quarta-feira, 24 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1992



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções apresenta mais um ano da estrada de Roberto Carlos na Música Popular Brasileira. Desta forma, o Emoções de Roberto Carlos faz homenagem pelos 50 anos de carreira do cantor.

O ano de 1992 trouxe um grande passo para encerrar preconceitos. A Organização Mundial de Saúde parou de considerar a homossexualidade uma doença. A partir de agora, o homossexualismo passou a ser uma opção sexual.

Depois de um longo período de batalhas, a Bósnia e Herzegovina conseguiu, finalmente, sua separação da Iugoslávia. E representações de todo o mundo voltaram suas atenções para o Rio de Janeiro. Entre 3 e 14 de junho deste ano, a cidade sediou a Rio-92, conferência de meio ambiente que buscava saídas para o mundo conseguir seu desenvolvimento sem danificar os ecossistemas.

As resoluções da ECO-92 acabaram ofuscadas pela turbulência política na qual vivia o Brasil. As denúncias de corrupção envolvendo o presidente Fernando Collor de Mello ficaram concretas depois da entrevista que irmão dele, Pedro, concedeu à revista Veja. Pedro Collor entregou à revista vários documentos que apontavam o ex-tesoureiro do irmão, Paulo César Farias, como o proprietário de empresas no exterior. A mãe dos dois, Leda Collor, chegou a alegar insanidade do filho.

Pedro conseguiu mostrar que estava com saúde mental perfeita e aceitou conceder uma entrevista para a Veja. No dia 23 de maio de 1992, Pedro Collor detalhou o "esquema PC" e denunciou uma rede de corrupção envolvendo o irmão. Foi realizada uma Comissão Parlamentar de Inquérito e, a 26 de agosto, a "CPI de PC" achou gastos do dinheiro ilegal do esquema - a reforma da "Casa da Dinda" e a compra de um Fiat Elba.

Em primeiro de setembro, Barbosa Lima Sobrinho entregou à Câmara dos Deputados o pedido de impeachment de Fernando Collor. 28 dias depois, o pedido de abertura do processo foi aprovado, com 441 votos a favor e 38 contra. Houve uma abstenção e 23 ausências. Em 2 de outubro, o presidente se afastou do cargo. Para evitar o risco de ter seus direitos políticos cassados, Collor renunciou ao mandato de presidente antes que o processo de seu impeachment fosse julgado. Mesmo assim, o julgamento aconteceu em 29 de dezembro, e Fernando Collor de Mello ficou proibido de ter mandatos políticos durante oito anos. O vice-presidente Itamar Franco assumiu em definitivo a cadeira presidencial do país para o restante do governo.

No futebol, o Brasil voltou a ter destaque no cenário mundial, e iniciou a valorização do esporte como negócio. O São Paulo sagrou-se campeão numa final emocionante contra o Newell's Old Boys. Após derrota em Buenos Aires e vitória no Morumbi pelo mesmo placar de 1 a 0, a decisão de quem seria o melhor da América em 1992 foi para os pênaltis. Nas cobranças, o tricolor paulista saiu vencedor, pelo placar de 3 a 2. Em dezembro, a equipe foi a Tóquio disputar a final do Mundial Interclubes contra o Barcelona, da Espanha. O búlgaro Stoichkov abriu o placar para o time espanhol, mas dois gols de Raí deram a vitória por 2 a 1 e o primeiro título de "melhor do mundo" para o São Paulo. A conquista são-paulina deu ao futebol brasileiro a noção de que dá para vencer violência, catimba e a pressão da arbitragem com bom futebol.

A Copa do Brasil teve sua final disputada por Internacional e Fluminense. Na primeira partida, realizada no Estádio das Laranjeiras, o tricolor venceu por 2 a 1, com gols de Vágner e Ézio para o Fluminense e Caíco marcando para o colorado. No segundo jogo, realizado no Beira-Rio, um pênalti discutível marcado aos 43 minutos do segundo tempo deu a vitória ao Internacional. Com a cobrança de Célio Silva, o colorado venceu por 1 a 0 e, beneficiado pelo critério de "gol fora de casa", sagrou-se campeão do torneio.

O Campeonato Brasileiro de 1992 teve uma mudança em sua reta decisiva. Dentre 20 participantes, os oito melhores se classificavam para a segunda fase. Eles eram divididos em dois grupos de quatro e o campeão de cada chave ganhava o direito de ir para a final. No Grupo 1, classificaram-se Vasco (primeiro), Flamengo (quarto), São Paulo (sexto) e Santos (oitavo). No Grupo 2, os classificados foram Botafogo (segundo), Bragantino (terceiro), Corínthians (quinto) e Cruzeiro (sétimo).

Flamengo e Botafogo fizeram a segunda final entre cariocas num Campeonato Brasileiro. A vantagem botafoguense de dois empates ou de um empate na soma dos resultados ficou mais difícil após a primeira partida. Logo no primeiro tempo, o Flamengo vencia por 3 a 0, com gols de Júnior, Nélio e Gaúcho. No dia seguinte, o atacante Renato Gaúcho (na época jogando pelo Botafogo) foi visto no churrasco da vitória flamenguista, que aconteceu na casa de Gaúcho e, por isto, foi afastado do clube.

Na segunda partida, uma grade da arquibancada cedeu antes do jogo começar, e centenas de pessoas caíram no anel inferior. Três torcedores morreram. Mesmo assim, o jogo aconteceu. O empate em 2 a 2 (gols de Júnior e Júlio César para o Flamengo e Pichetti e Valdeir para o Botafogo) confirmou o título flamenguista. O Maracanã foi fechado para obras (no Campeonato Estadual, realizado no semestre seguinte) não foi utilizado e não voltaria mais a ter um público tão grande quanto o daquela final de 1992 - mais de 122 mil pessoas.

Roberto Carlos teve uma perda inestimável para sua carreira. Diretor de vários de seus especiais, Augusto César Vanucci faleceu em 30 novembro de 1992. O Roberto Carlos Especial daquele ano foi batizado de Amigo em homenagem a ele.

No programa, RC recebeu a dupla Chitãozinho & Xororó, que apresentaram a música Minha vida (versão de My way) e cantaram com ele a música Todas as manhãs. Erasmo Carlos interpretou a música Homem de rua, sucesso dele que estava tocando na novela das 20h30, De corpo e alma, e, com Roberto, cantou Se você pensa. Kátia se apresentou com sua suave interpretação para Quando o amor acaba. Mas o número mais emocionante veio com a participação de Caetano Veloso. RC apresentou o amigo logo depois de interpretar Força estranha. Caetano chegou, cantou Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (e RC ainda deu uma canja cantando uns trechos no final). No número final, os dois cantaram a música Alegria, alegria - sucesso de Caetano Veloso em 1967 que voltara a ficar em evidência em 1992, por ela ser a música de abertura da minissérie Anos rebeldes. Passada durante a Ditadura Militar, a minissérie inspirou os manifestantes contra Fernando Collor a fazerem "a manifestação dos caras-pintadas".

Roberto narrou a história da Virgem Maria e suas falas eram entrecortadas com dramatizações. Maria foi vivida pela atriz Daniella Perez que, quatro dias depois do Roberto Carlos Especial ir ao ar, foi vítima de um crime bárbaro. Ela foi morta com 18 tesouradas pelo colega de novela Guilherme de Pádua (que teve como cúmplice a esposa Paula Thomaz). Os dois faziam o par romântico Yasmin e Bira na novela De corpo e alma. Curiosamente, a canção Homem de rua, gravada por Erasmo Carlos, era justamente o tema do casal. Mesmo com a morte da filha, a autora Glória Perez prosseguiu a novela até o final.

O tema "amigo" deu margem a um coro de atores da TV Globo cantando Eu quero apenas na companhia de RC. Numa colagem musical, os atores Edson Celulari, Cristiana Oliveira, Cristina Mullins, José Mayer, Eva Wilma, Jayme Periard, Maria Zilda, Vera Holtz, Ewerton de Castro, Fábio Assunção, Marisa Orth, Lolita Rodrigues, Lucinha Lins dentre outros seguiram a vontade de ter um milhão de amigos.

Na reta final do programa, apareceu uma interessantíssima forma de homenagear Augusto César Vanucci: através da apresentação de Emoções, aparecia RC em vários momentos de seus especiais de fim de ano pela TV Globo. Um texto emocionante para o amigo e a certeza de que ele "estreia agora em um palco muito mais iluminado" encerrou o Roberto Carlos Especial.

O ano de 1992 trouxe a primeira coletânea em Compact Disc (formato ainda em ascensão no mercado fonográfico) de Roberto Carlos. O disco The best of trazia uma compilação com 12 sucessos de Roberto Carlos - Emoções, Detalhes, Outra vez, Os seus botões, Proposta, Ele está pra chegar, O portão, Falando sério, Cavalgada, Café da manhã, Desabafo e Eu e ela.

Mas o final de ano reservou mais uma presença de Roberto Carlos no mercado fonográfico. Eis o repertório de seu trabalho naquele ano:

LADO A

1 - Você é minha, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Mulher pequena, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - De coração, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

4 - Você como vai? (E tu come stai?), de Cláudio Baglione, com versão de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Dito e feito, de Altay Veloso

LADO B

1 - Herói calado, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Eu preciso desse amor, de Michael Sullivan e Paulo Massadas

3 - Você mexeu com a minha vida, de Mauro Motta e Paulo Sérgio Valle

4 - Dizem que um homem não deve chorar (Nova flor / Los hombres no deben llorar), de Palmeira, Mario Zan e Pepe Ávila, com versão de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Una en un millón, de Roberto Livi e Alejandro Vezzani

De seus compositores constantes, as duplas Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle e Michael Sullivan e Paulo Massadas estiveram presente neste LP e houve uma parceria até então inédita de Paulo Sérgio com o produtor musical Mauro Motta. Roberto Carlos deu espaço a um novo compositor em sua lista - Altay Veloso - e o presente acabou ganhando uma dimensão ainda maior em 1993, quando a gravação de Dito e feito fez parte da trilha da novela Renascer, exibida às 20h30 pela TV Globo. Uma dramática canção italiana E tu come stai? ganhou uma primorosa interpretação de RC e uma impactante letra em português feita por Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

A presença latina apareceu em dois momentos neste LP de RC. Na última faixa, com a canção Una en um millón, gravação feita originalmente para o disco que Roberto lançou para o mercado em castelhano em 1991. Mas a outra canção é ainda mais curiosa.

