você chegasse, pela Odeon. Viúva desde os 21 anos, conheceu em 1963 o jogador Garrincha, com quem teve um relacionamento conturbado durante anos.
Durante a década de 1970 se apresentou em vários shows e gravou LPs de sucesso, um deles em companhia do cantor Miltinho (Elza, Miltinho & Cia.). No início da década de 1980, participou do show do grupo Titãs e dos discos de Caetano Veloso e de Lobão.
Em 1986, Elza teria uma grande tragédia pessoal. Seu filho Garrinchinha faleceu, aos oito anos, de um acidente de carro. Com isso, passou alguns anos entre Europa e Estados Unidos.
Retornaria em definitivo ao Brasil no ano de 1994, e cinco anos depois lançou o disco Carioca da gema. Em 2000, estreou Crioula, um musical sobre sua vida escrito por Stella Miranda, onde esteve a música Dura na queda - gravada por Chico Buarque em seu mais recente disco, Carioca.
A música de Roberto e Erasmo que ela interpreta na trilha de O bofe parece feita sob medida para a cantora. Não só por ser um samba irresistível, mas por falar sobre o desejo de uma mulher em ser "rainha da roda"
Segue a letra! Na foto, Elza Soares.
Abraços a todos, Vinícius.
RAINHA DA RODA - Roberto e Erasmo
Quero ser mulher dentro de mim Quero a vida sorrindo sempre assim Quero ver você na madrugada E tomar meu sorvete na calçada
Quero ser a última que morre A esperança do sangue me corre Quero ser amante e companheira E rainha de roda a vida inteira
Vou sabendo que a sabida É sempre a mesma Até a gente morrer
Eu vou ficando Nessa mesma linha Pois quero paz Quero viver
Pois quero paz Quero viver
Um dia eu chego lá Esperando do lado de lá Um dia eu chego lá Esperando do lado de cá
Um dia eu chego lá Esperando do lado de lá Um dia eu chego lá Esperando do lado de cá...
A série de canções da novela O bofe chega ao seu segundo post, trazendo as 12 faixas do momento em que Roberto Carlos e Erasmo Carlos escreveram uma trilha de novela. Hoje, é a vez de falarmos um pouco do autor da novela.
BRÁULIO PEDROSO nasceu em 1931, na cidade de São Paulo. Sua vida foi muito ligada ao cinema, onde, dentre outros trabalhos, tem o roteiro do filme Roberto Carlos a 300 km por hora. Mas sua obra passou a ter destaque a partir de um texto para teatro - O fardão - vencedor do Prêmio Molière.
Ao chegar à teledramaturgia, revelou uma tentativa de inovação em suas novelas. É dele a novela Beto Rockefeller (no ar entre 1968 e 1969), a primeira novela a ter linguagem coloquial e a falar sobre o cotidiano brasileiro. Na TV Tupi escreveu ainda Super plá e A volta de Beto Rockefeller (apesar do grande sucesso da primeira edição, esta, de 1973, não teve tão boa repercussão).
Em sua estreia na TV Globo, o autor escreveu O cafona, em 1971, na qual mostrava a ascensão de um suburbano camelô e seu desconforto com a alta sociedade. Uma temática parecida com o da novela O bofe . A expressão na época significava pessoa desengonçada, mal arrumada, feia, uma conotação muito diferente dos dias de hoje.
Sua novela seguinte é considerada a melhor que já escreveu. O rebu (no ar entre 1974 e 1975), uma trama policial em que, além da habitual pergunta "quem matou?", se perguntava "quem morreu?". O tempo em que a novela passava era exatamente dois dias: a noite da festa e o dia seguinte a ela, com as investigações da polícia.
Na TV Globo, Bráulio ainda escreveu as novelas O pulo do gato e Feijão maravilha (nesta, homenageou as chanchadas da década de 1950) e a minissérie Parabéns pra você. Sua participação como escritor também aconteceu nos seriados globais Plantão de polícia e Amizade colorida.
A partir de 1985, começou a fazer parte da equipe de criação do núcleo de teledramaturgia da TV Manchete. Lá, escreveu em 1985 a minissérie policial Tudo em cima (em parceria com Geraldo Carneiro) e foi um dos autores do humorístico Tamanho família. Trabalhou na emissora dos Bloch até seu falecimento, em 1990.
Hoje, vem a segunda canção da trilha da novela. Uma música com toques de sensualidade, praticamente uma precursora de Proposta e das outras músicas eróticas assinadas por Roberto e Erasmo.
