quarta-feira, 10 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1985



Olá, amigos.

Prosseguindo a série 50 anos de emoções, este blogue hoje apresenta mais um momento da trajetória musical de Roberto Carlos. Desta vez, para contarmos um ano de muita frustração.

Em 1985, o mundo identificou pela primeira vez o buraco da camada de ozônio. A União Soviética já dava margens de enfraquecimento de seu regime, e neste ano um nome importante nos momentos seguintes do comunismo teria sua ascensão à secretaria-geral do Partido Comunista: Mikhail Gorbatchov.

O futebol nacional passou por um Campeonato Brasileiro muito confuso. As Taças de Ouro e de Prata se fundiram num campeonato só, com clubes de vários estados brasileiros se juntando aos 20 melhores do país (além de Remo e Uberlândia, campeão e vice da Taça de Prata de 1984). O regulamento esdrúxulo proporcionou uma zebra nas três primeiras colocações do torneio: o Brasil de Pelotas foi o semifinalista, e, na final, o paranaense Coritiba e o carioca Bangu decidiram quem seria o melhor do país em 1985.

Depois de muitas décadas, o Maracanã abriu as portas para uma final sem nenhum dos quatro grandes clubes cariocas. Todas as torcidas do Rio se uniram para apoiar o Bangu na busca pelo inédito título brasileiro. Mas, após o empate em 1 a 1 (gol de Lulinha para o time banguense e de Índio para o "Coxa") no tempo normal, o Coritiba se sagrou campeão ao vencer nos pênaltis por 6 a 5 - o goleiro Rafael defendeu o pênalti cobrado por Ado. O Coritiba foi o melhor do Brasil com uma campanha irregular - 12 vitórias, sete empates e 10 derrotas, e um saldo negativo de dois gols.

Após 21 anos, o Brasil saiu do regime militar e deu posse ao primeiro presidente civil (mesmo que eleito de uma forma indireta). Só que Tancredo Neves foi operado de diverticulite, e a 21 de abril, morreria sem ter sentado na cadeira presidencial. O vice, José Sarney, tomaria posse para um mandato instável.

Agora com 20 anos de existência, a TV Globo novamente abriu espaço em sua programação a um festival de música: o Festival dos festivais. A vencedora do ano foi a romântica Escrito nas estrelas (assinada por Carlos Rennó e Arnaldo Blck), que consagrou também a intérprete Tetê Espíndola. O segundo lugar ficou com a música Mira Ira, de Lula Barboza e e Vanderley de Castro, na voz de Miriam Mirah. A cantora Leila Pinheiro deu o terceiro lugar a Verde, de Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto.

A emissora conseguiu fazer a estreia mais esperada de sua história. Dez anos depois da censura proibir a novela A fabulosa história de Roque Santeiro e de sua fogosa viúva, a que foi sem nunca ter sido pôde ser exibida. Roque Santeiro estreou em 24 de junho, e apresentou o Brasil ao cotidiano da cidade de Asa Branca, na novela escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva.

Dois atores de destaque da novela seriam convidados do Roberto Carlos Especial ao final de 1985, em momentos poéticos do programa. O ator Lima Duarte (que vivia o Sinhozinho Malta) declamou Caminhoneiro e, ao final, ainda fez um dueto com RC interpretando o refrão da canção. Regina Duarte (a Viúva Porcina) declamou o poema Inéditos, de Bruna Lombardi, enquanto Roberto, ao piano, cantava Olha.

O humor também esteve presente no especial deste ano. Jô Soares apresentou a Roberto o "corrupto", ave rara que ele conseguiu aprisionar, enquanto o trambiqueiro Bozó e seu próprio criador, Chico Anysio, fizeram um quadro com RC.

Após relembrar os tempos da Jovem Guarda cantando Jovens tardes de domingo com cantores do movimento (como Erasmo, Wanderléa, Martinha, Waldirene, Ed Wilson, Os Vips e tantos outros), Roberto e Erasmo Carlos apareceram criando uma canção e, no decorrer do papo, puxaram dois assuntos musicais. No primeiro deles, relembraram os tempos da Praça da Bandeira e do grupo Os Sputincks, e RC cantou com Tim Maia a música Pede a ela. Ao falar sobre a "geração do BRock", Roberto apareceu cantando o rock Ciúme ao lado do grupo Ultraje a Rigor.

Roberto Carlos abriu seu programa para Milton Nascimento e Wagner Tiso. Milton interpretou Canção da América e, depois, conversou com Roberto sobre a música Coração de estudante. Feita originalmente para o documentário Jango, esta canção ganhou uma conotação diferente em 1985: foi a música associada a Tancredo Neves. Roberto interpretou a música, tendo Milton Nascimento no vocal e Wagner Tiso ao piano.

O cantor também esteve presente num movimento musical solidário. Um grupo de artistas se reuniu para gravar um compacto com a renda revertida para ajuda financeira aos desabrigados pela chuva no Nordeste. Além de ser um dos autores da música, Roberto interpretou Chega de mágoa, na faixa que teve como intérpretes Milton Nascimento, Djavan, Rita Lee, Gal Costa, Gonzaguinha, Elba Ramalho, Chico Buarque, Simone, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Paula Toller, Roger, Tim Maia, Elizeth Cardoso, Gilberto Gil, Erasmo Carlos e Fagner.

Se no ano anterior Caminhoneiro tocou três mil vezes nas rádios somente no primeiro dia, no ano de 1985 Roberto superou seu próprio recorde. A música de trabalho, Verde e amarelo, tocou por 3.500 vezes em rádios de todo o país. Eis o repertório do disco:

LADO A

1 - Verde e amarelo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - De coração pra coração, de Mauro Motta, Robson Jorge, Lincoln Olivetti e Isolda

3 - Só vou se você for, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Paz na Terra, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Contradições, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

LADO B

1 - Pelas esquinas da nossa casa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Símbolo sexual, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - A atriz, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Você na minha mente, de Mauro Motta, Robson Jorge, Lincoln Olivetti e Carlos Colla

5 - Da boca pra fora, de Maurício Duboc e Carlos Colla

Alguns "compositores" constantes de Roberto Carlos tiveram presenças mais marcantes na lista gravada ao final de 1985. O produtor Mauro Motta apareceu como autor em duas canções - ambas na companhia dos músicos Robson Jorge e Lincoln Olivetti, mas com mudanças no "quarto autor" da lista. Isolda ajudou os três em De coração pra coração, e Carlos Colla contribuiu como autor em Você na minha mente. Carlos Colla encerrou o LP na companhia de Maurício Duboc, com a canção Da boca pra fora. O maestro Eduardo Lages fez os arranjos de boa parte do disco, e ainda contribuiu como autor com a música Contradições, feita em parceria com Paulo Sérgio Valle.

A safra de Roberto e Erasmo prosseguia em seu romantismo, mas cada vez mais escancarado em sua sensualidade. Até a música de fim de amor Só vou se você for falava com um tom mais ousado. Pelas esquinas da nossa casa falou sobre a intimidade de um casal e sua rotina em todos os cantos de casa. Símbolo sexual (que seria a décima canção do LP do ano anterior) dialogava com as tendências da moda mostrada nas capas de revista ou na televisão - no especial da TV Globo, a música rendeu um clipe com a modelo Luiza Brunet.