O compositor Mario Zan escreveu (em parceria com Palmeira) uma guarânia chamada Nova flor. O Trio Los Panchos decidiu gravá-la, e traduziu sua letra para o espanhol, que foi batizada de Los hombres no deben llorar. Roberto e Erasmo fizeram a versão... DA VERSÃO. Dizem que um homem não deve chorar é a única gravação em português na qual RC canta uma estrofe em espanhol. O mais estranho foi que ela não foi lançada no LP para a América Latina no ano seguinte.

Roberto e Erasmo assinaram sozinhos três músicas deste disco. As faixas que abrem o lado A (a despretensiosa Você é minha) e o lado B (a engajada Herói calado) e uma canção que seria a primeira de uma vertente da década de 1990. Quando apresentou esta música em seu especial, Roberto confessou que, quando escrevia com Erasmo, achava que ela seria para uma minoria feminina. Mas, enquanto pesquisavam, foram surpreendidos com o fato de, no Brasil, existirem mais de 20 milhões de mulheres abaixo de 1,60m. Talvez por isto esta salsa tenha sido um dos maiores sucessos radiofônicos de Roberto Carlos na década.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em seu especial de 1992.

Abraços a todos, Vinícius.

MULHER PEQUENA - Roberto e Erasmo

Quando uma mulher pequena
Vem falar no meu ouvido
O meu coração dispara
Chega até a fazer ruído

Fica na ponta dos pés
Se pendura como louca
Olha o céu e fecha os olhos
Pra ganhar beijo na boca

Depois do beijo na boca
Sua mão leve desliza
Pelos pelos do meu peito
Dentro da minha camisa

Quando a coisa fica quente
Ai, essa mulher me usa
Quero só que se arrebente
Algum botão da sua blusa

Não há roupa que se agüente
E nenhum botão que dure
Esse amor que a gente sente
Não há nada que segure

Gosto de você, pequena
Esse beijo me alucina
Coisa de mulher gostosa
Com um jeito de menina

Ai, ai, ai
Essa voz doce e serena
Essa coisa delicada
Coisa de mulher pequena

Ai, ai, ai
Essa voz doce e serena
O meu coração dispara
Por você mulher pequena...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1991



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções apresenta mais um ano da estrada musical de Roberto Carlos. Esta é a nossa forma de homenagear o cinquentenário do cantor, comemorados em 2009.

No ano de 1991, a Guerra do Golfo prosseguiu, com ofensivas aliadas contra o exército iraquiano. O Iraque perderia centenas de soldados no decorrer da guerra. O golpe de misericórdia aconteceu em 25 de fevereiro, quando a Operação Tempestade no Deserto teve vitória dos aliados. O Kuwait, enfim, foi libertado do domínio de Saddam Hussein.

Com o enfraquecimento definitivo do socialismo, a aliança militar do Pacto de Varsóvia (iniciada em 1955) chegou ao fim. Vários países conseguiram sua independência no Leste Europeu. Letônia, Ucrânia, Bielorrússia, Quirguízia, Armênia e Croácia foram alguns deles. No último dia do ano, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se dissolveu.

O presidente Fernando Collor passou o ano tentando ter o apoio do PSDB, mas teve o apoio negado pelo governador paulista Mário Covas e pelo presidente do partido, Franco Montoro. As denúncias de falcatruas envolvendo pessoas ligadas a Collor - a ministra Zélia Cardoso de Mello e o tesoureiro Paulo César Farias - começaram a aparecer, e viriam com mais intensidade no ano seguinte. Mas isto é um assunto para um dos próximos posts.

Depois de dois times de menos expressão chegarem ao vice-campeonato, a terceira edição da Copa do Brasil trouxe a ascensão de um time outrora desconhecido do grande público. O modesto Criciúma, de Santa Catarina, foi a primeira surpresa do torneio, e também o primeiro campeão que se valeu do regulamento. Um dos critérios de desempate é o "gol marcado fora de casa". E, após conseguir empatar com o Grêmio no Olímpico em 1 a 1 (gol de Vilmar para os catarinenses e de Maurício para os gaúchos), o placar de 0 a 0 no Estádio Heriberto Hulse deu o título para o time treinado por Luiz Felipe Scolari.

O Campeonato Brasileiro trouxe mais um torneio com o número de participantes considerado ideal pela FIFA - 20 equipes. Mas o rebaixamento do Grêmio (que terminou o campeonato em penúltimo lugar) teria consequências desastrosas para os anos seguintes da competição. Isto é um assunto para os próximos posts.

Pela terceira vez consecutiva, o São Paulo chegou à final do torneio - e, assim como em 1990, numa final paulista. O adversário foi o surpreendente Bragantino, treinado por Carlos Alberto Parreira. Mas, desta vez, os são-paulinos conseguiram chegar ao título, após uma vitória por 1 a 0 (com gol de Mário Tilico) no Morumbi e um empate em 0 a 0 no Marcelo Stefani, em Bragança Paulista. Foi o terceiro título brasileiro do São Paulo.

"O artista mais amado do Brasil faz 50 anos hoje: Roberto Carlos". A fala do apresentador Celso Freitas começou o Globo repórter de 19 de abril de 1991. A TV Globo apresentou o programa Roberto Carlos: uma vida de emoções, recontando a trajetória de vida e de arte de RC, com amigos como seu Zé Nogueira, os maestros Chiquinho de Moraes, Charles Callello e Eduardo Lages, Ronaldo Bôscoli, Luiz Carlos Miéle, Luiz Carlos Ismail, Carminha, Caetano Veloso, Julio Iglesias e, claro, os amigos Erasmo Carlos e Wanderléa. Roberto respondeu a perguntas de fãs e conversou com a repórter Glória Maria numa entrevista exclusiva. Ao final, a TV Globo apresentou um show ao vivo do Ibirapuera, em São Paulo, com direito a, no fim, acontecer um "parabéns pra você".

Roberto Carlos iniciou uma nova turnê nos palcos - e, desta vez, com um título bem condizente com o que ele é. Coração estreou em fevereiro de 1991, com o seguinte roteiro:

Abertura (ao final dela, Roberto Carlos canta um trecho de "Fera ferida" antes de entrar no palco)
Cenário
Se você disser que não me ama
Meu ciúme
Por ela
Amazônia
Quero paz
Café da manhã
Além do horizonte
Aquarela do Brasil
Pot-pourri "O coração dos compositores": Coração vagabundo / Carinhoso / Só louco / Explode coração
Mexerico da Candinha (em dueto com "Robertinho Carlinhos")
Detalhes (músicas incidentais: Como é grande o meu amor por você, Sentado à beira do caminho e Não quero ver você triste)
Se você pensa
Música suave
Emoções
Potu-pourri de encerramento: Ele está pra chegar / Amigo / As curvas da Estrada de Santos / O show já terminou


Desta vez, além de cantar as canções que em letra e música contaram sobre seu coração, ele interpretou "o coração dos compositores", num interessantíssimo bloco que trouxe Caetano Veloso, Pixinguinha, Dorival Caymmi e Gonzaguinha. "Não vou mudar, esse caso não tem solução, sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração". O trecho de Fera ferida que RC cantava antes de entrar no palco deixava claro como o então cinqüentão seguia cantando de acordo com sua verdade, independente de pessoas que insistiam em dizer que era hora de mudar.

O repertório de Coração trouxe canções de um Roberto Carlos mais maduro. As canções eram basicamente das décadas de 1970 (Além do horizonte e Café da manhã) e 1980 (Amazônia e Se você disser que não me ama).

Logo no início houve espaço para músicas do LP do ano anterior, como Meu ciúme, de Michael Sullivan e Paulo Massadas. Ainda envolvido pela paixão ecológica (e usando a mesma pena do LP de 1989), Roberto cantou os problemas da Floresta Amazônica em Amazônia e repudiou a violência em Quero paz.

No momento mais interessante e mais inusitado do show, o público viu uma conversa de RC para RC. Graças a efeitos especiais, Roberto Carlos ficou lado a lado com "Robertinho Carlinhos", uma reprodução perfeita de sua imagem na época da Jovem Guarda exibida em telão móvel. Com muita irreverência, os dois conversaram e levaram ao público a magia que a tecnologia (quando bem utilizada) traz para todos nós.

Este show tem um valor muito especial para este que vos escreve. Eu tinha 8 anos quando Roberto Carlos foi a Vitória (pertinho de Cachoeiro) e, pela primeira vez, estive em contato com a emoção que é ver um show de Roberto Carlos ao vivo. Depois viriam muitas outras, felizmente...

A Música Popular Brasileira assistia à ascensão repentina de duplas sertanejas, mas um sertanejo mais moderno, que se assemelhava mais ao country americano. Mostrando a característica constante de dialogar com sucessos do momento, Roberto Carlos abriu espaço para o sertanejo em seu programa de fim de ano.

O Roberto Carlos Especial daquele ano também aconteceu em duas partes. No programa, batizado Viva a luz, RC teve a companhia de Cláudia Raia e Glória Maria à tarde, ao vivo no Teatro Fênix. Além de campanha sobre os direitos da criança e do adolescente (e abordar temas como o teste do pezinho), Roberto recebeu alguns convidados - o grupo Kid Abelha, com quem cantou Não vou ficar, e Mário Lago, com quem dividiu os vocais para Atire a primeira pedra e Ai, que saudades da Amélia. Também foi convidada a dupla Zezé di Camargo & Luciano, que cantou a música É o amor.

Na noite de 25 de dezembro, Roberto Carlos voltou à TV Globo, para emocionar mais seu público. Neste show, a parte sertaneja ficou por conta de Chitãozinho & Xororó. Os três cantaram Amazônia. Os outros convidados foram Erasmo Carlos (os dois cantaram um pout-pourri de músicas da Jovem Guarda), Fagner (com quem cantou Mucuripe) e Fafá de Belém. Fafá teve o privilégio de participar de um LP de Roberto Carlos. Assim como Maria Bethânia e Erasmo Carlos, ela dividiu os vocais para uma faixa de RC - a canção Se você quer (versão de Roberto Carlos e Carlos Colla para Si piensas... si quieres..., de Roberto Livi e Alejandro Vezzani).

Mas a tônica de seu LP daquele ano era o neosertanejo. Esta vertente saltava aos olhos, afinal, na capa do disco aparecia Roberto Carlos com um chapéu de vaqueiro. Eis o repertório:

LADO A

1 - Todas as manhãs, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Primeira dama, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Se você quer (Si piensas... si quieres...), de Roberto Livi e Alejandro Vezzani (versão de Roberto Carlos e Carlos Colla), com participação de Fafá de Belém

4 - Não me deixe, de Marcos Valle e Carlos Colla

5 - Oh, oh, oh, oh, de Roberto Livi e Salako

LADO B

1 - Luz divina, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Pergunte pro seu coração, de Michael Sullivan e Paulo Massadas

3 - Diga-me coisas bonitas, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Mudança, de Biafra, Aloysio Reis e Nilo Pinta

Além de Se você quer, a presença latina também esteve presente na última faixa do lado A do LP - a música Oh, oh, oh, oh, que Roberto tinha lançado no disco Pajaro herido, no ano anterior. Carlos Colla continuou figurando em LPs de RC, desta vez tendo a companhia de Marcos Valle na música Não me deixe (na qual Roberto, durante o solo, dá um assobio afinadíssimo). Sullivan e Massadas deram a Roberto a música Pergunte pro seu coração, que entraria na trilha musical de Pedra sobre pedra, novela das 20h30 da TV Globo.

No dia de lançamento do LP de 1991, Roberto Carlos foi entrevistado no final do Jornal Nacional. Na entrevista, ele disse que estava muito feliz de ter gravado uma canção específica - o "presente" veio de Biafra, Aloysio Reis e Nilo Pinta, chamado Mudança.

A safra de Roberto e Erasmo trouxe a primeira canção que RC destinou a seu novo amor - ele ainda demoraria para apresentar a pedagoga Maria Rita ao público, mas Primeira dama já era uma declaração de amor em letra e música. As canções introspectivas dos anos anteriores deram lugar a mensagens de esperança amorosa, como em Diga-me coisa bonitas. A mensagem religiosa apareceu também em ritmo country, na canção Luz divina.

Roberto Carlos dialogava com o estilo neosertanejo, e apresentava uma versão sua para este ritmo em evidência na época. E trazia a dor da solidão vista pela chuva no parabrisa de um carro.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em Coração.

Abraços a todos, Vinícius.

TODAS AS MANHÃS - Roberto e Erasmo

Todas as manhãs quando eu acordo
Eu me lembro de você
Todos os momentos do meu dia
Não consigo te esquecer

Diga, meu amor
O que é que eu faço
Pra não me lembrar do seu abraço
Eu preciso te esquecer

Entro no meu carro, ligo o rádio
Uma canção me traz você
Tudo que eu vejo de bonito
Se parece com você

Diga, meu amor
O que é que eu faço
Eu preciso arrebentar de vez os laços
Que me prendem a você

Chuva fina no meu parabrisa
Vento da saudade no meu peito
Visibilidade distorcida
Pela lágrima caída
Pela dor da solidão

E a chuva no meu parabrisa
Vento de saudade no meu peito
Visibilidade distorcida
Pela lágrima caída
Pela dor da solidão

Sempre nos lugares onde vou
Alguém pergunta de você
Paro num sinal e olho a rua
Na esperança de te ver

Diga meu amor
O que é que eu faço
Tudo faz lembrar você por onde eu passo
E eu preciso te esquecer

E a chuva fina no meu parabrisa
Vento de saudade no meu peito
Visibilidade distorcida
Pela lágrima caída
Pela dor da solidão...

sábado, 20 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1990



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções começa mais uma década na carreira musical de Roberto Carlos. Em cada post, estamos apresentando um dos 50 anos de carreira de RC, completos neste 2009.

1990 começou com um conflito armado no Oriente Médio. A 2 de agosto, tropas iraquianas violaram a fronteira com o Kuait, exigindo indenizações pela queda do petróleo. Estava iniciada a Guerra do Golfo. Os Estados Unidos e a Inglaterra tiveram intervenções na guerra, que teria episódios como o bloqueio comercial ao Iraque e a atitude do ditador Saddam Hussein anexar o território do Kuwait ao país. O confronto no Golfo Pérsico e destacou pela ampla cobertura do canal de notícias americano CNN. Eram constantes os plantões jornalísticos trazendo imagens de cidades iraquianas bombardeadas, exibidas parecendo jogos de videogame. O confronto iria além de 1990.

Outra guerra teria seu ponto final em um país do Oriente Médio. Depois de 15 anos de hostilidades entre cristãos e muçulmanos (que geraram a intervenção da Síria, apoiada por Israel e pelos Estados Unidos), o Líbano viu sua Guerra Civil chegar ao fim. O fim à guerra aconteceu graças ao Acordo de Taif, assinado na Arábia Saudita.

Passado o período negro da Ditadura Militar, o Brasil retornou a momentos de apreensão - desta vez na parte financeira. O presidente empossado Fernando Collor de Mello anunciou, logo em seu primeiro dia de mandato, a criação de um novo plano econômico. O Plano Collor foi anunciado pela ministra Zélia Cardoso de Mello, e, embora trouxesse fatores como a abertura tecnológica e a modernização das importações, foi um desastre para boa parcela da população.

Boa parte das cadernetas de poupança da população foram confiscadas pelo período de 18 meses. O congelamento de preços e salários e o aumento de preços de serviços públicos fez parte das medidas apresentadas, além da insituição do Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros (o IOF), sobre todos os ativos financeiros. Também foram retirados incentivos fiscais para importações, exportações, agricultura e indústria e, com a extinção da Embrafilme, o cinema brasileiro teve sua produção reduzida drasticamente. Poucos filmes conseguiam ser rodados e, quando iam para o cinema, não tinham dinheiro para se manter por muito tempo.

1990 entrou para a história do Brasil por ser o primeiro ano no qual Brasília elegeu seu governador. Joaquim Roriz foi o primeiro a governar a capital federal.

20 anos depois de seu último título na Copa do Mundo, a Seleção Brasileira apresentou um futebol bem longe de ser campeão. O time treinado por Sebastião Lazaroni adotou um padrão de jogo típico do futebol estrangeiro, priorizando a ideia de "não tomar gol". Lazaroni seria o responsável por instaurar a "Era Dunga", pois o cabeça-de-área era símbolo de uma equipe recuada, como mostram os resultados da competição.

O Brasil venceu seus três jogos na primeira fase, sempre com vitórias apertadas. Na estreia, dois gols de Careca (que substituiu Romário, machucado) deram a vitória por 2 a 1 diante da Suécia - o gol sueco foi marcado por Brolin. Nos dois jogos seguintes, a Seleção Brasileira venceu por apenas 1 a 0 - contra Costa Rica e Escócia, ambas com gol de Müller. Nas oitavas-de-final, o Brasil se deparou com a Argentina (com uma campanha hesitante na primeira fase) e viu sua eliminação chegar a dez minutos do fim. O gol de Cannigia deu aos argentinos a vitória por 1 a 0, e o Brasil voltou da Itália com o nono lugar.

Os argentinos chegaram à final da Copa do Mundo para jogar contra a Alemanha Ocidental. Com um gol de pênalti marcado por Brehme a cinco minutos do fim, os alemães deram o terceiro título para a Alemanha Ocidental - que se igualou a Brasil e Itália no posto de tricampeões mundiais.

A Copa do Brasil chegou à sua segunda edição, mas continuava de maneira obscura, a ponto de algumas partidas acontecerem durante a Copa do Mundo. No ano em que pela primeira vez participou o campeão do Acre (o Juventus), a tradição falou mais alto. O Flamengo se sobressaiu aos outros três mais bem colocados - Goiás, Náutico e Criciúma - e ganhou seu primeiro título. Na final, os rubro-negros venceram o Goiás na primeira partida por 1 a 0 (com gol de Fernando) em Juiz de Fora e um empate em 0 a 0 no Serra Dourada tornou o time campeão do torneio.

Os dois times de maior torcida no país terminaram o ano em festa. No Campeonato Brasileiro, o Corínthians superou o São Paulo na final paulista, ao vencer o tricolor por 1 a 0 (com gol de Wilson Mano) e repetir o placar no jogo decisivo (com gol de Tupãzinho). Ambas as partidas foram realizadas no Morumbi.

Em maio de 1990, Roberto Carlos recebeu mais uma homenagem internacional. No ano seguinte ao Grammy Latino, o cantor entrou para o Hollywood Walk of Fame, nos Estados Unidos. Uma das inúmeras estrelas que estão no chão da Calçada da Fama de Hollywood traz o nome de ROBERTO CARLOS.

Mesmo com a cabeleira menos vasta do que o ano anterior, RC continuava tendo a pena em seus cabelos, e prosseguia sua marcha por uma melhora no panorama ecológico. O Roberto Carlos Especial daquele ano foi batizado de Verde é vida, e trouxe RC à tarde e à noite no dia 25 de dezembro.

De tarde, RC apresentou um programa ao vivo na companhia da atriz Cláudia Raia direto do Teatro Fênix. A TV Globo proporcinou a distribuição de 400 mil mudas de árvores em vários cantos do país. As mudas eram distribuídas por artistas como Eva Wilma, Carlos Zara e Raul Cortez. Erasmo Carlos apareceu num clipe de Panorama ecológico (definida pelo Tremendão como a definitiva dentre as músicas ecológicas da dupla), a dupla Pena Branca & Xavantinho cantou com Milton Nascimento a música Cio da terra também em clipe. E, naturalmente, houve muita música no palco do Teatro Fênix.

À noite, foi ao ar um show gravado diretamente do Ginásio do Maracanãzinho, também no Rio de Janeiro. RC teve como convidados somente artistas em evidência no momento. A "maninha" Wanderléa apresentou Foi assim, música da época da Jovem Guarda que estava fazendo sucesso novamente por ser um dos temas da novela Rainha da sucata, e em dueto com Roberto cantou Ternura, música presente em ambos os repertórios.

O palco do Maracanãzinho foi cenário para um encontro "muito esperado". Roberto Carlos abriu espaço para um dos mais bem-sucedidos cantores de 1990 - José Augusto, que grudou nas rádios a música Aguenta coração, tema da novela global Barriga de aluguel. Além de apresentar a canção em número solo, o cantor interpretou com RC a música Fera ferida.

A reta final trouxe um outro esperado encontro - do "Rei" com a "Rainha". A "Rainha dos Baixinhos" Xuxa apresentou a ecologicamente correta Boto rosa e desfilou um pout-pourri com as canções Ilariê e Lua de cristal, sempre acompanhada das Paquitas. Em seguida, os dois interpretaram a música Noite feliz. No mesmo fim de ano, RC tinha se apresentado no especial de Xuxa - os dois cantaram a natalina Estrela guia.

Passada a dor-de-cotovelo do LP de 1989, este ano RC lançou um disco trazendo algumas canções melancólicas. Mas desta vez, segundo ele, o homem "chora de pé", e não deitado como a amargura do ano anterior. Eis o repertório:

LADO A

1 - Super herói, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Meu ciúme, de Michael Sullivan e Paulo Massadas

3 - Por ela (Por ella), de José Manuel, com versão de Biafra e Aloysio Reis

4 - Pobre de quem me tiver depois de você, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Cenário, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

LADO B

1 - Quero paz, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Um mais um, de Gílson e Carlos Colla

3 - Porque a gente se ama, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Como as ondas voltam para o mar, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Mujer, de Roberto Livi e Salako.

O LP trouxe uma mudança considerável. Das dez canções, sete foram produzidas pelo próprio Roberto Carlos (as exceções foram as faixas Super herói, produzida por Sérgio Lopes, Por ela, a cargo de Mauro Motta e Mujer, com produção de Roberto Livi).

A música divulgada nas rádios não era de autoria de Roberto e Erasmo - o trabalho recaiu sobre Michael Sullivan e Paulo Massadas, autores de vários sucessos desde a década anterior, com Meu ciúme. RC apresentou um novo compositor - Gilson, coautor de Carlos Colla na doce Um mais um. Os "compositores de Roberto Carlos" dariam um belo presente para ele: a dupla Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle criou Cenário, uma canção tão definitiva sobre o artista RC quanto a própria Emoções.

A presença latina continuava bem forte, e veio com as castanholas e os violões flamencos na música Por ela (versão da Por ella que havia sido lançada no início do ano, para o LP Pajaro herido). Também deste disco veio a canção Mujer, que encerra o LP de fim de ano do Brasil e em 1991 iria para a trilha da novela Lua cheia de amor, exibida às 19h da TV Globo.

Roberto e Erasmo escreveram a mensagem Quero paz, com coro infantil e refrão feito para "baixinhos" ("Bang-bang-bang não dá, ratatatatá também não, quero paz aqui, quero lá, é o que pede o meu coração) e voltaram a recorrer à sensualidade em letra e música na explícita Porque a gente se ama.

Mas a dor de um amor terminado prosseguia nas canções da dupla. Desde a perspectiva de uma volta em Como as ondas voltam para o mar, passando pela incerteza de um novo amor em Pobre de quem me tiver depois de você. E, na canção que abre o LP, uma tentativa de ao menos manter uma amizade. Mesmo que Roberto Carlos tivesse de ser um super herói e passasse pelas suas dores para tirar quem o magoou de qualquer perigo. Um dado curioso: no início do ano seguinte, ela se tornaria a primeira canção interpretada por RC a estar em uma trilha de novela da TV Globo - fazendo parte da novela O dono do mundo, exibida às 20h30.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em show deste 1990.

Abraços a todos, Vinícius.

SUPER HERÓI - Roberto e Erasmo


Quando você precisar
Alguma coisa de mim
É só me telefonar
Que eu irei correndo

Meu telefone eu deixei
Na cabeceira da cama
Não importa a hora que for
Me chama

Já não sou mais seu amor
Mas me preocupo contigo
Saiba que sou
Seu melhor amigo

Eu sou um super herói
Esqueço a dor que me dói
Pra te tirar
De qualquer perigo

Não se culpe, eu aprendi
Que o sentimento ninguém domina
Te agradeço, eu fui feliz
Mas o meu sonho de amor termina

Se acaso você chorar
E precisar do meu ombro
Estou nos restos do amor
Que ficou nos escombros

Mesmo ferido demais
Eu te direi sempre sim
Chame quando
Precisar de mim

Chame quando precisar
De mim...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1989



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua a apresentar, post a post, cada um dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. Com o post de hoje, esta série encerra mais uma década na qual RC esteve presente no cenário musical brasileiro.

1989 simbolizou a derrocada definitiva do regime socialista. A União Soviética já havia perdido a força de sua influência, com os países comunistas aos poucos abrindo espaço para o mercado capitalista difundido pelos Estados Unidos. Mas o golpe de misericórdia veio a 9 de novembro de 1989.

Depois de 28 anos de existência, o Muro de Berlim, que separava a Alemanha em Ocidental (do lado americano) e Oriental (do lado soviético), caiu, abolindo todas as restrições que o oriente alemão sofrera durante todo este tempo. A unificação da Alemanha foi comemorada com várias pessoas ajudando a quebrar o "Muro da vergonha".

Na China, estudantes fizeram uma série de protestos contra o governo e, num deles, um rapaz ficou parado diante de vários tanques de guerra. A Revolução Romena eclodiu no final de 1989, trazendo uma sangrenta transição entre socialismo e capitalismo no Leste Europeu.

O Brasil se preparou para realizar suas primeiras eleições diretas depois de mais de duas décadas. A eleição "solteira" (termo designado para definir uma corrida eleitoral feita em separado das eleições para governadores, senadores e deputados) teve 21 candidatos e um resultado surpreendente. Chegaram ao segundo turno um candidato de uma sigla inexpressiva - Fernando Collor de Mello, do PRN - e o ex-líder sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, do PT.

Numa disputa cercada de artimanhas de bastidores - como a descoberta de uma filha de Lula que ele supostamente teria pedido para a mãe fazer o aborto e a tentativa de associar o sequestro do empresário Abílio Diniz a grupos que eram ligados ao candidato do PT - Fernando Collor se tornou o vencedor com uma diferença de cerca de quatro milhões de votos. A "década perdida" de 1980 teria um epílogo nos próximos anos da década seguinte.

1989 tinha começado com um incidente ocorrido no alto-mar do Rio de Janeiro. Na virada de 1988 para 1989, o barco Bateau Mouche afundou na praia de Copacabana. As pessoas que estavam dentro do barco para ver a queima de fogos tradicional no Rio de Janeiro viveram momentos de tensão, criados pela ganância de um grupo de empresários que superlotou o Bateau Mouche. Dos 150 passageiros, 55 morreram. O acidente vitimou a atriz Yara Amaral, que no ano anterior tinha encerrado sua participação na novela Fera radical, da TV Globo.

A televisão brasileira sofreu uma alteração importante. O grupo da Igreja Universal do Reino de Deus comprou a Rede Record por 45 milhões de dólares. Ia começar uma nova era na emissora paulista.

O Campeonato Brasileiro foi disputado por 22 equipes. Após uma primeira fase com dois grupos de 11 times, houve uma nova frase com os 16 melhores do início do torneio (divididos também em dois grupos). A final iria acontecer entre o melhor de cada grupo.

São Paulo e Vasco foram os credenciados para a decisão do Campeonato Brasileiro de 1989. Como tinham a melhor campanha, os vascaínos tinham a vantagem de jogar por dois empates ou uma vitória, além de escolher onde seria realizada a primeira partida da decisão. O Vasco optou por jogar a primeira partida no Morumbi e de lá saiu campeão brasileiro pela segunda vez. Depois de cruzamento de Luiz Carlos Winck, Sorato cabeceou para o fundo das redes de Gilmar.

Neste ano, aconteceu uma estreia no futebol brasileiro. Além dos campeonatos estaduais e do Brasileiro, foi incorporado ao calendário a Copa do Brasil. Como o Campeonato Brasileiro havia sofrido uma redução em seu número de participantes, um novo torneio foi montado para agradar as federações que se sentiram prejudicadas. De maneira democrática, o campeonato trazia 32 clubes - 22 campeões estaduais e 10 vices, distribuídos em 16 chaves. O sistema "mata-mata" ocorria durante toda a Copa do Brasil, tornando cada jogo decisivo.

Grêmio e Sport chegaram à decisão, e o tricolor gaúcho sagrou-se campeão, após empate em 0 a 0 na Ilha do Retiro e uma vitória por 2 a 1 (com Assis e Cuca marcando para os gaúchos e um gol contra de Baltazar descontando para os pernambucanos). O vice-campeão mostrou uma face constante neste torneio de "mata-mata": times considerados de menor expressão às vezes surpreendem e chegam a uma decisão. Alguns deles chegariam ao título, como veremos nos próximos posts.

Chegando a 30 anos de sua estrada musical, Roberto Carlos recebeu uma consagração no exterior. Com seu álbum Volver, RC ganhou o Grammy Latino de Melhor Cantor de 1988. O disco trouxe cinco músicas de seu LP brasileiro de 1987 vertidas para o espanhol e algumas gravações de canções em castelhano divulgadas somente no exterior - como Tristes momentos e Si el amor se va. O título do LP vencedor foi o da música que encerrou o LP lançado no Brasil em 1988.

Roberto continuava mostrando uma afinidade com o mercado latino, e em seu Roberto Carlos Especial de 1989 chegou a cantar uma música em espanhol - Si me vas a olvidar, lançada em Sonrie, álbum feito para o mercado castelhano em meados deste ano. Si me vas a olvidar chegou ao Brasil em português, com o título Se você me esqueceu, na versão feita por Carlos Colla.

Em seu programa daquele ano, RC teve como convidados Simone e Erasmo Carlos. A cantora revelou que estava tendo um grande momento como cantora e também como mulher ao estar do lado dele para, depois de recordarem alguns sucessos, cantarem a música Outra vez. Com o amigo Erasmo Carlos, os dois relembraram momentos da Jovem Guarda e cantaram Sentado à beira do caminho, tendo ao piano o maestro Eduardo Lages.

A conversa com Erasmo era intercalada com clipes de músicas novas que RC lançou em 1989, e o parceiro falou para Roberto: "Cara, esse seu disco... Dor-de-cotovelo perde, é dor de joelho!". Das nove músicas, sete falaram sobre fim de amor - até mesmo as feitas por outros compositores. Provável reflexo da separação do cantor com a atriz Myriam Rios. Eis o repertório:

LADO A

1 - Amazônia, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Tolo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - O tempo e o vento, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Se você me esqueceu (Si me vas a olvidar), de Roberto Livi, com versão de Carlos Colla

LADO B

1 - Pássaro ferido, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Nem às paredes confesso, de Maximiano de Souza, Francisco Trindade e Artur Ribeiro

3 - Só você não sabe, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Sonrie (Smile), de Charles Chaplin, J. Turner e G. Parsons, com versão de Roberto Livi

5 - Se você pretende, de Mauro Motta e Carlos Colla

Apenas Sonrie - versão castelhana para a Smile de Charles Chaplin que deu nome ao LP latino de 1989 - e Se você pretende não foram exibidas no Roberto Carlos Especial de 27 de dezembro. A primorosa Tolo e Si me vas a olvidar foram apresentadas em show no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Os demais, renderam clipes com mulheres bonitas contracenando com Roberto.

Em O tempo e o vento, RC cantou o amor que foi embora pela fúria dos ventos contracenando com Luiza Brunet. No sambinha Só você não sabe, foi a vez da passista Fatinha (que participara do especial de 1986 no clipe de Nêga). Pássaro ferido e a bela releitura do fado Nem às paredes confesso também tiveram a participação de atrizes.

Mas Roberto Carlos estava voltado para abraçar uma causa ecológica, visível na capa de seu LP. RC posou com uma pena entre seus cabelos, e no início de seu especial falou sobre o lugar que era tema da música "pra tocar no rádio" de 1989:

"Daqui de uma dessas artérias desse imenso coração, eu repito meu amor pelo Brasil. Um amor antigo e e apaixonado. Diante do índio, testemunha de tanta devastação, eu aindo grito a minha fé nesse país".

Em clipe gravado na Floresta Amazônica, Roberto arrumava um espaço em meio à "dor-de-cotovelo" para gritas os problemas pelos quais a Amazônia padece. Um dado curioso: em alguns discos, fitas ou CDs, esta música aparece como segunda faixa do lado A - a canção que abre seu trabalho daquele ano é Tolo. Supõe-se que este seria "o ano do Tolo", como disse Erasmo no especial, mas RC decidiu evidenciar mesmo seu alerta pela insônia do mundo.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos no registro fotográfico que apareceu na parte interna de seu LP daquele ano.

Abraços a todos, Vinícius.

AMAZÔNIA - Roberto e Erasmo

Tanto amor perdido no mundo
Verdadeira selva de enganos
A visão cruel e deserta
De um futuro de poucos anos

Sangue verde derramado
O solo manchado
Feridas na selva
A lei do machado

Avalanches de desatinos
Numa ambição desmedida
Absurdos contra os destinos
De tantas fontes de vida

Quanta falta de juízo
Tolices fatais
Quem desmata, mata
Não sabe o que faz

Como dormir e sonhar
Quando a fumaça no ar
Arde nos olhos
De quem pode ver

Terríveis sinais
De alerta
Desperta
Pra selva viver

Amazônia, insônia do mundo...
Amazônia, insônia do mundo...

Todos os gigantes tombados
Deram suas folhas ao vento
Folhas são bilhetes deixados
Aos homens do nosso tempo

Quantos anjos queridos
Guerreiros de fato
De morte feridos
Caídos no mato

Como dormir e sonhar
Quando a fumaça no ar
Arde nos olhos
De quem pode ver

Terríveis sinais
De alerta
Desperta
Pra selva viver

Amazônia, insônia do mundo...
Amazônia, insônia do mundo...

terça-feira, 16 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1988




Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua sua epopeia de contar, a cada post, um trecho dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. São muitas emoções narradas em meio século de estrada do cantor na Música Popular Brasileira.

O ano de 1988 apresentou o primeiro lado negativo da tecnologia: surgiu o primeiro vírus de computador. O mundo também assistiu à ascensão da primeira mulher no poder num estado muçulmano moderno, com Benazir Bhutto se tornando a primeira-ministra do Paquistão.

O Brasil passou por transformações consideráveis em sua geopolítica. Na parte geográfica, foram elevados à categoria de estados os territórios do Amapá e de Roraima e, na parte central do país, foi criado Tocantins. A política brasileira tentou expandir seus negócios ao formar o Mercado Comum do Sul (Mercosul), ao lado de Argentina, Uruguai e Paraguai. Ainda neste ano, os governos brasileiro e argentino negociaram uma parceria de livre comércio no Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento.

Em Brasília, foi reunida a Assembleia Constituinte e, a 5 de outubro de 1988, a República Federativa do Brasil passou a ter uma nova Constituição. O regime presidencial foi mantido, e a escolha do presidente da República, dos governadores, prefeitos, senadores, deputados estadual e federal e vereadores seriam escolhidos por voto direto e secreto. A obrigatoriedade de voto continuava acima de 18 anos, mas pessoas de 16 e 17 anos tinham direito ao voto facultativo. Foram instituídos os sistemas de eleições majoritárias em dois turnos, na eventualidade do candidato em primeiro lugar não conseguir a maioria dos votos válidos.

A censura foi definitivamente abolida, e os trabalhadores foram beneficiados com o direito ao Sistema Único de Saúde (o SUS). Também foram estabelecidas garantias de aposentadoria a trabalhadores rurais mesmo sem contribuição ao INSS, proibição de comercialização de sangue e derivados, demarcações de terras indígenas e leis de proteção ao meio ambiente.

Neste contexto, a 22 de dezembro de 1988, o Brasil perderia seu maior líder na busca pela valorização do meio ambiente. O seringalista Chico Mendes foi assassinado com dois tiros de escopeta em sua casa em Xapuri, no Acre. Chico era perseguido por seu ideal de preservar a Amazônia, ideias opostas às dos donos de terra da região.

O país continuava tendo uma recessão econômica, a ponto de um desempregado brasileiro cometer o desatino de sequestrar um avião. Além de matar o copiloto, sua intenção era jogar o Boeing no Palácio do Planalto. O sequestro não deu certo, e o rapaz foi morto em Goiânia, depois de pousar.

A rixa entre o Clube dos 13 e a Confederação Brasileira de Futebol tornou possível um sistema de Campeonato Brasileiro bem mais enxuto. Passada a confusão da Copa União do ano anterior, no ano de 1988 o torneio começou com 24 clubes e um sistema de acesso e rebaixamento mais claro - quatro clubes caíam para a Série B e dois voltavam à Série A. Mas, os organizadores decidiram inovar na pontuação: as partidas passaram a valer três pontos por vitória. Caso houvesse um empate, um ponto ia para cada equipe e era realizada uma cobrança de pênaltis - na qual o vencedor ganhava um ponto a mais.

Os primeiros rebaixados em campo foram Santa Cruz, Criciúma e os cariocas América e Bangu. No ano seguinte, o campeão Internacional de Limeira (de São Paulo) e o vice Náutico disputaram a Primeira Divisão.

Mais uma vez, o Brasil teve de esperar até o início do ano seguinte para conhecer quem seria o melhor time do ano anterior. Em fevereiro de 1989, o Bahia sagrou-se campeão brasileiro de 1988. No primeiro jogo, os baianos venceram o Internacional por 2 a 1 (com dois gols de Bobô e Leomir marcando o gol colorado) na Fonte Nova. No segundo jogo, realizado no Beira-Rio, o empate em 0 a 0 foi suficiente para o tricolor baiano conquistar seu primeiro título nacional.

Roberto Carlos surpreendeu seu público ao lançar dois discos no ano de 1988. O primeiro deles veio em maio, num registro fonográfico do show Detalhes. Roberto Carlos ao vivo trouxe dez números apresentados no Canecão da turnê iniciada em 1987. Eis o repertório:

LADO A

1 - Abertura

2 - Detalhes (trecho) / Proposta

3 - Emoções

4 - Lobo mau / Eu sou terrível / Amante à moda antiga

5 - Canzone per te

6 - Outra vez

LADO B

1 - Seu corpo / Café da manhã / Os seus botões / Falando sério / O côncavo e o convexo / Eu e ela

2 - Detalhes

3 - Imagine, com participação de Gabriella

4 - Ele está pra chegar / Detalhes (trecho)

Numa época na qual era incomum ter registro ao vivo em disco, Roberto mostrou uma parte de como eram seus shows nesta época. Os momentos nos quais mesclava texto e música estiveram presentes, até mesmo no extenso pout-pourri que abriu o lado B do LP. Também ficaram para a posteridade sua interpretação de Imagine, na companhia da cantora Gabriella, além de, pela primeira vez, aparecer sua hoje corriqueira interpretação de Detalhes na qual canta acompanhado de um violão.

No Roberto Carlos Especial de 1988, RC teve a companhia de sua "afilhada musical" Kátia, com quem cantou Qualquer jeito (sucesso que ele e Erasmo fizeram para ela), de Rosana - na época muito bem sucedida nas rádios - com quem cantou um pout-pourri mesclado de sucessos dela e dele. RC também conversou com o piloto Ayrton Senna. O amigo Erasmo Carlos esteve presente num dueto que não ficou restrito ao programa de televisão. Oito anos depois de RC participar do disco Erasmo Carlos convida... na faixa Sentado à beira do caminho, Erasmo participou do disco de Roberto com Papo de esquina. Eis as demais músicas do LP:

LADO A

1 - Se diverte e já não pensa em mim, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Todo mundo é alguém, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Se você disser que não me ama, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Como as ondas do mar, de Marcos Valle e Carlos Colla

5 - Se o amor se vai (Si el amor se va), de Roberto Livi e Bebu Silvetti, com versão de Roberto Carlos e Carlos Colla

LADO B

1 - Papo de esquina, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (com participação de Erasmo Carlos)

2 - Eu sem você, de Mauro Motta e Carlos Colla

3 - O que é que eu faço, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Toda vã filosofia, de Guilherme Arantes

5 - Volver, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

RC agregou mais um compositor à sua lista - Guilherme Arantes, presente com Toda vã filosofia. Marcos Valle (irmão de Paulo Sérgio, já corriqueiro nos discos de RC) conseguiu dar voz à sua música através de RC, e na companhia de Carlos Colla. Colla também inaugurou uma parceria com o produtor musical Mauro Motta.

Ele foi coautor também de Roberto Carlos, em uma presença latina no disco brasileiro de RC. Cada vez mais dialogando com o cancioneiro espanhol, Roberto dedicou duas faixas a músicas latino-americanas. A primeira foi a versão de Si el amor se va, que na letra dele e de Carlos Colla se tornou Se o amor se vai. A segunda encerrou o LP - uma leitura para a primorosa Volver, um retorno ao universo de Carlos Gardel 15 anos depois de El día que me quieras. Estas músicas fariam parte de um grande momento de Roberto Carlos, mas isto é um assunto para o próximo post.

A safra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos rendeu bem mais que um papo de esquina. No ano de 1988, veio a engajada Todo mundo é alguém e também uma nova leva de canções amorosas - só que todas falando de fim de amor. O disco abriu com Se diverte e já não pensa em mim, uma letra dolorosa apresentada no especial tendo Luiza Brunet como musa.

O sambinha O que é que eu faço, apesar do ritmo mais animado, também já dava traços de um relacionamento desgastado, no qual ele dizia que voltava "num empurrão". Só que a canção que causou mais polêmica foi a terceira do lado A.

O motivo: no clipe apresentado no Roberto Carlos Especial, RC estava acompanhado de Isabela Garcia. Foi o suficiente para especularem que ela era "um novo amor" e Myriam Rios e ele já tinham se separado. Uma pena, pois o brilho desta bela música merecia um destaque maior dentre as canções de fim de amor compostas por Roberto e Erasmo. Afinal, para eles a pessoa tem de dizer mais de uma vez se não ama.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em apresentação de Volver no exterior.

Abraços a todos, Vinícius.

SE VOCÊ DISSER QUE NÃO ME AMA - Roberto e Erasmo

Se você disser que não me ama
Tem que me dizer mais de uma vez
Tem que me fazer acreditar
Em coisas que eu não quero ouvir

Tem que dizer tudo que eu detesto
Que não me suporta, que eu não presto
Tem que repetir por muitas vezes
Que não quer saber de mim

Tem que me dizer coisas horríveis
Inacreditáveis, impossíveis
Coisas que um homem não suporta
Ter que ouvir de uma mulher

Tem que me dizer que eu vá embora
Me botar daquela porta afora
E mesmo assim não sei se desse jeito
Em tudo isso vou acreditar

Tem que disfarçar o seu desejo
E não se excitar quando eu te beijo
Porque qualquer pequeno gesto seu
É um bom motivo pra eu ficar

Se você disser que não me ama
Tem que me dizer mais de uma vez...

Se você disser que não me ama
Tem que me dizer mais de uma vez...

domingo, 14 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1987



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua, apresentando a cada post um dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. É a nossa forma de comemorar o cinquentenário de RC na estrada da Música Popular Brasileira.

Em 1987, ocorreu a explosão estelar ocorrida em uma região mais próxima do planeta Terra. Na Nuvem de Magalhães, explodiu a A Supernova Shelton Sn 1987A.

No Brasil, o governo de José Sarney continuava tentando lidar com o grave problema do país: a inflação. Em junho de 1987, o Plano Bresser foi instaurado na economia. O plano criado pelo ministro da Fazenda Luiz Bresser Pereira insitiuia, dentre outras medidas, o congelamento dos preços, dos aluguéis e dos salários. As medidas afetariam consideravelmente as cadernetas de poupança de todo o país.

Só que o ano de 1987 faria o Brasil voltar seus olhos para a cidade de Goiânia. Lá, aconteceu a maior contaminação de radioatividade da história do país. Dois catadores de papel pegaram uma peça de chumbo num hospital abandonado e repassaram para um dono de um ferro-velho. Dentro da peça, havia um pó que brilhava um tom azulado na ausência de luz. Ele mostrou à esposa e, mais tarde, a outros familiares e amigos.

O pó azulado era de Césio 137, um elemento químico usado em radioterapia. Todos os que entraram em contato com a cápsula de Césio 137 passaram a sentir náuseas, tonturas, vômitos e diarreia, mas a demora a receber assistência médica e a detectar que os problemas eram decorridos do contato com o elemento fizeram com que o problema não fosse remediado a tempo. Mais de 112 mil pessoas em Goiânia foram detectadas com sequelas do elemento químico - que consegue facilmente aderir à pele, à roupa e aos alimentos domésticos, por absorver a umidade do ar. Muitas tiveram contaminações corporais externa e interna, e, das 49 pessoas que precisaram de internação, quatro não resistiram.

A pessoa que sofreu a maior dose de radiação por Césio 137 foi a menina Leide das Neves Ferreira, de seis anos. Ela estava brincando quando ingeriu involuntariamente quantidades de Césio. A menina, que era sobrinha do dono de ferro-velho, teve de ser enterrada em um caixão de chumbo lacrado, para evitar que a radiação fosse transmitida.

O futebol brasileiro passava por mais uma crise. Os 13 maiores clubes de futebol do Brasil fundaram a insituição do "Clube dos 13" e decidiram organizar seu próprio campeonato brasileiro - a Copa União. Para conseguir respaldo financeiro, os clubes conseguiram o apoio da Rede Globo, da Varig e da Coca-Cola. Para abrigar vários times, foi estipulado que o torneio seria dividido em "módulos" de acordo com o nível dos clubes - Módulo Verde seria a primeira divisão, Módulo Amarelo seria a segunda e os Módulos Azul e Branco seriam os regionais.

O campeonato mais importante foi formado pelos 13 clubes - Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo, São Paulo, Santos, Corínthians, Palmeiras, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Internacional, Grêmio e Bahia - e pelos convidados Goiás, Coritiba e Santa Cruz. Foram excluídos o Guarani e o América do Rio de Janeiro, respectivamente, segundo e quarto colocado de 1986.

O Clube dos 13 tentou fazer um acordo com a CBF e era previsto que o campeão e o vice do Módulo Verde (primeira divisão) enfrentaria o campeão e o vice do Módulo Amarelo (segunda divisão) numa quadrangular. Deste confronto, o Brasil conheceria seus dois representantes na Taça Libertadores da América do ano seguinte.

Flamengo e Internacional chegaram à final do torneio e, após um empate em 1 a 1 no Beira-Rio (com gols de Bebeto para o Flamengo e Amarildo para o Inter), o rubro-negro carioca venceu a Copa União com um gol de Bebeto no Maracanã. A equipe tinha como destaque a mescla dos veteranos Zico e Renato Gaúcho com jogadores promissores como Leonardo, Bebeto e Zinho.

Confirmados Flamengo e Internacional como os dois primeiros do Módulo Verde e Sport e Guarani como os melhores do Módulo Amarelo, a CBF anunciou uma tabela que definia um quadrangular disputado em turno e returno no início de 1988. Internacional e Flamengo abandonaram a competição, afirmando que o regulamento foi alterado à revelia do Clube dos 13. A CBF então declarou o Sport como campeão brasileiro de 1987, após empate em 1 a 1 em Campinas e uma vitória por 1 a 0 no Recife.

Roberto Carlos chegou a 1987 expondo seus detalhes de maneira explícita. Detalhes foi o nome do show que ele estreou em janeiro daquele ano no Canecão, com o seguinte repertório:

Abertura
Detalhes (trecho)/Proposta
Emoções
Lobo mau/ Eu sou terrível/ Amante à moda antiga
Canzone per te
Outra vez
Cama e mesa
Aquela casa simples
Do fundo do meu coração
Ana Luiza/ Lígia/ Angela
The lady is a tramp (trecho) / Símbolo sexual
Nêga
Seu corpo/ Café da manhã/ Os seus botões/ Falando sério/ O côncavo e o convexo/ Eu e ela
Detalhes
Cavalgada
Apocalipse
Detalhes
Imagine (com participação da cantora Gabriella)
Ele está pra chegar/ Detalhes (trecho)


Já se sentindo à vontade com seu público, RC se deu ao luxo de fazer um "strip-tease poético". Com a ajuda do camareiro Pepe, Roberto ia vestindo figurinos de acordo com a ocasião de suas músicas. Desde um coletinho da Jovem Guarda, passando pela roupa que usou ao cantar em sua estreia no Canecão, vestindo o terninho e o cravinho do simpático amante à moda antiga e, ao final, voltando a sentir a emoção quando, de terninho cheio de babados, cantou Canzone per te em San Remo.

Mas Roberto estendeu suas homenagens a Antônio Carlos Jobim, através de suas mulheres, antecedidas com as seguintes palavras:

"O Tom é tudo que resta de verde em tudo o que resta do coração do Brasil. O Tom é de Ipanema, e eu sou de Cachoeiro, e isso naturalmente explica o nosso comportamento diante das mulheres que temos retratado. A minha fantasia cria mulheres que eu jamais ousei dizer os nomes. Bem, o Tom não, o Tom ousa mesmo, já vai dizendo tudo - nome, cor dos cabelos, altura, idade, essas coisas todas. Mas, com todo respeito, eu canto aqui algumas mulheres do Tom. Umas mais cantadas, outras menos, outras mais famosas, outras menos famosas. De repente as menos famosas por serem menos cantadas, quem sabe?".

Ao apresentar os músicos, RC recordou mais um detalhe de uma vida musical: o dia no qual ele se apresentou no exterior tendo a companhia da banda que acompanhou Frank Sinatra. E chegou a contar uma história, atribuída ao maestro Eduardo Lages:

"Ele viu o Frank Sinatra saindo do toalete todo molhado. É, molhado do que vocês estão pensando, mas não exatamente onde estão pensando, né? O Sinatra estava molhado aqui [e RC apontou para a coxa esquerda]. E a gente fica se perguntando: não, como é que pode? Tem alguma coisa errada, né, porque geralmente é aqui, né? [e apontou para a altura da cintura]. Mas aí ele me explicou "não, não tem nada de mais". É que, logicamente, todo mundo sabe que todo mundo é fã do Sinatra e em todo lugar que o Sinatra entra, tem sempre um fã. E, logicamente, quando ele entra num toalete, tem um cara aqui, com a mão tradicional aqui [na parede], e quando pressente que o Sinatra tá aqui do lado dele, ah, não tem jeito: FRANK SINATRA! [e faz o movimento de quem vira-se de lado e, sem querer, molha a calça do cantor] É... aí, molha...".

A piada foi um pretexto para ele dar uma canja, e na praia do Sinatra. Logo após a apresentação dos músicos, RC cantou um trechinho de The lady is a tramp.

A mescla entre texto e música (promovida pela competência de Ronaldo Bôscoli e Miéle) prosseguiu num pout-pourri que reuniu músicas bem sensuais ligadas por textos com apelo erótico. RC confessava querer ser "o galã do seu fio dental", e confessava já ter feito charme, "mas quem não fez?".

Na temporada de Detalhes, o público de Roberto Carlos foi apresentado ao arranjo primoroso de Cavalgada. Um número criado pelo maestro Eduardo Lages e que volta e meia faz parte dos shows de RC - sendo um dos mais aplaudidos.

Roberto também apresentaria a cantora mirim Gabriella para seu público. Os dois emocionariam a plateia ao interpretarem Imagine, numa homenagem a John Lennon. A menina estaria no especial de RC, para os dois repetirem este número. Anos mais tarde, Gabriella abandonou a carreira artística e hoje é personal trainer em Goiânia.

Em seu Roberto Carlos Especial, RC teria também como convidados a cantora Fafá de Belém (com quem cantou Como vai você?), os ex-integrantes do Balão Mágico que, depois do grupo, passaram a fazer a dupla Simony & Jairzinho (que cantaram seu sucesso, Coração de papelão) e o amigo Erasmo Carlos (os dois interpretaram Sentado à beira do caminho). Também foi convidada a bateria da escola de samba Unidos do Cabuçu, que acompanhou a banda de Roberto em Nêga.

Em 2 de fevereiro de 1987, a escola de samba desfilou na Marquês da Sapucaí toda a realeza de Roberto Carlos, no enredo Roberto Carlos no reino da fantasia. Todos os detalhes estiveram presentes na escola, como os carros Negro Gato, As Baleias e Café da Manhã (com direito a bule e xícara) e o fato da bateria estar vestida de verde e amarelo, como dizia a canção do fim de 1985. Com RC, a escola chegou ao sétimo lugar, até o momento a melhor colocação da Unidos do Cabuçu - hoje integrante do Grupo de Acesso.

O Roberto Carlos Especial daquele ano teve também a participação da atriz Myriam Rios, no clipe da canção Tô chutando lata, um "samba modestamente funkeado" (como RC o apresentou). Esta canção abria o disco daquele ano:

LADO A

1 - Tô chutando lata, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Menina, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Águia dourada, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Coisas do coração, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

5 - Canção do sonho bom, de Mauro Motta, Robson Jorge, Lincoln Olivetti, Ronaldo Bastos e Isolda

LADO B

1 - O careta, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Antigamente era assim, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Ingênuo e sonhador, de Maurício Duboc e Carlos Colla

4 - Aventuras, de Antônio Marcos e Mario Marcos

5 - Todo mundo está falando (Everybody's talking), de Fred Neil, com versão de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Além das duplas de compositores marcantes das últimas duas décadas (Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle e Maurício Duboc e Carlos Colla), Roberto voltou a interpretar uma música dos autores de Como vai você? - Aventuras, de Antônio Marcos e Mario Marcos. Também chamou atenção o fato de Canção do sonho bom ter sido escrita a dez mãos. Roberto e Erasmo trabalharam como versionistas de um grande sucesso de Fred Neil - e Everybody's talking continuou tendo sonhos de ir além do horizonte na tradução, intitulada Todo mundo está falando.

Uma das músicas do LP foi objeto de um processo de plágio do qual Roberto Carlos foi acusado alguns anos depois. Em 1990, o maestro de Niterói Sebastião Braga entrou na Justiça, alegando que a música O careta tinha melodia semelhante à de Loucuras de amor. Segundo o músico, a canção dele recebeu arranjo de Eduardo Lages em pessoa. Após um processo arrastado, em 2002 foi definido que Roberto Carlos e Erasmo Carlos seriam condenados a pagar uma quantia milionária, além de, nas próximas edições da canção, aparecer a coautoria de Braga.

Entretanto, em entrevista no jornal Extra, Sebastião Bragaa declarou sua intenção em publicar um livro sobre o processo judicial e batizá-lo de O rei do plágio. Roberto entrou com um processo por danos morais e conseguiu vitória na Justiça. Restou a ambas as partes selarem um acordo, no qual as duas ações foram retiradas e Sebastião Braga receberia R$ 320 mil (além de, em posteriores edições de O careta, aparecer ele como um dos autores da canção). Em 2005, Sebastião Braga morreu, vítima de um enfarte. Nas atuais edições do LP de 1987, a música O careta foi suprimida, e o disco tem nove canções.

Além do "samba modestamente funkeado" na abertura do disco, Roberto e Erasmo apresentaram um samba suave em Antigamente era assim. Além da 'mensagem' contra drogas de O careta (que, infelizmente, acabou passando por este imbróglio judicial que ofuscou a bela letra), RC falou sobre questões indígenas em Águia dourada. No ano seguinte, esta música seria tema de uma campanha da FUNAI.

Mas, dentre a variedade de temas apresentadas no LP de 1987, Roberto Carlos continuava marcante em sua veia de compositor: o amor. Amor que veio em forma de menina neste ano.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em registro do show Detalhes que foi para a contracapa do Roberto Carlos ao vivo. Mas isto é assunto para o próximo post.

Abraços a todos, Vinícius.

MENINA - Roberto e Erasmo

Menina, me ensina o que eu ainda não sei
Me fala de coisas que eu nunca te falei
Segredos me conta, me aponta, me diz
Me beija, me abraça, me faz feliz

Me olha, me embala, me pega do seu jeito
Me agarra, me esfrega, me aperta no seu peito
E quando na cama se deita, me ama
Se esquece de tudo num grande amor

Vive nos meus sonhos, mora em minha vida
Rola no meu corpo quando quer
Beija minha boca, dorme nos meus braços
Chamo de menina essa mulher

Te amo, menina, você não sabe quanto
Perdido me encontro na selva desse encanto
Às vezes, confusa, abusa de mim
O nosso amor é sempre assim

Sim, sim...

Te amo, menina, você não sabe quanto
Perdido me encontro na selva desse encanto
Às vezes, confusa, abusa de mim
O nosso amor é sempre assim

É sempre assim...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1986



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções prossegue sua saga de contar, ano a ano, cada momento de Roberto Carlos na Música Popular Brasileira. Esta é a forma do nosso blogue comemorar o cinquentenário de carreira de RC.

1986 ficou marcado por dois desastres que comoveram o mundo. O primeiro deles veio no espaço sideral. Em 28 de janeiro, o ônibus espacial Challenger explodiu no espaço, em virtude de um defeito nos tanques dos combustíveis. Todos os tripulantes morreram, dentre eles a professora Christa McAuliffe, que foi a primeira civil a viajar no espaço.

No dia 26 de abril, o mundo voltou os olhos para a região de Chernobyl. A cidade do interior da Ucrânia tinha uma usina nuclear, e uma explosão num dos reatores proporcionou uma imensa nuvem radioativa, que contaminou toda a cidade e destruiu o solo num raio de 200 mil quilômetros.

Numa tentativa de combater a inflação brasileira, o presidente José Sarney criou em 28 de fevereiro o Plano Cruzado. Além de mudar o nome da moeda de cruzeiro para cruzado, o plano previa congelamento de preços e salários pelo período de um ano. Surgiram os "fiscais do Sarney", cidadãos que, ao verem aumentos abusivos de preços, mandavam fechar estabelecimentos comerciais.

Novamente dirigida por Telê Santana, a Seleção Brasileira voltou da Copa do Mundo com o quinto lugar. O Brasil estreou na Copa do Mundo do México vencendo a Espanha por 1 a 0, com gol marcado por Sócrates. No segundo jogo, nova vitória por 1 a 0, com gol de Careca, diante da Argélia. Somente na última partida o Brasil teve uma vitória convincente: 3 a 0 contra a Irlanda do Norte, com dois gols de Careca e um de Josimar (o lateral do Botafogo tinha sido convocado no lugar de Leandro, do Flamengo, que pediu dispensa depois de seu companheiro de equipe, Renato Gaúcho, ter sido cortado por indisciplina).

O formato da competição se tornou diferente: em vez de uma segunda fase, os clubes iam se classificando e disputavam as vagas no formato do "mata-mata". Nas oitavas-de-final, a Seleção derrotou a Polônia por 4 a 0, com gols de Sócrates, Josimar, Edinho e Careca. Nas quartas, o Brasil empatou com a França em 1 a 1, com gols de Careca e Michel Platini. Zico perdeu um pênalti durante o jogo, e o empate levou para uma prorrogação (empatada em 0 a 0).

Nas cobranças de pênalti, o goleiro Carlos foi o primeiro prejudicado por uma mudança nas regras da FIFA: quando a cobrança de pênalti batia na trave e voltava, nem mesmo se ela batesse no corpo do goleiro e voltasse para o gol validaria a cobrança. Esta regra foi derrubada na Copa do Mundo de 1986. Numa das cobranças francesas, a bola bateu na trave, resvalou nas costas de Carlos e entrou. A França venceu por 4 a 3, com Fernández, Bellone, Amoros e Stopyra marcando para os franceses (Platini chutou para cima sua cobrança) e Branco, Zico e Alemão fazendo os gols brasileiros (Júlio César acertou a trave na primeira cobrança e Sócrates teve seu pênalti defendido pelo goleiro Bats).

O Campeonato Brasileiro continuou com a desorganização do ano anterior desde o começo - foram 80 os times presentes no campeonato. O regulamento previa que os 28 melhores clubes iriam para a próxima fase. Mas o Vasco entrou na Justiça Comum para pedir sua classificação, pois um dos classificados (o Joinville) teve um jogador pego no antidoping na partida contra o Sergipe. Os vascaínos se classificaram. Os catarinenses também entraram na Justiça e conseguiram sua classificação.

A Portuguesa seria eliminada, por uma irregularidade na venda de ingressos. Mas a atitude dos clubes paulistas, que ameaçaram abandonar o torneio se a Lusa fosse desclassificada aumentou o número de classificados para 33. Mas, como a CBF tinha dificuldade em organizar os grupos da nova fase, outros três times foram promovidos: Náutico, Sobradinho e Santa Cruz.

As últimas fases foram realizadas no sistema de "mata-mata". E, com a bagunça ocorrida no decorrer do torneio, somente em fevereiro de 1987 o Brasil conheceu o melhor clube de 1986. A final foi decidida entre dois times paulistas: Guarani e São Paulo. Após o empate em 1 a 1 na primeira partida, no Morumbi, os dois times empataram novamente em 2 a 2 no tempo normal do Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. O jogo foi para a prorrogação, e houve um novo empate, em 1 a 1. Nos pênaltis, o São Paulo venceu por 4 a 3 e ganhou seu segundo título brasileiro - mais uma vez nos pênaltis.

A TV Globo promoveu duas estreias no ano de 1986. Apresentadora de sucesso no Clube da criança, da TV Manchete, Xuxa Meneghel foi contratada pela Rede Globo para animar as manhãs com o Xou da Xuxa. No dia 28 de dezembro, foi exibida a primeira edição do programa Criança Esperança - como parte das comemorações pelos 20 anos do grupo Os Trapalhões.

Roberto Carlos apresentou seu especial de fim de ano dois dias depois do Criança Esperança. O Roberto Carlos Especial foi extremamente eclético, mostrando várias faces da Música Popular Brasileira. O samba e o pagode apareceram no Pagode do Rei, samba dedicado a Roberto e apresentado por Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra e o conjunto Fundo de Quintal. Estilo musical em ascensão nas rádios brasileiras, o sertanejo teve espaço através das duplas Christian & Ralph e Chitãozinho & Xororó e de Ranchinho.

Roberto convidou Tom Jobim para cantarem Estrada do sol e falarem sobre natureza, e, ao final, interpretou Dindi na companhia dos pianistas Eduardo Lages, Édson Frederico, Pedrinho Mattar, Luiz Eça e Eduardo Souto Neto. Mas também abriu espaço para o amigo Erasmo Carlos cantar uma música inédita daquele ano (Abra seus olhos, nome do LP que Erasmo lançou em 1986) para cantar sucessos como Emoções e Outra vez, além de apresentar clipes de algumas das canções lançadas em seu LP daquele ano. Eis as músicas lançadas em 1986:

LADO A

1 - Apocalipse, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Do fundo do meu coração, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Amor perfeito, de Michael Sullivan, Paulo Massadas, Robson Jorge e Lincoln Olivetti

4 - Quando vi você passar, de Mauro Motta e Isolda

5 - Eu sem você, de Maurício Duboc e Carlos Colla

LADO B

1 - Nêga, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - O nosso amor, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Tente viver sem mim, de Mauro Motta, Robson Jorge e Lincoln Olivetti

4 - Aquela casa simples, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Tente viver sem mim, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

A lista de compositores apresentou alguns compositores presentes nesta década de 1980, e com algumas "variações" de parceria. Mauro Motta e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti apareceram em duas canções. Além de uma canção feita pelos três, eles apareceram como autores em outras músicas. O produtor musical fez uma canção com Isolda em Quando vi você passar e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti apresentou outros dois compositores de grande destaque na década: a dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas. O quarteto fez a canção Amor perfeito.

Três canções da safra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos foram apresentadas no especial daquele ano. Um texto de Artur da Távola declamado por Glória Pires falou sobre apocalipse, e RC cantou a Apocalipse que abriu o LP. Em seguida, Roberto se aventurou no samba, inspirado com o que iria acontecer com ele no início de 1987 - Roberto Carlos seria tema da escola de samba Unidos do Cabuçu no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Sua retribuição ao ritmo foi a canção Nêga, apresentada em clipe que teve a participação da passista Fatinha.

Roberto Carlos voltou ao seu cotidiano em Cachoeiro, com a música Aquela casa simples. O clipe foi antecedido por um texto do conterrâneo Rubem Braga narrado por Patrícia Pillar. No último bloco do programa, RC declamou um texto de Ferreira Gullar sobre o Brasil, e, na companhia de várias crianças, foi a Brasília apresentar A guerra dos meninos.

No LP daquele ano, Roberto ainda apresentou duas canções melancólicas de sua autoria: O nosso amor e aquela que é uma das melhores canções sobre uma desilusão amorosa. Afinal, é uma canção feita do fundo do coração até em seu título.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos, no registro presente na parte interna do LP de 1986.

Abraços a todos, Vinícius.

DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO - Roberto e Erasmo

Eu, cada vez que vi você chegar,
Me fazer sorrir e me deixar
Decidido, eu disse nunca mais
Mas, novamente estúpido provei
Desse doce amargo quando eu sei
Cada volta sua o que me faz

Vi todo o meu orgulho em sua mão
Deslizar, se espatifar no chão
Vi o meu amor tratado assim
Mas, basta agora o que você me fez
Acabe com essa droga de uma vez
Não volte nunca pra mim

Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui
E sei que vou chorar a mesma dor

Agora eu tenho que saber
O que é viver sem você

Eu, toda vez que vi você voltar,
Eu pensei que fosse pra ficar
E mais uma vez falei que sim
Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim

Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui
E sei que vou chorar a mesma dor

Se você me perguntar se ainda é seu
Todo o meu amor, eu sei que eu
Certamente vou dizer que sim
Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim

Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim...

P.S.: um Feliz Dia dos Namorados a todos os apaixonados que acessam este blogue. Afinal, se vocês estão aqui lendo sobre Roberto Carlos, certamente é porque são muito apaixonados.