Segue a letra! Na foto, Bráulio Pedroso.
Abraços a todos, Vinícius.
INSTANTES - Roberto e Erasmo
Quanta coisa vai levar você Quanta coisa vai trazer você Quanta coisa faz lembrar Instantes
No mormaço quando nos tocamos No cansaço quando nos amamos Tudo isso faz lembrar Instantes
Meus conflitos Olhos grandes Tão bonitos Que não se cansam De me ver
E eu não me canso De dizer Só tenho fé em minha vida Nos meus instantes com você
Quanta coisa vai levar você Quanta coisa vai trazer você...
A série com as músicas que Roberto Carlos e Erasmo Carlos fizeram para a trilha da novela O bofe começa hoje. A cada postagem, falaremos um pouco dos personagens, das canções e das curiosidades presentes aqui.
Na faixa de abertura, há alguns detalhes de como eram as primeiras trilhas da TV Globo. Os intérpretes são a dupla Renata e Flávio, cantores não muito conhecidos nos dias de hoje porque eles eram exclusivamente contratados da Som Livre para cantar músicas das novelas.
Além disto, a música tem o nome de um personagem, não havia tentativa de fazer canções menos referenciais. Era o tema do personagem e pronto.
O tema de hoje é feito para Dorival. Vivido por Jardel Filho, Dorival era um viúvo que trabalhava numa oficina mecânica em Copacabana.
Segue a letra! Na foto, Jardel Filho e Betty Faria (a personagem da atriz era o par romântico de Dorival).
Abraços a todos, Vinícius.
FALA, DORIVAL - Roberto e Erasmo
Fala, Dorival, ê ê Fala, Dorival, ê ê Fala, Dorival...
Com sorriso na mão Pouca grana no pão Mil cuidados com a moça Senão ela cansa e cai Cansa e cai
Timidez na cabeça Não há quem esqueça Esperando que cresça A banca que chega e sai Chega e sai
Fala, Dorival Pobre companheiro Fala, Dorival Playboy brasileiro
Fala, Dorival Pobre companheiro Fala, Dorival...
Mergulhado no tempo Do espaço perdido Machão escondido Que nem se lembrava mais Nada mais
Vendo televisão Ele esqueça a bandeira Da mulher baladeira Que hoje descansa em paz Dorme em paz
Fala, Dorival Pobre companheiro Fala, Dorival Playboy brasileiro
Fala, Dorival Pobre companheiro Fala, Dorival...
Fala, Dorival, ê ê Fala, Dorival, ê ê Fala, Dorival, ê ê...
Com este post, damos início a uma série em 12 postagens sobre uma raridade na obra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Poucos sabem, mas a dupla foi responsável por uma trilha de novela completa, feita especialmente para o universo da teledramaturgia.
"Uma sátira de Bráulio Pedroso ao nosso meio ambiente. Contra a poluição visual".
Assim falava a chamada da novela O bofe, exibida entre julho de 1972 e janeiro de 1973 no horário das 22 da TV Globo (a partir da década de 1980, este horário passou a ser dedicado a seriados, programas de humor e transmissão de futebol. Na tentativa de fazer uma nova revolução na teledramaturgia, a TV Globo contratou o autor Bráulio Pedroso (responsável pelo sucesso Beto Rockefeller, que deixou de lado as tramas rebuscadas, com diálogos mexicanizados e ambientadas no exterior) com o objetivo de fazer uma novela revolucionária.
Ele escreveu a controversa O bofe, caracterizada por sua falta de sensatez, todos os personagens agiam e se comportavam ao sabor da piada. E causou inovações até nos tipos de personagens dos atores escalados.
O então galã Cláudio Marzo fazia o caótico artista plástico Demétrius, o Grego. Ziembinski fazia o papel da velha Stanislava (o primeiro personagem travestido na história de telenovela brasileira), que se embebedava de xarope e sonhava com um príncipe trapezista. Um dos capítulos da novela foi todo com os diálogos cantados em ópera. No elenco, ainda estavam nomes como Betty Faria, José Wilker, Antônio Pedro e Ilka Soares.
A audiência despencou, e a saída da TV Globo foi a demissão de Bráulio Pedroso. Em seu lugar, entrou Lauro César Muniz. Anos mais tarde, o diretor da novela, Lima Duarte, falou uma frase definitiva sobre o insucesso de O bofe: Revolução não se encomenda. Acontece."
Nos próximos posts, o Emoções de Roberto Carlos recordará a trama, contará um pouco da história dela, e deixa a todos os leitores a pergunta de se foi ou não um fracasso injusto.