E em A atriz, Roberto Carlos explicitou o cotidiano de um marido de uma atriz, numa homenagem explícita à esposa, Myriam Rios. Na época, a atriz estava no ar na novela Ti-ti-ti, fazendo o papel de Gabriela. No clipe da canção, apareceram algumas cenas dela na trama de Cassiano Gabus Mendes, contracenando com o ator Paulo Castelli (que interpretava Pedro, seu par romântico na novela das 19h).

A mensagem religiosa esteve presente nos versos de Paz na Terra, uma bela canção de apelo por tempos sem guerra que merecia ser mais lembrada na discografia de RC. Mas em 1985, Roberto Carlos deu mais destaque ao seu lado ufanista. Na época, o produtor Miéle tentou dissuadir o cantor da ideia de lançar esta canção, por medo de que ele fosse criticado pela esquerda brasileira, que outrora patrulhou o cantor Ivan Lins e a dupla Dom & Ravel por terem escrito músicas em homenagem ao Brasil - Ivan, com O amor é o meu país e Dom & Ravel com Eu te amo, meu Brasil.

Roberto Carlos respondeu que seu público sabe que ele não defende bandeiras políticas, e sempre costuma "cantar sua verdade". E ele abriu o peito em verde e amarelo. Nos shows que fazia, ele abria o paletó e mostrava uma camisa com as cores da canção que abriu o disco de 1985.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos ao final de seu show naquela época.

Abraços a todos, Vinícius.

VERDE E AMARELO - Roberto e Erasmo

Boto fé
Não me iludo
Nessa estrada ponho o pé
Vou com tudo

Terra firme, livre, tudo o que eu quis do meu país
Onde eu vou vejo a raça
Forte no sorriso da massa
A força desse grito que diz:`É meu país`

Verde e amarelo...
Verde e amarelo...

Sou daqui, sei da garra
De quem encara o peso da barra
Vestindo essa camisa feliz
Do meu país

Tudo bom, tudo belo
Tudo azul e branco
Verde e amarelo
Toda a natureza condiz com o meu país

Verde e amarelo...
Verde e amarelo...

Só quem leva no peito
Esse amor, esse jeito
Sabe bem o que é ser brasileiro
Sabe o que é

Verde e amarelo...
Verde e amarelo...

Bom no pé, deita e rola
Ele é mesmo bom de samba e de bola
Que beleza de mulher que se vê
No meu país

É Brasil, é brasuca
Esse cara bom de papo e de cuca
Tiro o meu chapéu, peço bis
Pro meu país

Verde e amarelo...
Verde e amarelo..

Verde e amarelo
É a camisa que eu visto
Verde e amarelo
Azul e branco também

Verde e amarelo
É Brasil, é brasuca
Verde e amarelo

Boto fé, não me iludo
Neste estrada ponho o pé
Vou com tudo...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1984



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua apresentando, post a post, cada um dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. Hoje, chegamos aos 25 anos deste meio século da estrada de RC na Música Popular Brasileira.

O ano de 1984 apresentou uma revolução tecnológica: a Apple lançou o computador MacIntosh, que popularizou a parte gráfica e passou a ser usado em tratamento de vídeos, de imagens e de som. Até hoje, o Mac se destaca dentre os computadores.

No dia 26 de setembro, Reino Unido e China realizaram um tratado muito favorável para o país asiático. Foi definido que Hong Kong passaria a pertencer à China no ano de 1997.

Em 1984, o Brasil viu a chance de volta à plena democracia ser desperdiçada no Congresso Nacional. A Emenda Constitucional Dante de Oliveira propunha que o povo brasileiro pudesse votar para presidente já na próxima eleição (em novembro do mesmo ano). Pelo país surgiram comícios, protestos e campanhas pelas Diretas Já. No entanto, mesmo com vitória por 298 votos a 65 (com três abstenções), os brasileiros não puderam votar para presidente. 112 deputados não compareceram, e a emenda não foi aprovada por falta de um quórum mínimo para a vitória.

Um Colégio Eleitoral formado por deputados e senadores decidiu o futuro do Brasil no dia 15 de novembro. Tancredo Neves, do PMDB, derrotou Paulo Maluf e passaria a ser o novo presidente a partir de 1985.

Na Taça Libertadores da América, o Grêmio novamente chegaria a final, mas desta vez não ficaria com o título. O argentino Independiente sagrou-se campeão após vencer o tricolor gaúcho por 1 a 0 no Estádio Olímpico e os times empatarem em 0 a 0 no Estádio Avellaneda. Foi o sétimo título da equipe argentina.

O Campeonato Brasileiro teve, pela primeira vez, uma final entre duas equipes do Rio de Janeiro. Fluminense e Vasco disputaram a final do torneio, e o tricolor carioca conquistou seu primeiro título. No primeiro jogo, o Fluminense venceu o Vasco por 1 a 0, com gol marcado por Romerito. A partida final terminou empatada em 0 a 0, resultado que levou a taça para as Laranjeiras.

Roberto Carlos começou seu especial tendo como fio condutor a música que puxou seu disco: Caminhoneiro, que, no dia de seu lançamento, tocou três mil vezes nas rádios do país. Roberto cantava a canção e, na estrada, encontrava o amigo Erasmo Carlos, dava carona à menina Simony (que, com a Turma do Balão Mágico, cantavam com ele a música É tão lindo, que RC interpretou em faixa para o LP deles). Numa parada num posto, Roberto e Erasmo encontravam o conjunto Blitz e cantavam sucessos da Jovem Guarda. Após estes primeiros momentos, o programa mostrava parte de um show gravado no Maracanãzinho.

Para seu disco daquele ano, RC tinha um novo produtor musical. Evandro Ribeiro (que produzira seus LPs nos últimos 20 anos) se afastou por motivos de saúde. Em seu lugar, o assistente de produção Mauro Motta - já conhecido do grande público por ser um dos "compositores de Roberto Carlos" - foi elevado ao cargo de produtor do LP. Curiosamente, a música de trabalho mudou de estilo: em vez de um tema amoroso, Roberto chegou às rádios cantando uma homenagem aos caminhoneiros. E, pela primeira vez, RC lançou um LP com nove músicas. Eis o repertório:

LADO A

1 - Coração, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Eu e ela, de Mauro Motta, Robson Jorge e Lincoln Olivetti

3 - Aleluia, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Lua Nova, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Cartas de amor (Love letters), de Victor Young e Edward Heyman, com versão de Lourival Faissal

LADO B

1 - Caminhoneiro (Gentle on my mind), de John Hartford, Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Eu te amo (And I love her), de John Lennon e Paul McCartney, com versão de Roberto Carlos

3 - Sabores, de Mauro Motta e Cláudio Rabello

4 - As mesmas coisas, de Maurício Duboc e Carlos Colla

Além da presença de Mauro Motta na produção, seu nome apareceu em duas canções, e trazendo parceiros novos. Em Eu e ela, o público passava a conhecer um nome constante nos arranjos de RC a partir da segunda metada da década de 1980: Robson Jorge e Lincoln Olivetti. Os dois foram responsáveis pela inserção de teclados e instrumentos eletrônicos nos arranjos dos discos de Roberto. Em Sabores, a coautoria foi de Cláudio Rabello (autor de músicas bem sucedidas como Espelhos d'água, em parceria com Dalto). A dupla Maurício Duboc e Carlos Colla continuou presente, encerrando o disco trazendo a melancólica As mesmas coisas.

As versões também fizeram parte deste LP de RC. Primeiro, através da versão de Lourival Faissal para Love letters, que se tornou Cartas de amor. E a segunda, através das letras do próprio Roberto, que contou sobre ela no especial daquele ano:

"A obra de um homem pode ser imortal. Eu fiz uma versão de uma canção de John Lennon e Paul McCartney. E batizei com uma frase que Lennon disse muito em sua vida: EU TE AMO".

A música original era And I love her. Inicialmente, Roberto queria a presença de Paul na faixa do LP, mas, por questões de agenda, este grande encontro não aconteceu.

A safra de Roberto e Erasmo continuou trazendo belas músicas, a maioria delas apresentada logo no primeiro lado do LP. A canção escolhida para a abertura foi a sincera Coração. A mensagem religiosa se transformou em louvor nos versos de Aleluia. E na quarta faixa do lado A, uma grata surpresa: uma despretensiosa balada intitulada Lua Nova, mais uma das muitas canções que ainda merecem ser descobertas.

A música mais tocada deste ano de 1984 traz um detalhe: atualmente, ela é também creditada a John Hartford. O motivo é o seguinte: algum tempo depois, foi descoberta a semelhança entre a melodia de Caminhoneiro e da música Gentle on my mind em oito notas. Um ex-tecladista da banda de Roberto Carlos gravou um disco só de músicas instrumentais e, na edição, apareceu creditado como uma versão da música americana - por sinal, o primeiro grande sucesso de Hartford, que rendeu dois Grammy graças à gravação de Glen Campbell.

Com isto, houve um acordo para que, nas próximas edições, constasse o nome do autor dela como coautor da melodia de Caminhoneiro. E com 25 anos de carreira, Roberto Carlos continuava todo dia nesta estrada, correndo ao encontro de novas músicas para emocionar o seu público.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos na boleia do caminhão que usou no clipe da canção.

Abraços a todos, Vinícius.

CAMINHONEIRO (Gentle on my mind) - John Hartford, Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Todo dia quando eu pego a estrada
Quase sempre é madrugada
E o meu amor aumenta mais

Porque eu penso nela no caminho
Imagino seu carinho
E todo o bem que ela me faz

A saudade então aperta o peito
Ligo o rádio e dou um jeito
De espantar a solidão

Se é de dia eu ando mais veloz
E à noite todos os faróis
Iluminando a escuridão

Eu sei
Tô correndo ao encontro dela
Coração tá disparado
Mas eu ando com cuidado
Não me arrisco na banguela

Eu sei
Todo dia nessa estrada
Do volante eu penso nela
Já pintei no parachoque
Um coração e o nome dela

Já rodei o meu país inteiro
Como bom caminhoneiro
Peguei chuva e cerração

Quando chove o limpador desliza
Vai e vem no parabrisa
E bate igual, meu coração

Doido pelo doce do seu beijo
Olho cheio de desejo
Seu retrato no painel

É no acostamento dos seus braços
Que eu desligo meu cansaço
E me abasteço desse mel

Eu sei
Tô correndo ao encontro dela
Coração 'tá disparado
Mas eu ando com cuidado
Não me arrisco na banguela

Eu sei
Todo dia nessa estrada
No volante eu penso nela
Já pintei no parachoque
Um coração e o nome dela

Todo dia quando eu pego a estrada
Quase sempre é madrugada
E o meu amor aumenta mais

Olho o horizonte e vou em frente
Tô com Deus e vou contente
Meu caminho eu sigo em paz

Eu sei
Tô correndo ao encontro dela
Coração tá disparado
Mas eu ando com cuidado
Não me arrisco na banguela

Eu sei
Todo dia nessa estrada
No volante eu penso nela
Já pintei no parachoque
Um coração e o nome dela

O nome dela...
O nome dela...

sábado, 6 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1983



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções prossegue sua saga, trazendo ano por ano cada detalhe do cinquentenário de carreira de Roberto Carlos. E o ano de hoje é bastante especial.

Afinal, em agosto de 1983 este que vos escreve chegou ao mundo. RC ganhava mais um amigo que alguns anos depois dedicaria um blogue chamado Emoções de Roberto Carlos para ele.

Neste ano, uma ditadura na América Latina chegou ao final. O presidente Raul Alfonsín tomou posse da presidência da Argentina, substituindo Reynaldo Bignone, que tinha ido para o poder através de indicação dos militares argentinos. Na contramão da paz mundial, em outubro o presidente Ronald Reagan ordenou que os Estados Unidos invadissem a Ilha de Granada (a maior invasão desde a Guerra do Vietnã). A intenção era tomar de Cuba o controle do tráfego marítimo na região.

No Brasil, os governadores eleitos através do voto direto tomaram posse em seus estados. Eles chegaram ao poder na mesma época em que o cruzeiro chegava ao seu maior momento de desvalorização. A era do 'milagre brasileiro' há algum tempo já havia perdido seu toque de Midas. Na área sindicalista, houve um progresso para o proletariado: a fundação da Central Única dos Trabalhadores.

O país passou a ter em 1983 uma nova opção de canal de televisão. Em 5 de junho de 1983, Adolfo Bloch fundou a Rede Manchete, que ocupou o canal 6 no Rio de Janeiro. No mês seguinte, a Manchete proporcionou a estreia da apresentadora Xuxa Meneghel, responsável pelo comando do Clube da criança.

Mais uma vez o Brasil chegou ao topo da América no futebol. Desta vez, o Grêmio sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América, derrotando o Peñarol nos dois jogos finais. A primeira partida, no Uruguai, teve empate em 1 a 1 (Tita fez o gol brasileiro e Morena marcou para os uruguaios), e, no jogo decisivo, o tricolor gaúcho venceu por 2 a 1, com gols de Caio e César, com Morena descontando.

O Grêmio se tornou "o melhor do mundo" em dezembro daquele ano, ao vencer o Hamburgo da Alemanha na partida em Tóquio. No tempo normal, a partida terminou empatada em 1 a 1 (Renato Gaúcho e Schroder marcaram os gols do jogo). Aos dois minutos do primeiro tempo da prorrogação, Renato Gaúcho fez o gol do título gremista.

O Campeonato Brasileiro teve pela terceira vez o Flamengo como campeão. Desta vez, o time venceu o Santos nos dois jogos decisivos. A equipe santista derrotou os rubro-negros por 2 a 1 no jogo do Morumbi (gols de Pita e Serginho Chulapa, com Baltazar descontando), mas o Flamengo conquistou o título com uma vitória por 3 a 0 no Maracanã, com gols de Zico, Leandro e Adílio.

Roberto Carlos continuava com o show Emoções, mas desta vez ele teve uma proporção maior. Em 1983, ele se tornou o "Projeto Emoções", no qual RC fez uma excursão grande para a época, fazendo shows pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. O Roberto Carlos Especial daquele ano começou com comentários sobre esta nova empreitada:

"A bordo de um avião especialmente fretado, ele partia para uma turnê por 19 cidades brasileiras. Junto com ele, uma caravana de 105 pessoas e mais 70 toneladas de equipamento".

Roberto foi visto por quase um milhão de pessoas, em ginásios e estádios de todo o Brasil. O especial daquele ano foi gravado no Ibirapuera, em São Paulo. Além de cantar músicas de ontem e de hoje, RC recebeu o amigo Erasmo Carlos, o cantor Djavan e a cantora Gal Costa.

Em 1983, Roberto Carlos continuava cantando o amor. Mas na canção que abriu seu LP, ele dizia que "o amor é a moda". Eis o repertório do disco:

LADO A

1 - O amor é a moda, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Recordações e mais nada, de Roberto Carlos e Fred Jorge

3 - Estou aqui, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Preciso de você, de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro

5 - Me disse adeus, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

LADO B

1 - Você não sabe, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - O côncavo e o convexo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - No mesmo verão, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Perdoa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - A partir desse instante, de Maurício Duboc e Carlos Colla

As duplas de "compositores de Roberto Carlos" não tinham novidades, mas foi RC que protagonizou uma mudança em sua parceria. A faixa Recordações e mais nada trouxe uma parceria sua com Fred Jorge (versionista da Jovem Guarda e autor de músicas que Roberto gravou na década de 1970).

O intimismo foi marcante neste LP de 1983, desde a religiosa Estou aqui, passando pelo pedido de desculpas de Perdoa até a primorosa Você não sabe. A sensualidade continuou presente com a irresistível No mesmo verão. Mas outra canção que apresentava uma letra mais ousada é que chamou atenção. Nem tanto pelo erotismo quase íntimo, na verdade, mais por dizer em letra e música sobre a coincidência total do côncavo e o convexo.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos durante a turnê do "Projeto Emoções".

Abraços a todos, Vinícius.

O CÔNCAVO E O CONVEXO - Roberto e Erasmo

Nosso amor é demais e quando amor se faz
Tudo é bem mais bonito
Nele a gente se dá muito mais do que está
E o que não está escrito

Quando a gente se abraça, tanta coisa se passa
Que não dá pra falar
Nesse encontro perfeito, entre o seu e o meu peito
Nossa roupa não dá

Nosso amor é assim, pra você e pra mim
Como manda a receita
Nossas curvas se acham, nossas formas se encaixam
Na medida perfeita

Esse amor é pra nós a loucura que traz
Esse sonho de paz e é bonito demais
Quando a gente se beija, se ama e se esquece
Da vida lá fora

Cada parte de nós tem a forma ideal
Quando juntas estão, coincidência total
Do côncavo e convexo
Assim é nosso amor, no sexo...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1982



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções traz hoje mais um post nesta extensa série em homenagem ao cinquentenário de carreira de Roberto Carlos. Em cada postagem, este blogue apresenta um ano de RC no cenário musical brasileiro.

Em 1982, Inglaterra e Argentina protagonizaram a Guerra das Malvinas. Os dois países disputavam a posse das ilhas austrais e de Sandwich do Sul, vistas como "credibilidade nacional" e uma posição estratégica para o tráfego marítimo. Os argentinos atacaram em 2 de abril e, durante dois meses, fizeram confronto. Em 18 de junho, o conflito acabou, com a vitória inglesa.

O Brasil teve, em 15 de novembro, eleições diretas gerais, à exceção da presidência. Na eleição do estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola foi eleito governador mesmo depois de uma tentativa de fraude eleitoral. Um regime de informações de apuração de votos feita pela empresa Proconsult tentou transferir os votos nulos ou em branco diretamente para o adversário, Moreira Franco. Brizola conseguiu comprovar a fraude com a ajuda do Jornal do Brasil, e tomou posse do cargo estadual.

A Seleção Brasileira teve uma das suas maiores decepções em Copas do Mundo. O futebol-arte da equipe treinada por Telê Santana encantava o mundo nos gramados da Espanha desde a primeira fase - quando derrotou os adversários União Soviética (2 a 1), Escócia (4 a 1) e Nova Zelândia (4 a 0). Na triangular, com a vitória por 3 a 1 sobre a Argentina e a Itália tendo vencido os argentinos por 2 a 1, bastava um empate para o Brasil passar de fase. No entanto, a arte de nomes como Falcão, Sócrates e Zico foi superada pela retranca e pelas botinadas da seleção italiana e, com três gols de Paolo Rossi, a Itália venceu o Brasil por 3 a 2. Os italianos seriam os campeões na Espanha ao, na final, vencerem a Alemanha Ocidental por 3 a 1.

Após ter sido eliminado nas semifinais da Taça Libertadores da América, o Flamengo ganhou nova chance de disputar o torneio no ano seguinte, ao ser vencedor pela segunda vez do Campeonato Brasileiro. O time rubro-negro precisou de três partidas para superar o Grêmio na final. No primeiro, realizado no Maracanã, os dois times empataram em 1 a 1 (gols de Zico e Tonho). No segundo, no Olímpico, novo empate, desta vez em 0 a 0. A partida decisiva foi realizada também em Porto Alegre, e foi muito questionada pela torcida gremista: em um lance, um jogador gremista chutou a bola e o volante Andrade tirou a bola do gol com a mão - coisa que passou despercebida pelo árbitro e pelo bandeirinha. O Flamengo venceu o jogo por 1 a 0, com gol marcado por Nunes.

A TV Globo mais uma vez levou para o Maracanãzinho um festival de Música Popular Brasileira. No MPB Shell 82, o cantor Emílio Santiago deu a vitória à canção Pelo amor de Deus, de Paulinho Rezende e Paulo Debétio. Esta foi a última edição do MPB Shell.

Roberto Carlos mais uma vez chegou ao fim do ano com um novo disco e um especial. Desta vez, o programa foi dedicado a Charles Chaplin (que, cinco anos antes, morreu numa véspera de Natal). Roberto cantou Emoções vestido de Carlitos e em muitos números nos quais ele se apresentou tinha a companhia de grupos de balé. RC também apresentou cantoras interpretando músicas de seu repertório, como Jane Duboc, Zizi Possi, Joyce e Joanna.

As músicas daquele ano estiveram presentes através de clipes. Fim de semana, uma canção com o cotidiano de um homem divorciado com seus filhos, foi apresentada num circo, onde RC estava sentado em um calhambeque dando carona aos filhos Ana Paula, Luciana e Segundinho. Em Meus amores da televisão, Roberto cantava num saloon digno de filmes de faroeste, e era surpreendido pela participação das atrizes Irene Ravache, Carla Carmuratti, Bruna Lombardi, Christiane Torloni, Lídia Brondi, Débora Bloch e Regina Duarte - ao final, acontecia uma cena engraçadíssima na companhia de Erasmo Carlos e Reginaldo Faria.

Erasmo apresentou sua canção Mesmo que seja eu e Maria Bethânia reverenciou Chaplin ao interpretar Luzes da ribalta. Ao final do número, Roberto ia até ela, e os dois cantavam o clipe da música Amiga.

Este dueto foi o primeiro registro fonográfico no qual RC abriu espaço para dividir os vocais. O especialíssimo encontro abriu o LP de 1982, que trouxe o seguinte repertório:

LADO A

1 - Amiga, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (participação de Maria Bethânia)

2 - Coisas que não se esquece, de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro

3 - Fim de semana, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Pensamentos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Quantos momentos bonitos, de Maurício Duboc e Carlos Colla

LADO B

1 - Meus amores da televisão, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Fera ferida, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Como é possível, de Sérgio Sá e Isolda

4 - Recordações, Édson Ribeiro e Helena dos Santos

5 - Como foi..., de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

Um dado curioso com relação a Amiga: sempre foi tradição RC lançar um disco para o mercado brasileiro e no início do ano seguinte gravar para o mercado latino um LP somente com versões em castelhano. A canção que abriu o disco de 1982 não fugiu a esta regra, mas em 1983 a música Amigos (título dado por Luiz Gomez Escolar à versão) teve outro dueto de RC: a "amiga" foi a cantora Ana Belén.

Além das duplas constantes de meados da década de 1970 (Mauro Motta e Eduardo Ribeiro, Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle e Maurício Duboc e Carlos Colla), a dupla da época da Jovem Guarda Édson Ribeiro e Helena dos Santos retornou, na melancólica Recordações. Somente a canção Como é possível não falou sobre fim de amor dentre as músicas de outros compositores.

A safra de Roberto e Erasmo trouxe um tom irreverente sobre a rotina de alguém que adora novelas, em Meus amores da televisão. A leveza também apareceu em Fim de semana, que demonstra a felicidade de um pai com seus filhos.

Em vez de falar diretamente sobre Deus ou Jesus, a "mensagem" do disco falou mais aprofundadamente sobre sentimentos que devem permanecer na busca pela paz, na canção Pensamentos. Mas foi a segunda canção do lado B do LP que pareceu um grito de alerta de Roberto Carlos.

Na época em que muitos reclamavam que Roberto Carlos não mudava, ele abria o peito para dizer "não vou mudar, esse caso não tem solução". A "fera ferida" escancarava sua alma em letra e música.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos vestido de Charles Chaplin. No Roberto Carlos Especial deste ano, ele fez um clipe com este figurino, contracenando com sua esposa na época (a atriz Myriam Rios) e cantando Cama e mesa, em cena típica dos filmes de Carlitos.

Abraços a todos, Vinícius.

FERA FERIDA - Roberto e Erasmo

Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída

Mas saí ferido
Sufocando meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido

Animal arisco
Domesticado esquece o risco
Me deixei enganar
E até me levar por você

Eu sei quanta tristeza eu tive
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor

Eu sei, o coração perdoa
Mas não esquece à toa
E eu não me esqueci

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração

Eu andei demais
Não olhei pra trás
Era solto em meus passos
Bicho livre, sem rumo, sem laços

Me senti sozinho
Tropeçando em meu caminho
À procura de abrigo
Uma ajuda, um lugar, um amigo

Animal ferido
Por instinto decidido
Os meus rastros desfiz
Tentativa infeliz de esquecer

Eu sei que flores existiram
Mas que não resistiram
A vendavais constantes

Eu sei que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
O que eu não me esqueci

Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração...

terça-feira, 2 de junho de 2009

50 anos de emoções - 1981



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções apresenta mais um post que mostra um ano no qual Roberto Carlos esteve presente no cenário musical brasileiro. É a forma do Emoções de Roberto Carlos homenagear o cinquentenário da carreira de RC, completados este ano.

1981 foi um ano cercado de atentados em todos os lugares do mundo. Oito anos depois de sua reeleição, o presidente do Egito, Anwar Sadat, foi assassinado. Em seu lugar entrou Hosni Mubarak. Nem mesmo a Santidade ficou isenta de uma tentativa de homicídio. No dia 13 de maio, o Papa João Paulo II foi atingido por duas balas disparadas pelo turco Mehmet Ali Agca.

No Brasil, os grupos radicais militares continuavam realizando atentados pelo país. O mais grave deles foi o caso Riocentro. O centro de convenções realizava o "Show do Primeiro de Maio", com a presença de artistas como Caetano Veloso, Alceu Valença, Chico Buarque, Gal Costa, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Elba Ramalho, dentre outros.

Uma bomba explodiu dentro de um Puma que estava estacionado perto do local, matando o sargento Guilherme Ferreira do Rosário (que estava com ela no colo) e ferindo o capitão Wilson Luiz Chaves Machado (que dirigia o carro). O objetivo era preparar a bomba para que ela explodisse durante o evento e depois se atribuísse o atentado ao grupo de esquerda Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). O fracasso do atentado e a tentativa patética de dizer que a bomba do carro foi colocada por comunistas acelerou ainda mais o processo do fim do regime militar.

Numa Taça Libertadores da América esvaziada porque os times argentinos usaram equipes reservas, o brasileiro Flamengo e o chileno Cobreloa chegaram à disputa do título do campeonato. E os flamenguistas levaram a melhor. Após uma vitória por 2 a 1 no Maracanã e uma derrota por 1 a 0 no Estádio Nacional, o Flamengo venceu o jogo decisivo, no Estádio Centenário (no Uruguai), pelo placar de 2 a 0. Os dois gols de Zico levaram o time rubro-negro à disputa do Mundial Interclubes.

Desde o ano anterior, o formato da disputa entre o melhor da América e o melhor da Europa estava diferente. Em vez de uma final na "casa" de cada time, o "melhor do mundo" era conhecido em uma só partida, realizada em Tóquio, no Japão (terra da empresa Toyota, que patrocinava o evento). Com três gols no primeiro tempo - dois de Nunes e um de Adílio - o Flamengo venceu o inglês Liverpool por 3 a 0 e se sagrou campeão mundial de 1981.

Em terras brasileiras, Grêmio e São Paulo chegaram à final do Campeonato Brasileiro. Os gaúchos levaram a melhor, com uma vitória por 2 a 1 no Estádio Olímpico (com dois gols de Paulo Isidoro e Serginho Chulapa descontando para os são-paulinos) e novo triunfo diante dos paulistas no Morumbi, com Baltazar fazendo o gol do título.

No ano seguinte ao fim da TV Tupi, o país conheceu uma nova emissora de televisão. Em 19 de agosto de 1981, o Sistema Brasileiro de Televisão teve sua primeira transmissão. Seu presidente, Sílvio Santos, vinha aí, para começar uma nova história na televisão brasileira.

A TV Globo apresentou uma nova edição de festival da Música Popular Brasileira. O MPB Shell 81 relembrou os bons e os maus tempos da "era dos festivais". De bom, veio a emoção com a qual Guilherme Arantes levantou o Ginásio do Maracanãzinho com sua interpretação para sua Planeta água. A parte negativa veio também do público: ao ser anunciado que a música Purpurina, de Jerônimo Jardim, ficou com o primeiro lugar (superando a canção de Guilherme Arantes), a intérprete Lucinha Lins foi recebida com xingamentos e vaias.

Em 1981, pela primeira vez Roberto Carlos explicitou que colocava as emoções em seu palco. Emoções que começaram neste ano e nunca mais saíram. Emoções era o nome do show que Roberto lançou ao final deste ano, com direção musical de Miéle & Bôscoli e arranjos de Eduardo Lages. Eis o repertório:

O circo (Abertura)
Emoções
Café da manhã
Força estranha
O gosto de tudo
Desabafo
Amante à moda antiga
Cama e mesa
Eu preciso de você
Detalhes
As baleias
Outra vez
Nós, os músicos
Ele está pra chegar
Amigo
Retrato musical: Namoradinha de um amigo meu / As curvas da Estrada de Santos / Sua estupidez / Traumas / Lady Laura / Jesus Cristo / El día que me quieras / Cavalgada
Emoções


Os coreógrafos Mário e Mauro Monteiro (o mesmo de Frank Sinatra em seu show no Brasil) ousaram ao colocar o palco do Canecão no nível do chão. Também houve a utilização de um recurso chamado "flash back/flash back on", para que o público acompanhasse uma biografia dinâmica de Roberto Carlos.

As canções de Emoções foram escolhidas de acordo com sete elementos. Repulsa pela violência, amor pelos amigos, amor pela carreira, amor pela criança, amor pela família, amor pela natureza e misticismo eram os critérios de escolha.

Pela primeira vez desde o início de seus grandes shows Roberto Carlos não dedicou exclusivamente uma parte a recordar canções da Jovem Guarda. Em compensação, o momento chamado Retrato musical dedicou um pout-pourri que, na linha do tempo, passou das inocentes histórias jovem-guardistas até o amor erótico presente em suas canções da década de 1970.

O tema "emoções" fez parte de seu Roberto Carlos Especial daquele ano. Em uma conversa com Erasmo Carlos num estúdio, Roberto recordou momentos de início de carreira (no qual era o "cantor mascarado" do Chacrinha e o sucesso de O calhambeque) e o abraço ao parceiro depois de interpretar Amigo. Também vieram lembranças da "maninha" Wanderléa e o dia em que RC participou de uma campanha solidária interpretando A guerra dos meninos no Maracanã.

Em seu especial, Roberto Carlos fez alguns tributos. À seresta, tendo a companhia de Cauby Peixoto e cantando nos Arcos da Lapa. E a dois ícones da música que tinham nos deixado no ano passado: Vinícius de Moraes (no qual RC chamou Maria Bethânia e Tom Jobim, além de convidar Paulo Gracindo e Raul Cortez para declamarem poesias dele) e o conjunto Beatles.

Em meados daquele ano, Roberto Carlos experimentou gravar um disco para os ouvintes de língua inglesa. O LP também chegou ao Brasil, com as seguintes canções:

LADO A

1 - Honestly (Falando sério), de Maurício Duboc e Carlos Colla, com versão de Sue Sheridan

2 - At peace in your smile (Na paz do seu sorriso), de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, com versão de Sue Sheridan

3 - Loneliness, de Paul Williams - Ken Ascher

4 - Sail away, de Billy Falcon

5 - Niagara, de Marvin Hamlisch, Carole Bayer Sager e Bruce Roberts

LADO B

1 - Buttons on your blouse (Os seus botões), de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, com versão de Julie Saires

2 - Breakfast (Café da manhã), de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, com versão de Sue Sheridan

3 - Come to me tonight, de Gary Portnoy e Sue Sheridan

4 - You will remember me (Detalhes), de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, com versão de Sue Sheridan

5 - It`s me again, de Doug McCormick e Dennis Smith

O LP não teve muita repercussão no exterior. Alguns atribuem ao fato do inglês de Roberto ter o sotaque muito carregado. Mas o mais provável é que o disco não teve retorno porque RC repetiu o hábito de seus discos no Brasil: priorizar músicas inéditas. Além das cinco músicas suas vertidas para o inglês, a única canção conhecida era Niagara, que havia sido gravada por Barbra Streissand. Vale o registro de ouvir músicas de sua safra em um novo idioma.

Em solo brasileiro, no final de 1981, Roberto colocou no mercado fonográfico dez gravações novas para emocionar seus ouvintes. Eis o repertório:

LADO A

1 - Ele está pra chegar, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Simples mágica, de Regininha

3 - As baleias, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Tudo para, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Doce loucura, de Maurício Duboc e Carlos Colla

LADO B

1 - Cama e mesa, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Emoções, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - Quando o sol nascer, de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro

4 - Eu preciso de você, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Olhando estrelas, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

As duplas Maurício Duboc e Carlos Colla, Mauro Motta e Eduardo Ribeiro e Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle prosseguiram apresentando suas safras através da voz de Roberto Carlos. Mas RC deixou espaço para uma compositora feminina: Regininha, que ficou muito conhecida alguns anos antes, por sua gravação de Teletema (música de abertura da novela Véu de noiva, da TV Globo).

O repertório de Roberto Carlos e Erasmo Carlos mostrou a vertente religiosa em Ele está pra chegar, mostrou mais um recorte do panorama ecológico através de As baleias, criou uma linda declaração de amor em Eu preciso de você e dedicou duas canções ao amor erótico: Tudo para e Cama e mesa. No entanto, a música mais emblemática do LP de 1981 foi a que batizou o show iniciado naquele ano. Afinal, trata-se de uma canção que, desde que foi cantada pela primeira vez, jamais deixou de fazer parte de um repertório de muitas emoções.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em show da turnê Emoções.

Abraços a todos, Vinícius.

EMOÇÕES - Roberto e Erasmo


Quando eu estou aqui
Eu vivo esse momento lindo
Olhando pra você
E as mesmas emoções sentindo

São tantas já vividas
São momentos que eu não esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que eu contei aqui

Amigos eu ganhei
Saudades eu senti, partindo
E às vezes eu deixei
Você me ver chorar, sorrindo

Sei tudo que o amor
É capaz de me dar
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar

Se chorei
Ou se sorri
O importante
É que emoções eu vivi

São tantas já vividas
São momentos que eu não esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que eu contei aqui

Mas eu estou aqui
Vivendo esse momento lindo
De frente pra você
E as emoções se repetindo

Em paz com a vida
E o que ela me traz
Na fé que me faz
Otimista demais

Se chorei
Ou se sorri
O importante
É que emoções eu vivi...

domingo, 31 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1980



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua a apresentar ano a ano cada parte do cinquentenário da carreira de Roberto Carlos. Hoje, este blogue apresenta o início de mais uma década na estrada musical de RC.

O ano de 1980 mostrou ao mundo como a Guerra Fria continuava com suas tintas fortes. Os Estados Unidos boicotaram as Olimpíadas de Moscou. Felizmente, nem a ausência dos americanos comprometeu a linda festa soviética, nos Jogos Olímpicos que tiveram o ursinho Misha como mascote.

O Brasil já tinha alguns ares de democracia, com as eleições diretas para governadores de estados novamente ocorrendo de maneira direta. Os "senadores biônicos" também deixaram de existir.

Entretanto, alguns militares radicais ainda não admitiam o fim do regime militar, e aterrorizavam o país com bombas explodindo em bancas de jornal, hotéis, escolas, supermercados e em sedes de jornal. Os ataques aconteceram no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Belém e São Paulo. O caso mais chocante foi a carta-bomba enviada à sede da Ordem dos Advogados Brasileiros, na qual a secretária Lyda Monteiro faleceu.

No futebol, o Internacional perdeu a chance de vencer a Taça Libertadores da América pela segunda vez. O campeão brasileiro do ano anterior chegou à final contra o uruguaio Nacional e, após o empate em 0 a 0 em Porto Alegre, foi derrotado por 1 a 0 em Montevidéu.

Com a CBF fazendo a organização do Campeonato Brasileiro, o torneio passou a ter três divisões (a Taça de Ouro, com os 40 melhores clubes da época, e as Taças de Prata e de Bronze). Os quatro melhores clubes da Taça de Prata se classificavam para a segunda fase, e jogavam contra os 28 classificados da Taça de Ouro.

Em junho de 1980, o Brasil começou a conhecer o maior campeão da década. Num time formado por Júnior, Andrade, Nunes e Zico, o Flamengo se tornou o melhor do país mesmo depois de perder a primeira partida para o Atlético Mineiro por 1 a 0, em Minas. No segundo jogo, a equipe carioca derrotou os mineiros por 3 a 2 e foi campeã pela primeira vez.

Em 8 de dezembro de 1980, a música perdeu o símbolo de quem, através das canções, pedia uma chance à paz e imaginava um paraíso. John Lennon teve sua carreira interrompida por Mark David Chapman. O homem, que se dizia fã de Lennon, atirou à queima-roupa quando ele voltava para sua casa, em Nova Iorque. O assassino disse que ao ler o livro O apanhador no campo de centeio encontrou uma mensagem subliminar que o mandava assassinar o ex-Beatle. No mesmo ano, as artes brasileiras tiveram duas perdas: o poetinha Vinícius de Moraes e o dramaturgo Nelson Rodrigues. Todos no último mês do ano.

Neste ano, a televisão brasileira perdeu sua pioneira. Após anos se arrastando em dívidas e já sem o direito de sete de suas dez concessões avaliadas, a TV Tupi teve sua concessão cassada definitivamente pelo governo Figueiredo. Em 18 de julho, o ator e locutor Cévio Cordeiro leu uma mensagem destinada ao presidente pedindo para que a emissora não fosse fechada. Mas de nada adiantou. As últimas imagens foram os dizeres "Até breve, telespectadores. Rede Tupi". O governo abriria espaço para a fundação de duas novas emissoras de televisão, mas isto é um assunto para um próximo post.

A TV Globo se consolidava mesmo no primeiro lugar dentre as televisões brasileiras, com a tecnologia extremamente superior às concorrentes. A emissora abriu espaço para uma disputa musical - o MPB 80. Repetindo o sucesso do festival exibido pela TV Tupi no ano anterior, Oswaldo Montenegro interpretou a primeira colocada deste festival - Agonia, de autoria de seu irmão de criação, Mongol. Em segundo lugar, ficou a canção Foi Deus que fez você, de autoria de Luiz Ramalho e interpretada por Amelinha. Também se destacaram no festival o cantor Jessé (eleito melhor intérprete depois de apresentar Porto solidão) e o cantor Eduardo Dusek, que já havia polemizado ao cantar a irreverente Nostradamus com asas de anjo e uma cueca samba-canção e, na finalíssima, decidiu trocar a música da primeira fase para divulgar a canção Barrados no baile, também de sua autoria.

Roberto Carlos começou o ano com uma grande perda. Em janeiro, seu pai, Robertino Braga, faleceu, e RC não teve como continuar em seu enterro devido à aglomeração de fãs. Sua generosidade musical se estendeu ao disco de seu primeiro amigo. Erasmo Carlos realizou o ambicioso projeto Erasmo Carlos convida..., com 12 faixas dedicadas a encontros musicais. Maria Bethânia, Gal Costa, Rita Lee, Jorge Ben, Nara Leão, os conjuntos As Frenéticas e A Cor do Som, Gilberto Gil, Wanderléa e Tim Maia foram alguns dos convidados da festa. E o encontro que abriu o disco foi justamente o dueto dos parceiros Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Os dois cantaram Sentado à beira do caminho, encontro que deu tão certo que volta e meia eles interpretam nos especiais de RC.

Roberto continuou presente na programação de fim de ano da TV Globo. E seu Roberto Carlos Especial exibido no dia 23 de dezembro começou com a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Pela primeira vez, Roberto não recebeu convidados em seu programa. Boa parte do especial trouxe números dele cantando num show gravado no Anhembi. No repertório, sucessos como Outra vez, Amigo e Café da manhã mesclados a música lançadas em seu disco daquele ano.

O programa encerrou com RC em frente à Organização das Nações Unidas, na companhia de várias crianças e cantando A guerra dos meninos, música que abriu apoteoticamente o LP de 1980. Eis o repertório do disco:

LADO A

1 - A guerra dos meninos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - O gosto de tudo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 - A ilha, de Djavan

4 - Eu me vi tão só, de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro

5 - Passatempo, de Maurício Duboc e Carlos Colla

LADO B

1 - Não se afaste de mim, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Procura-se, de Roberto Carlos e Ronaldo Bôscoli

3 - Amante à moda antiga, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Tentativa, de Márcio Greyck

5 - Confissão, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

Alguns autores de meados da década anterior permaneceram em 1980. Roberto deu espaço a outro compositor: Djavan, que começava a se destacar em músicas como Fato consumado e Flor de lis. No entanto, para que A ilha fosse gravada, o alagoano teve de "adequar" a letra. O verso "um cheiro de amor empestado" teve de mudar para "um cheiro de amor espalhado".

Pela primeira vez desde que se tornou arranjador dos shows de Roberto Carlos, Eduardo Lages assinou o arranjo de uma das canções do LP do cantor. Só que ainda não foi de uma música sua. O maestro fez o arranjo de Tentativa, música de Márcio Greyck.

Pela primeira vez desde João e Maria, em 1959, Roberto Carlos assinou uma canção com outro artista que não fosse Erasmo Carlos. O coautor foi Ronaldo Bôscoli, que mais tarde declararia que Procura-se não é das melhores canções, mas já valeu a pena ter acabado com a hegemonia de Erasmo.

A introspecção amorosa da canção de RC e Bôscoli ficou presente em uma outra canção de Roberto e Erasmo: a declaração de amor de O gosto de tudo. Em compensação, o amor mais despreocupado, mais jovial apareceu na música que abre o lado B do LP - Não se afaste de mim.

Mas o amor se derramava em outra canção. Sem pudor de ser rotulado como antiquado, Roberto Carlos aproveitou o ano de 1980 para viver um simpático amante à moda antiga.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos em uma emissora francesa, cantando a versão de A guerra dos meninos para a língua de lá.

Abraços a todos, Vinícius.

AMANTE À MODA ANTIGA - Roberto e Erasmo

Eu sou aquele amante à moda antiga
Do tipo que ainda manda flores
Aquele que no peito ainda abriga
Recordações de seus grandes amores

Eu sou aquele amante apaixonado
Que curte a fantasia dos romances
Que fica olhando o céu de madrugada
Sonhando abraçado à namorada

Eu sou do tipo de certas coisas
Que já não são comuns nos nossos dias
As cartas de amor, o beijo na mão
Muitas manchas de batom daquele amasso no portão

Apesar de todo o progresso
Conceitos e padrões atuais
Sou do tipo que na verdade
Sofre por amor e ainda chora de saudade

Porque sou aquele amante à moda antiga
Do tipo que ainda manda flores
Apesar do velho tênis e da calça desbotada
Ainda chamo de querida a namorada

A minha namorada...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

50 anos de emoções - 1979



Olá, amigos.

A série 50 anos de emoções continua sua saga, apresentando em cada post um ano de carreira de Roberto Carlos. Com o post de hoje, a série encerra mais uma década de RC.

O ano de 1979 trouxe alguns acenos pela paz. Os Estados Unidos e Portugal voltaram a ter relações diplomáticas com a China. Também em território norte-americano Egito e Israel assinaram um acordo de paz.

No entanto, neste ano o Irã voltou a pegar em armas. O governo dos xás ficava cada vez mais impopular, principalmente pela pressão vinda do Ocidente, e o Xá Reza Pahlevi foi deposto depois de 38 anos no poder. Em seu lugar, ascendeu ao poder o Aiatolá Ruhollah Khomeini, um líder xiita que instaurou o islamismo no país.

O Iraque também passaria por uma grave alteração política. O presidente iraquiano Hasan al-Bakr renunciou e, em seu lugar, chegou ao poder o vice-presidente Saddam Hussein. Era o início de uma longa ditadura iraquiana.

Em 28 de março de 1979, o mundo voltou suas atenções para a Pensilvânia, quando em Three Mile Island teve um grande acidente nuclear, no qual cinco mil habitantes ficaram contaminados pela radioatividade. O vazamento aconteceu devido a problemas elétricos e mecânicos na central nuclear de lá.

Em 15 de março, houve a última troca presidencial do ciclo dos militares. O general João Baptista Figueiredo assumiu a presidência, prometendo fazer do Brasil uma democracia. No dia 28 de agosto, ele sancionou a Lei da Anistia, que permitiu a volta de pessoas que tiveram seus direitos cassados durante o regime militar. Pessoas como Fernando Gabeira e Betinho tiveram permissão para regressar ao país. Em 22 de novembro, Figueiredo fez uma reforma política na qual permitiu o pluripartidarismo. A Arena e o MDB foram extintos.

O Campeonato Brasileiro de 1979 foi o último torneio a ser organizado pela Confederação Brasileira de Desportos. A FIFA havia determinado que haveria um desmembramento de todos os esportes, e o torneio passaria a ser organizado pela Confederação Brasileira de Futebol. Este campeonato entraria para a história como o mais inchado de toda história: foram 94 clubes a disputar o título de melhor do Brasil.

A forma de abrigar todos os clubes foi, na primeira fase, dividir 80 times em oito grupos de dez. Na segunda fase, 12 clubes de expressão começavam a participar do torneio, ao lado dos 44 clubes classificados da fase anterior. O campeão Guarani e o vice Palmeiras entraram só na terceira fase, quando 16 clubes se dividiram em quatro grupos e cada um dos vencedores do grupo ia para a semifinal. O regulamento apresentou uma situação curiosa: o Palmeiras ficou em terceiro lugar mesmo tendo jogado somente cinco partidas.

A final ocorreu nos dias 20 e 23 de dezembro, e consagrou o Internacional como o maior campeão da década, com três títulos nacionais. O time gaúcho foi campeão após derrotar o Vasco nas duas partidas finais - por 2 a 0 no Maracanã (com dois gols de Chico Spina) e por 2 a 1 no Beira-Rio (Jair e Falcão marcaram para o colorado e Wilsinho descontou para o Vasco). O Inter de 1979 entrou para a história como o único campeão invicto da história do Campeonato Brasileiro. Em 23 partidas, foram 16 vitórias em sete empates.

Convivendo com uma grave crise financeira, a TV Tupi tentou recuperar a audiência ressuscitando a época dos festivais de Música Popular Brasileira. O Festival de MPB foi organizado, e deu o primeiro lugar à música Quem me levará sou eu, de autoria de Manduka e Dominguinhos e interpretada por Fagner. No segundo lugar, Walter Franco foi premiado pela música Canalha, de sua autoria. E, em terceiro lugar, Oswaldo Montenegro começou a ser conhecido ao interpretar com José Alexandre sua canção Bandolins. O festival apresentou também músicas novas de Gilberto Gil (Palco, defendida pelo grupo A cor do som) e a fantástica Para Lennon & McCartney (dos irmãos Márcio e Lô Borges e de Fernando Brant), na voz de Simone.

Ao contrário da TV Tupi, a Rede Globo continuava sua ascensão, recebendo vários prêmios no exterior. O Roberto Carlos Especial daquele ano teve como tema o "circo eletrônico", forma de celebrar os 15 anos da TV Globo. Além de começar o programa visitando vários estúdios da emissora, RC dedicou blocos aos artistas da TV e recordou alguns números de especiais anteriores.

Num deles, o cantor abriu espaço para vários humoristas, contracenando com Jô Soares (no papel do Professor Sardinha), Agildo Ribeiro (que fez o Professor Pelophitas, enquanto RC fazia o papel da Múmia Paralítica), Chico Anysio (no papel de Salomé) e o grupo Os Trapalhões. Em outro, Roberto abriu espaço para misturar poesia e música, convidando os atores Francisco Cuoco, Paulo Gracindo, Dina Sfat e Vera Fischer para declamarem poemas de Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira e Ronaldo Bôscoli.

RC também apresentou uma vertente de autor, contracenando com Christiane Torloni numa cena que mostrava o cotidiano de um casamento em crise. A cena foi sublinhada pela canção Às vezes penso, primeira música de seu maestro Eduardo Lages - com letra de Paulo Sérgio Valle - a ter gravação de Roberto Carlos. Supõe-se que a cena foi inspirada no casamento de Roberto e Nice, que havia se desfeito no ano anterior.

Na parte musical, RC cantou Detalhes tendo a companhia dos pianistas João Castro Martins e Arthur Moreira Lima. Pela primeira vez, ele dividiu os vocais com Maria Bethânia, num encontro que teve um dado raríssimo: foi a única vez que RC dividiu os vocais para interpretar uma canção que ele gravara originalmente para o LP daquele ano: Desabafo.

Do novo LP também foram apresentadas as canções Na paz do seu sorriso, Me conte a sua história e O ano passado.

No ano seguinte a homenagear sua mãe em Lady Laura, Roberto Carlos homenageou seu pai, o seu Robertino, na canção Meu querido, meu velho, meu amigo. No clipe da música, três gerações apareceram: Roberto Carlos com seu pai, Robertino, e seu filho, Segundinho.

O LP anual de Roberto Carlos trouxe dez músicas. A partir de 1979, seus discos de inéditas passariam a ter, no máximo, este número de canções. Eis o repertório:

LADO A

1 - Na paz do seu sorriso, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Abandono, de Ivor Lancellotti

3 - O ano passado, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Esta tarde vi llover, de Armando Manzanero

5 - Me conte a sua história, de Maurício Duboc e Carlos Colla

LADO B

1 - Desabafo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

2 - Voltei ao passado, de Mauro Motta e Eduardo Ribeiro

3 - Meu querido, meu velho, meu amigo, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

4 - Costumes, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

5 - Às vezes penso, de Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle

Pelo terceiro ano consecutivo, Roberto Carlos abriu a voz para uma música de Armando Manzanero - a belíssima Esta tarde vi llover. Em meio às várias duplas de seus compositores (os constantes Maurício Duboc e Carlos Colla e Mauro Motta e Eduardo Ribeiro e os estreantes Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle), RC abriu espaço para uma música feita por um só artista: a triste Abandono, de Ivor Lancellotti.

O LP abriu com a doce Na paz do seu sorriso e teve uma nova canção que falava sobre ecologia: a primorosa O ano passado. Além de Meu querido, meu velho, meu amigo, Roberto e Erasmo assinaram Costumes, na qual RC falava sobre a dificuldade em esquecer coisas de um dia-a-dia de um casal.

Mas a canção mais marcante do LP veio através de um desabafo. A música que abre o lado B do disco de 1979 colocou o dedo na ferida de um homem que se vê sufocado em um relacionamento.

Segue a letra! Na foto, Roberto Carlos no último ano da década de 1970.

Abraços a todos, Vinícius.

DESABAFO - Roberto e Erasmo

Por que me arrasto aos seus pés
Por que me dou tanto assim
E por que não peço em troca
Nada de volta pra mim?

Por que é que eu fico calado
Enquanto você me diz
Palavras que me machucam
Por coisas que eu nunca fiz?

Por que é que eu rolo na cama
E você finge dormir?
Mas se você quer eu quero
E não consigo fingir

Você é mesmo essa mecha
De branco nos seus cabelos
Você pra mim é uma ponta
A mais nos meus pesadelos

Mas acontece que eu
Não sei viver sem você
Às vezes me desabafo
Me desespero porque

Você é mais que um problema
É uma loucura qualquer
Mas sempre acabo em seus braços
Na hora que você quer