Por hoje, deixamos vocês com o vídeo encontrado em You Tube da chamada da novela O bofe. Reparem que, ao final, o locutor diz "12 músicas inéditas de Roberto Carlos e Erasmo".
O festival É tudo verdade, que todos os anos apresenta no Rio de Janeiro e em São Paulo documentários nacionais, passou na edição deste ano um filme imperdível para todos os estudiosos da Música Popular Brasileira. Trata-se de Uma noite em 67, que fala sobre o III Festival da Record.
Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o documentário alterna imagens históricas da emissora paulista com depoimentos atuais de personagens envolvidos na realização do festival, como o organizador Paulo Machado de Carvalho e o jurado Sérgio Cabral. Pena é que, por falta de tempo, a abordagem de Uma noite em 67 fica restrita aos cinco primeiros colocados do festival e ao artista que ficou marcado por um incidente durante a noite.
Naquela noite de 1967, Edu Lobo foi o grande vencedor. Sua música Ponteio (em parceria com Capinam), ficou em primeiro lugar, da interpretação de Edu com Marília Medalha.
Em segundo lugar, ficou Domingo no parque, de Gilberto Gil, cantada pelo autor com acompanhamento do grupo Mutantes, formado por Rita Lee e os irmãos Dias. Num festival em que muitos se apresentavam de terno, o universo tropicalista começava a mostrar seu espaço e ser reconhecido pelas belas contribuições musicais.
Em terceiro lugar, veio a riqueza em letra e música da obra de Chico Buarque, na bela Roda viva, que o autor apresentou acompanhado do grupo MPB-4. Em plena época de regime militar, muitos sabiam o que era a roda viva que carregava saudade, viola e destino.
No quarto lugar, mais um artista jovem ligado ao Tropicalismo. E Caetano Veloso fez sua geleia geral entre fotos, nomes, Cardinales, caras de presidentes e beijos de amor. Era Alegria, alegria.
Em quinto lugar, ficou Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná, apresentada por Roberto Carlos. Em Uma noite em 67, RC soube que um grupo de pessoas tinha ido ao Teatro Record para vaiá-lo. Bem-humorado, ele disse que se soubesse disto, não tinha comparecido à noite de 67.
Mas, nem só os vencedores passeiam pelo documentário de Renato Terra e Ricardo Calil. O cantor Sérgio Ricardo fala sobre sua reação intempestiva no palco do Teatro Record. Ao ser vaiado durante a apresentação de sua música Beto bom de bola, Sérgio interrompeu sua apresentação, quebrou o violão numa mesa e atirou em direção à plateia.
Há também imagens dos bastidores, cantores sendo entrevistados e falando da noite de apresentação. E também há Roberto Carlos, em 1967, contando uma piada interna. Quer saber qual? Assista ao documentário Uma noite em 67! E também veja Roberto Carlos, então rei da Jovem Guarda, cantando um belo samba de Luiz Carlos Paraná. A canção foi gravada em compacto e, mais tarde, fez parte do LP San Remo 68.
Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos e o conjunto O Grupo.
Abraços a todos, Vinícius.
MARIA, CARNAVAL E CINZAS - Luiz Carlos Paraná
Nasceu Maria quando a folia Perdia a noite ganhava o dia Foi fantasia seu enxoval Nasceu Maria no carnaval
E não lhe chamaram assim como tantas Marias de santas, Marias de flor Seria Maria, Maria somente Maria semente de samba e de amor
Não era noite, não era dia Só madrugada, só fantasia Só morro e samba, viva Maria Quem sabe a sorte lhe sorriria
E um dia viria de porta-estandarte Sambando com arte, puxando cordões E em plena folia de certo estaria Nos olhos e sonhos de mil foliões
Morreu Maria quando a folia Na quarta-feira também morria E foi de cinzas seu enxoval Viveu apenas um carnaval
Que fosse chamada então como tantas Marias de santas, Marias de flor Em vez de Maria, Maria somente Maria semente de samba e de dor
Não era noite, não era dia Somente restos de fantasia Somente cinzas, pobre Maria Jamais a vida lhe sorriria
E nunca viria de porta-estandarte Sambando com arte puxando cordões E não estaria em plena folia Nos olhos e sonhos de seus foliões
E não estaria em plena folia Nos olhos e sonhos de seus foliões
Maria, Maria, Maria...
P.S.: abaixo, o trailer do documentário Uma noite em 67: